CAPÍTULO 5 – História Indígena no projeto “Planos de Aula Nova Escola”
5.1 Nova Escola: história, fundamentos e produtos
A revista Nova Escola foi lançada, em versão impressa, no ano de 1986. Criada pela Fundação Vitor Civita, que se define como uma entidade privada de direito público, tem como foco a melhoria da educação brasileira (KRAUSE, 2018). Em sintonia com os objetivos da Fundação, criada em 1985 pelo empresário Vitor Civita, fundador do grupo Editora Abril, a Nova Escola foi justificada como proposta para o ―incentivo ao trabalho docente e materiais de apoio às práticas pedagógicas‖ (KRAUSE, 2018).
Mais de uma década depois de sua criação, foi lançada, em 1998, a página virtual da Nova Escola (novaescola.org.br), trazendo a possibilidade de acesso a diferentes materiais de ensino. Assim, além do conteúdo impresso da revista, os/as professores/as puderam ter acesso online a vídeos, jogos, testes, infográficos, recursos didáticos, cursos online, opções de download de Planos de Aula etc. Nessa plataforma digital é que coletamos nosso corpus de análise, isto é, os Planos de Aula produzidos no âmbito do ―projeto Planos de Aula NOVA ESCOLA‖.
É interessante notar que, no contexto de sua fundação, ao final da Ditadura Civil-Militar e no momento de redemocratização da educação brasileira, a Revista Nova Escola se auto definia como ―fonte legítima e verdadeira para levar ‗informações necessárias‘ para atualizar, informar, instruir e ajudar o professor em um ‗processo de mudança, que ora se verifica no país‖ (CARVALHO, 2019, p. 22). Ao analisar esse discurso de apoio à educação pública, estudiosos têm chamado atenção para a representação dos/as professores/as e a concepção de trabalho docente que a Nova Escola passou a difundir no Brasil. Quanto a isso, Sthéfani de Carvalho, em análise linguístico-discursiva do projeto Planos de Aula NOVA ESCOLA, observou que a Nova Escola se baseia na crítica à Educação Básica pública e ao trabalho docente, promovendo uma visão dos/as professores/as como ―despreparados e carentes de
formação‖, culpabilizando também os cursos de licenciatura. Desse modo, ―culpar o professor pelo sucesso ou fracasso educacional, assim como alegar que a qualidade da educação precisa ser melhorada faz parte de um quadro que se repete, de maneira que foi naturalizada ao longo de nossa história (CARVALHO, 2019, p. 17).
Também Sinésio Ferraz Bueno faz menção à visão da Nova Escola a respeito do/a professor/a e seu ofício, sinalizando que
Sua fórmula consistiria (...) em descaracterizar a categoria ―professor‖ da especificidade que ela possui, reduzindo-a a mais um entre outros estereótipos da indústria cultural. (...) Desincumbido de sua especificidade, ao professor resta apenas o consumo distraído de fórmulas que o põem em sintonia com uma totalidade que assim permanece imune à crítica. (...) Os antagonismos próprios ao campo educacional, que refletem as contradições da própria sociedade, desaparecem na maior parte das reportagens e artigos da revista, prevalecendo uma visão operacional amparada na iniciativa pessoal como recurso suficiente para a resolução dos problemas pedagógicos. Os profissionais da área pedagógica são esvaziados de sua especificidade como possíveis agentes problematizadores das tensões sociais e reduzidos exclusivamente à dimensão prática de seu ofício (2007, p. 304).
Se por um lado a Nova Escola vem atuando na propagação de um discurso de desvalorização da educação pública e de seus docentes, o qual precisa de suas fórmulas, saberes, orientações e dicas para o trabalho docente; por outro lado, ao focar na dimensão prática e operacional de seu ofício, reforça a ideia de que aos/às professores/as ―basta fazer a sua parte para que os problemas educacionais sejam resolvidos‖ (BUENO, 2007, p. 303). Isso joga para os/as docentes toda a responsabilidade de transformação da educação escolar, que deveria ser compartilhada com o Estado e com vários outros setores da sociedade. Ainda conforme esse pesquisador, nos conteúdos da Revista Nova Escola observa-se que
Os antagonismos próprios ao campo educacional, que refletem as contradições da própria sociedade, desaparecem na maior parte das reportagens e artigos da revista, prevalecendo uma visão operacional amparada na iniciativa pessoal como recurso suficiente para a resolução dos problemas pedagógicos. (...) Escolas em que os Conselhos Escolares se mobilizam para arrecadar recursos não públicos para a realização de reformas e aquisição de equipamentos são saudadas como exemplo de parceria bem-sucedida entre pais, comunidade e professores, sem que a precariedade implícita da relação entre escola pública e Estado, decorrente do modelo neoliberal do Estado mínimo, seja problematizada. Experiências bem-sucedidas e premiadas pela própria revista são exaustivamente apresentadas com
o objetivo de motivar o professor para a reprodução dos projetos por conta própria, entretanto, sem o acompanhamento de uma reflexão crítica sobre a grave crise de um contexto educacional no qual há a necessidade desse tipo de recurso (BUENO, 2007, p. 304-305).
