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NOTAS SOBRE O ESQUECIMENTO E A MEMÓRIA ARTIFICIAL

3. A MEMÓRIA DA MEMÓRIA

3.3. NOTAS SOBRE O ESQUECIMENTO E A MEMÓRIA ARTIFICIAL

Seria pretensão minha como pesquisadora desejar a fidelidade dos fatos em uma narrativa das histórias de vida dos professores, pois os esquecimentos, como me lembra Ricoeur (2007, p 40), não devem ser tratados como uma disfunção, mas como “o avesso de sombra da região iluminada da memória”. É, então, o esquecimento, parte integrante da memória, é elemento guardado da memória, ausente no presente. Assim, Santo Agostinho me pergunta:

Que é esquecimento senão a privação da memória? E como é, então, que o esquecimento pode ser objeto da memória se, quando está presente, não me posso recordar? Se nós retemos na memória aquilo de que nos lembramos, e se nos é impossível, ao ouvir a palavra ‘esquecimento’, compreender o que ela significa, a não ser que dele nos lembremos, conclui-se que a memória retém o esquecimento.

A presença do esquecimento faz com que o não esqueçamos; mas quando está presente, esquecemo-nos.

Não se deverá concluir que o esquecimento, quando o recordamos, está presente na memória, não por si mesmo, mas por uma imagem sua? De fato, se ele estivesse presente por si mesmo, faria com que

o não lembrássemos, mas o esquecêssemos. Quem poderá

penetrar, quem poderá compreender o modo como isto se realiza? (AGOSTINHO, 1980, p.16)

Como então na antiguidade, sem a memória artificial dos registros (a memória dos textos escritos, dos vídeos com imagens em movimentos, as memórias fotográficas arquivadas em museus e em nossas casas) os gregos exercitavam ou recorriam à memória?

Smolka (2000) me traz informações concernentes com essa história que conto, quando cita os tipos de exercícios utilizados para a memorização na antiguidade grega, como a

prática da memória nos exercícios para aprender (a exemplo dos pitagóricos), prática da memória no exercício da palavra em público, na oratória; prática da memória como retórica, como palavra sedutora, persuasiva, convincente. Importância e necessidade de exercitar a memória: além da reminiscência, o esforço da recordação. Memória não tanto, ou não só, como deusa. Dessacralização da memória. Memória não apenas como tradição. Memória como techné, Mnemotécnica. Arte da memória. (SMOLKA, 2000, p.170)

Simônidas de Céos, personagem da nossa história, poeta e pintor, trabalhando com imagens e palavras me parece apresentar mais claramente essa técnica da recordação mnemônica estipulando dois passos: lembranças e criação de imagens da memória e organização das imagens. Nessa pesquisa, posso configurar a criação das imagens e rememoração como a preparação para a escrita dos memoriais das professoras participantes da pesquisa.

Os memoriais são pintados de pessoas, traz as cores das estradas, dos pés, do chão, são pintados de risos, cheiros e gostos, são recortes e colagens, figuras que se embaralham e criam peças únicas. As palavras ditas e escritas pela memória vão formando cenários íntimos e tão próprios quanto as digitais de cada um, com histórias que dialogam umas com as outras e traçam a vida e a formação de um sujeito.

Continuando essa história cheia de lembranças, imagens e escritos, que pressupõe garantir o registro escrito da minha compreensão sobre a memória, é importante ressaltar que Platão desconfiava da memória garantida pelo escrito. Compreendia que o registro escrito retirava daquele que escreve o exercício da memória, uma vez que o escritor deposita toda a confiança num elemento exterior e não na alma, e não no interior da memória pura.

Apesar de o próprio Platão ter publicado seus textos, esse pensamento a respeito da escrita, do registro da historia, da historiografia, emerge contado mitologicamente no diálogo entre Sócrates e Fedro, quando Fedro cria o nascimento mítico da invenção da escrita, protagonizado pelo deus Thoth na região de Náucratis no Egito, sob o governo de Tamuz. Em sua narrativa é a memória verdadeira que a escrita ameaça.

Dizem que Tamuz fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condensações e louvores cuja menção seria por demais extensa. Quando chegaram à escrita, disse Thot: ‘Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria’. Responde Tamuz: ‘Grande artista Thot! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que exercem. Tu como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto por meio de sinais, e não em si mesmos [...] (PLATÃO, 2001, p.119)

A narrativa continua com considerações sobre a escrita, apontando a desvinculação do texto daquele que escreve à medida em que se publica. Sócrates no diálogo analisa o texto a partir do momento em que ele é escrito como um “discurso a vagar” desprotegido do dono, onde a interpretação é de um interlocutor qualquer, sem possibilidades de se defender sozinho. Contrapondo à escrita surge na pauta do diálogo a eloqüência da oralidade, dos textos oralizados pelo autor como superior, num patamar de discurso vivo e sem simulacros, sentado ao lado do enunciador, “refiro-me ao discurso conscienciosamente escrito com a ciência da alma, ao discurso que é capaz de defender a si mesmo e que sabe diante de quem convém falar e diante de quem é preferível calar” (PLATÃO, 2001, p.120).

Na pesquisa realizada por mim, as professores num movimento de narrativa dupla, tanto disponibilizam os memoriais para a leitura, como participam de um grupo focal. Compreendo nessas narrativas que a escrita, também considerada como memória artificial, não é de fato exercício da memória, mas do rememorar. Aqui a busca da escrita não é para a memória, mas emerge no saber que ela oferece, é para despertar através do rememorar que a escrita está a serviço.

4. O HORIZONTE AUTOBIOGRÁFICO NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR: o