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Como se dão nossos processos de rememoração; em que medida eles sustentam nossa construção identitária; quais são os impasses para rememorar eventos que causaram sofrimento; qual o papel das relações sociais e outros artefatos que compõem nosso entorno na construção da memória e da identidade; qual o uso que fazemos de diferentes mídias para expressar/registar recordações; como moldamos nossas recordações em narrativas e o inverso; como atribuímos sentido a essas recordações; quais são as consequências do tempo na mudança ou reforço de certos entendimentos que construímos sobre nossas recordações; como algumas narrativas sobre o passado se estabilizam e acabam por prevalecer sobre outras? Essas são as principais questões que foram exploradas no curso desta pesquisa.

Este trabalho busca compreender, a partir de uma explicação sociológica, como se dão os processos de rememoração e outros processos derivados (como o de construção identitária) a partir de um material empírico orgânico e socialmente constituído a partir de relatos de ex-internos de uma instituição governamental para menores abandonados e em conflito com a lei. A complexidade do material empírico traz à luz outros tópicos problematizadores como, por exemplo, a questão da institucionalização precoce (e, portanto, o isolamento familiar), a relação entre memória e emoção (especificamente o

sofrimento e o trauma), e a relação entre mente e tecnologias sociais. Objeto (processos de rememoração) e objeto empírico (rede de ex-internos), contudo, não estão desconectados, guardam apenas correlações espúrias ou foram escolhidos aleatoriamente. Muito pelo contrário, a rede de ex-internos se formou a partir de uma sociabilidade baseada na memória, assim suas práticas e sentidos veiculados giram em torno de suas memórias.

Como a rememoração é um processo, ou seja, está em constante reconstrução de acordo com o momento presente, partimos da premissa de uma ontologia social relacional e processual a fim de captar as mudanças ao longo do tempo. Se lidamos com processos, não cabe a este trabalho investigar uma “suposta verdade factual" acerca de tais memórias, uma vez que pretendemos entender como esse meninos que tiveram o início de suas vidas dentro de uma instituição total constroem narrativas sobre seus passados, sendo essas um espaço para a sua própria construção identitária.

O cruzamento de diferentes abordagens teóricas que usaremos aqui busca traçar uma abordagem alternativa, completa e compreensiva que dê conta da realidade empírica pesquisada. Nesse sentido, este trabalho, além de trazer uma análise sobre o caso em questão, também se propõe a apresentar uma síntese conceitual para compreensão dos processos de rememoração. Para tal, reconhecemos os princípios gerais da Sociologia da Memória inaugurada por Halbwachs e, em face às suas limitações, buscamos desenvolvê-los, complementá-los e articulá-los com conhecimentos advindos de outras áreas (como a Filosofia da Mente). E, também, buscamos dar um tratamento interpretativo aos dados coletados, com base em uma abordagem que busca entender quais os sentidos atribuídos pelos ex-internos aos seus passados e quais deles são validados ou não nessa rede de relações. Essa abordagem privilegia “o discurso ou o quê as pessoas dizem e como elas dizem, associado a objetos culturais” (Turner, 2018, p. 4). No nosso caso, isso significou levar em consideração os processos mnemônicos em sua complexa relação com os processos sociais, mas também outros processos subjetivos, como é o caso da possível formação de um trauma. Para isso, consideramos

todos os “textos” (orais ou escritos) produzidos pelos ex-internos em questão. Como interagiam e expressavam suas recordações de forma muito fragmentada, transitando entre o ambiente virtual e não virtual, e em textos mais ou menos completos, optamos por adotar quatro técnicas qualitativas de coleta de dados: i.) entrevista coletiva biográfica (única entrevista com cerca de trinta ex-internos simultaneamente), ii.) entrevistas biográficas em profundidade (não padronizada com nove ex-internos), iii.) etnografia (dos encontros anuais presenciais dos ex-internos) e iv.) netnografia (das páginas de Facebook onde os ex-internos interagem). Como veremos, a Análise de Redes foi uma técnica suplementar que nos ajudou a mapear os ex-internos e suas redes de relações. Embora a Análise de Redes tenha um caráter quantitativo (no sentido da estruturação dos dados e aplicação de funções algorítmicas para desenhar e analisar as redes de relações), ela serviu como guia para a multiplicidade de dados qualitativos coletados. Considerando este aspecto, é possível dizer que a presente pesquisa se valeu de um mix-mode design, que foi definido no curso da pesquisa, concomitantemente com o surgimento de questões próprias do contexto estudado. Uma pesquisa qualitativa tem esse caráter de bricolagem, montagem ou colcha de retalhos de métodos que possam justapor pedaços da realidade de forma simultânea. Essa multiplicidade de métodos qualitativos em uma pesquisa ficou conhecida como “triangulação” (Denzin & Lincoln, 2008) na tentativa de “assegurar uma compreensão profunda do fenômeno em questão” (Denzin & Lincoln, 2008, p. 7). Nesse sentido, “a combinação de múltiplas práticas metodológicas, materiais empíricos, perspectivas [...] adiciona rigor, amplitude, complexidade, riqueza e profundidade à pesquisa” (Denzin & Lincoln, 2008).

Dentre todas as possibilidades de se proceder com uma abordagem interpretativa partimos da premissa básica de que a realidade não é singular e objetiva, mas moldada pelas experiências humanas e pelo contexto social (aspecto ontológico), por isso busca-se reconciliar esse contexto sócio- histórico com as experiências e consequentemente as interpretações subjetivas (epistemológico). Nesse sentido, a abordagem metodológica buscou dialogar

com a perspectiva teórica, abrindo-se para técnicas qualitativas variadas que buscou dar conta das várias dinâmicas e espaços nos quais as práticas e sentidos visados se desenrolaram ao longo do tempo.

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