As críticas de Carvalho e Bueno chamam atenção também para o lugar que o empresariado brasileiro vem ocupando nas políticas públicas educacionais. O apoio à educação básica, anunciado pelo capital privado como a Nova Escola e sua então mantenedora a Fundação Vitor Civita, deve ser analisado dentro do quadro de crescente interferência do empresariado na educação brasileira. Este vê no sistema educacional a formação de mão de obra qualificada para os interesses de seus projetos econômicos. Nesse sentido, ao fazerem a crítica à má qualidade da educação pública advogam intervir na gestão do sistema público de ensino, promovendo sua reestruturação dentro de uma lógica neoliberal. Há um sentido estritamente pragmático nesses ―investimentos‖ que os setores privados têm empregado na educação básica, com a finalidade de torná-la viável e lucrativa no atendimento às demandas do capital. Tais grupos não só investem recursos financeiros na educação, como também conseguem captar recursos estatais para suas instituições privadas, autodeclaradas parceiras e apoiadoras da educação pública. Como bem observou Silveira em 2006, a Revista Nova Escola, ao seguir essa tendência empresarial no campo da educação,
(...) só pôde ser lançada graças ao apoio recebido de algumas empresas privadas e do Ministério da Educação, que assinou contrato com a Fundação, através do qual todas as 220.000 escolas públicas de 1º Grau [atual Ensino Fundamental] existentes no país nesse período passaram a receber, mensalmente, um exemplar da revista. (SILVEIRA, 2006, p. 9).
De acordo também com Marisa Vorraber Costa e Rosa Maria Hessel Silveira
Grande parte da distribuição do periódico ocorria através desse convênio e o restante via bancas de revistas e assinaturas. A partir de 1991, durante o governo Collor, o subsídio financeiro estatal foi retirado, dificultando a aquisição da Revista pelas escolas. A partir de fins de 1992, FAE e Fundação Victor Civita voltaram a assinar um acordo, agora restrito ao envio de apenas um exemplar de Nova Escola às escolas urbanas. (COSTA; SILVEIRA, 1998, p. 347).
Assim, sobretudo com o apoio do Ministério da Educação, a Nova Escola tornou-se uma publicação bastante conhecida nas escolas públicas nacionais,veiculando
seus saberes e ideais sobre a educação, a profissão docente e o papel dos/as alunos/as, da escola e da sociedade (RIPA, 2010, p. 106). Além de captar recursos públicos, o acordo com o Ministério da Educação teria ―contribuído para que a revista se mantivesse entre as primeiras do ranking de maior circulação no país. (...) o que representa mais venda de publicidade, mais prestígio, mais lucro‖ (RIPA, 2010, p. 106). Ou seja, embora mantida por uma instituição que se auto identifica ―sem fins lucrativos‖, a Revista Nova Escola trouxe ganhos significativos para o grupo que a mantinha.
Segundo informações disponibilizadas no site da Nova Escola, o acordo com o Governo Federal durou até 2010, ―quando o Ministério da Educação (MEC) começou a realizar licitações públicas, que mantiveram a entrega de NOVA ESCOLA por quatro anos consecutivos‖ (NOVA ESCOLA, 2017). Esse longo relacionamento entre o Estado e a iniciativa privada,
Permitiu, do lado do MEC, veicular e legitimar sua política. Do lado da Fundação Victor Civita, os ganhos se traduziram tanto no plano financeiro quanto no plano político. Entre os ganhos no plano financeiro, pode-se citar, como exemplo, as impressões que eram feitas em sua gráfica; as edições, que desde o primeiro número já ultrapassavam os 300 mil exemplares, sendo que a maior parte era distribuída em 220 mil escolas do país; as vendas em bancas de jornais e por assinaturas; e a veiculação de publicidade paga. Entre os ganhos no plano político, destaca-se, de forma relevante, sua imagem de empresa a serviço do público, uma vez que se propunha a contribuir com a melhoria da qualidade do ensino e com as propostas de mudança em curso no país. (PEDROSO, 1999, p. 176).
Ainda segundo o site, ―em 2015, a venda em bancas e em pontos comerciais foi encerrada e a entrega das edições passou a ser exclusiva para os assinantes‖ (NOVA ESCOLA, 2017). Ao se cadastrar no site da Nova Escola tem-se acesso a conteúdos
online exclusivos, mas não à revista (CARVALHO, 2019, p. 32). Já no início de 2016, a Fundação Vitor Civita transferiu a marca Nova Escola (juntamente com a marca Gestão Escolar) para a Fundação Lemann, criada em 2002 pelo empresário brasileiro Jorge Paulo Lemann, conhecido como ―o homem mais rico do Brasil e 19º entre os mais ricos do mundo‖ (ROSA; FERREIRA, 2018, p. 122).
Assim como a Fundação Vitor Civita, a atual mantenedora da Nova Escola também se coloca como preconizadora da educação pública de qualidade e se auto define como ―uma organização familiar e sem fins lucrativos que colabora com
iniciativas para a educação pública em todo o Brasil e apoia pessoas comprometidas em resolver grandes desafios sociais do país‖ (FUNDAÇÃO LEMANN, 2020). Contando com o apoio do Google.org. e outros apoiadores técnicos, a Fundação Lemann criou então a Associação Nova Escola. Conforme informações divulgadas no site da Nova Escola, ―A Associação Nova Escola é um negócio social, autossustentável e sem fins lucrativos que entrega conteúdos, produtos e serviços para toda a jornada do educador brasileiro‖ (NOVA ESCOLA, 2017). No entanto, como vimos, alguns estudos sobre a trajetória histórica da Nova Escola apontam também para outras intenções. Essas considerações são aqui o nosso ponto de partida na compreensão das condições de produção dos Planos de Aula sobre História Indígena que a Nova Escola vem difundindo mais recentemente.
Em 2017, a Associação Nova Escola lançou um projeto para a criação de mais de seis mil Planos de atividades de Educação Infantil e de Planos de Aula dos componentes obrigatórios do nível Fundamental (Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, Inglês, História e Geografia) alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Desde de 1986, quando a revista Nova Escola foi lançada, observa-se a sua atuação na implementação de reformas curriculares, colocando-se como aliada da educação pública brasileira. Desse modo, a plataforma se apresenta como ―parceira do profissional da Educação no dia a dia do professor e do gestor escolar‖ (NOVA ESCOLA, 2020s). No contexto dos desafios colocados pela implementação da BNCC, a Nova Escola se destaca na internet como espaço de disponibilização de uma série de Planos de Aula. De acordo com os gerenciadores desse projeto, esses Planos visam oferecer ―o passo a passo de aulas, com ideias de boas atividades, dicas de mediação com a turma, resolução comentadas e materiais de referência para todos os professores do Brasil‖ (NOVA ESCOLA, 2020s).
Temos então a continuidade de um discurso recorrente ao longo de mais de trinta anos de publicação da Nova Escola e que é atualizado pela instituição que agora a mantém e dirige. Como ressaltado, trata-se de um discurso característico de grupos empresariais que pleiteiam a interferência da lógica neoliberal nas políticas públicas. Assim, esses grupos se colocam como comprometidos com a educação pública brasileira, preconizando o apoio aos/as professores/as em seu ofício. Embora essa instituição carregue o título de ―sem fins lucrativos‖, de acordo com Cóstola e Borghi,
Indiretamente irá lucrar com as reformas educacionais, seja no âmbito das editoras dos livros didáticos; na formação inicial e continuada de professores; nas avaliações externas; ou no âmbito das empresas que visam ter mão de obra barata, com pouca qualificação, mas com competência produtiva; ou ainda nos diversos outros setores do capital financeiro, como o Banco Mundial, que investem em modelos educacionais do tipo (UNESCO, 1990), atuando na educação pela disputa de orçamento. (CÓSTOLA; BORGHI, 2018, p. 1315).
Dessa maneira, as disputas do setor privado em torno dos currículos envolvem interesses múltiplos e diversos que podem ser consolidados ―tanto por meio da direção quanto da execução das políticas educativas, (...) tanto na agenda educacional quanto na venda de produtos educativos‖ (PERONI; CAETANO, 2015, p. 339). Nesse cenário de disputas é que o ―projeto Planos de Aula da NOVA ESCOLA‖ é lançado em 2019, como ação voltada a criar ―materiais online e gratuitos, para sala de aula, alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Educação Infantil e do Ensino Fundamental‖ (NOVA ESCOLA, 2020s). Apesar da gratuidade anunciada, o acesso ao site da Nova Escola permite visualizar como os aspectos mencionados por Peroni e Caetano, isto é, o direcionamento e execução de políticas públicas e venda de produtos educativos ficam evidentes e encontram-se articulados no contexto atual da Nova Escola.
Ao acessarmos o site da Nova Escola43, na aba intitulada MENU, temos o link ―BNCC NA PRÁTICA‖ (IMAGEM 7) que redireciona para uma página com diversos links que oferecem guias de implementação da Base Nacional Comum Curricular, cursos online voltados para formação e capacitação dos professores/as e gestores e outros recursos pedagógicos voltados ao ensino infantil, fundamental e médio.Como é possível observar ao navegar pelo site, os links disponibilizados
Orientam o público a testes de conhecimentos sobre as competências, como se organiza a base, dicas de como elaborar um currículo e adaptá-lo à base, e-book, livro digital ―gratuito em formato de PDF, sobre os principais pontos do documento para a Educação Infantil‖, formação ―gratuita‖ para se aprofundar sobre as competências gerais e
slides para download com explicações sobre a base, as competências e exemplos para trabalhar em sala de aula. Ou seja, a BNCC é a menina dos olhos da NE. (CARVALHO, 2019, p. 38).
Imagem 7 - Página do site Nova Escola – BNCC na prática
Fonte: Nova Escola. Disponível em https://bncc.novaescola.org.br/ Acessado em: 01 mai. 2020.
Embora alguns dos materiais acessados nesses links sejam liberados gratuitamente, a maior oferta é de serviços disponibilizados, exclusivamente, mediante compra (IMAGEM 8). É o caso da assinatura da Nova Escola Box,
Uma caixa com conteúdos digitais que reúne sugestões de práticas pedagógicas, atividades e jogos, metodologias de ensino e aprendizagem e materiais para a formação continuada do educador. São textos, fotografias, vídeos e e-books (NOVA ESCOLA, 2020n).
Imagem 8 - Cursos pagos da Nova Escola
Ainda conforme o site, em todos os pacotes de assinatura da Nova Escola Box o/a assinante ―tem acesso a 3 caixas de conteúdo digital para a Educação Infantil e Ensino Fundamental todas as semanas, todo o acervo das revistas digitais Nova Escola e Gestão Escolar e todo conteúdo de BNCC na prática‖ (NOVA ESCOLA, 2020n ). Além disso, tem-se a venda de dezenas de cursos e trilhas, a grande maioria relacionados aos conteúdos e diretrizes da BNCC.
Assim, fica claro como a Nova Escola, no momento atual, cobre uma boa parte dos diversos campos de atuação e de venda que se abrem com a implementação da BNCC para as empresas privadas e especialistas em educação, como a produção de guias e de materiais de apoio ao ensino para a implementação da BNCC, sítios na internet com conteúdos inteiramente formulados etc. (CÓSTOLA; BORGHI, 2018). Como bem disse Carvalho (2019, p. 38), ―a BNCC é a menina dos olhos da NE (Nova Escola)‖. O que vemos então no site da Nova Escola é um deliberado esforço em vender formação continuada e materiais didáticos aos/às docentes que atuam nas escolas brasileiras.
Devemos ressaltar que não estamos condenando a venda de cursos e materiais didáticos online, mas colocamos sob suspeita o predomínio de interesses que gerem esse tipo de negócio dentro de uma ótica neoliberal e de comércio da educação. Isso porque a educação no Brasil é um bem democrático que necessita de maior abertura para investimentos a partir de outras lógicas, valores, concepções e epistemologias. Nossa experiência revela que, boa parte dos/as professores/as que atuam nas escolas púbicas do país, não tem condições financeiras para arcar com os custos de materiais didáticos e cursos de formação continuada online, em razão dos baixos salários.
Nesse sentido, é salutar recuperarmos alguns aspectos e debates que se deram em torno da construção da BNCC para o ensino de História, bem como da participação ativa da Fundação Lemann no Movimento pela Base Curricular.