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7 A DECISÃO JUDICIAL NA CONCEPÇÃO DE PROCESSO COMO

7.2 Propostas críticas para a decisão jurídica: a nova concepção da decisão

7.2.1 Nova feição da trilogia estrutural do processo: o processo como um

A primeira construção crítica de um modelo para a trilogia estruturante do direito processual consentânea ao Estado Democrático de Direito e ao giro ontológico-linguístico (linguistic turn), a qual satisfaz os critérios defendidos até aqui, cria um sistema em que o processo, enquanto um conjunto universal, ocupa um todo hermenêutico (condição de possibilidades), o qual abriga suas demais partes, a ação, a jurisdição e a decisão. Tal montagem reflete a separação da decisão de um ato da jurisdição, reposicionando este conceito para o próprio processo, além de incorporar a este ecossistema do direito uma funcionalidade de linguagem.

Dessa forma, o processo abandona sua identidade de um procedimento em contraditório, ou uma relação jurídica, para se transformar em algo mais amplo, uma instituição do Estado Democrático de Direito, organizada em formato de linguagem a qual acomoda os participantes, o representante da jurisdição (o intérprete/juiz) e os partícipes

jurisdicionados, em um ambiente garantista. Nessa perspectiva, o processo torna-se um conjunto de arcos intersubjetivos, ou seja, um conjunto multiverso de possibilidade, responsável pelo desenvolvimento, pela criação e pela resolução das relações jurídicas, com a finalidade de produzir uma decisão judicial justa.

Nesse sistema, a ação torna-se o incidente incitante, destinado a chamar a jurisdição para que esta promova o processo, ou seja, é a habilitação dos jurisdicionados para participarem da construção hermenêutica e democrática do direito no, e pelo processo. Assim, a formação da linguagem processual exige uma ação e a anuência da jurisdição, para, a partir daí, falar-se em processo. O direito de defesa, nesse contexto, equivale, ou ao menos incorpora-se, ao direito de ação, pois é condição de existência para o processo, já que também constitui uma habilitação para integrar a linguagem processual.

A jurisdição, por este foco teórico, transforma-se significativamente, apesar de manter alguma de suas características essenciais, por exemplo: (i) a oferta de um terceiro com o dever de imparcialidade para participar do empreendimento processual; (ii) uma forma de exercício do poder estatal, embora não de forma absoluta sobre o aspecto decisório; (iii) os princípios da indelegabilidade, inafastabilidade, e o juiz natural. Entretanto, por outro lado, dentre as transformações as quais acometem o processo neste paradigma, estas operam de modo simples e abstrato, porém, com efeitos complexos, por exemplo, a jurisdição como técnica de tutela de direitos mediante o processo, nesse universo, transforma-se para o processo, enquanto instituição do Estado Democrático de Direito, responsável por possibilitar a construção democrática e hermenêutica de respostas em conformidade com a Constituição, com a participação da jurisdição por meio de um representante, ou seja, a jurisdição exerce basicamente duas funções primordiais: (i) promover o processo (função exercida pelo ente Estado); e (ii) oferecer um representante, um terceiro com o dever de imparcialidade (juiz/intérprete), para participar da construção da decisão judicial no, e pelo processo.

Portanto, esta concepção teórica da trilogia estruturante do processo, pensada a partir da relevância da decisão judicial no Estado Democrático de Direito, posiciona o processo como elemento central e um conjunto universal, o qual abriga a ação e o representante da jurisdição para o desenvolvimento da linguagem processual, destinada à produção de uma decisão judicial. Entretanto, tal proposta apresenta uma inconsistência, o processo como todo hermenêutico, conjunto universal e instituição do Estado Democrático de Direito, é promovido pela jurisdição, ou seja, a jurisdição exerce uma função dúplice: a de oferecer um representante (o juiz) e a de promover o processo (Estado). Nesse sentido, o conceito

jurisdição não pode ser pensado como algo pertencente ao conceito do processo, pois apenas sua função de oferecer um terceiro com o dever de imparcialidade, para participar da construção processual sob a gravidade normativa, encaixa-se nesse arranjo, isto é, sua função de promover o processo não se adequa à disposição do processo como um todo universal que abriga os conceitos de jurisdição, ação e decisão. A jurisdição, enquanto função contra- majoritária do Estado, ao promover o processo, posiciona-se acima deste conceito, por outro lado, ao fornecer um representante com o dever de imparcialidade e de argumentação, torna- se imersa no processo. Logo, por este comportamento anômalo, o conceito de processo como conjunto universal que contém o conceito de jurisdição não deve prosperar, entretanto, a premissa: o processo como um conjunto universal que contém as partes: ação, decisão e jurisdição, não deve ser totalmente descartada.

7.2.2 (Re)Classificação da estrutura processual em quadrilogia: a ação, o processo, a decisão e a jurisdição

A segunda proposta, em consonância com o exposto, cria um desenho processual em quadrilogia, formado por suas partes, quais sejam: a ação, o processo, a decisão e a jurisdição. Nessa imagem teórica, os signos e os significados do processo são preservados, porém, sob uma disposição diferente a qual coloca os quatro elementos fundamentais como partes autônomas, apesar de ser essencial uma coexistência harmônica e de interdependência entre tais conceitos, para que, assim, cada um possa existir por si só, em outras palavras, tal acomodação revela uma mise en scène, formada por um grupo de conjuntos os quais se intersectam, embora não haja uma relação inclusão. Nessa compreensão, a premissa, construída no tópico anterior, o processo é um conjunto universal que contém as partes: a ação, a jurisdição e a decisão, é parcialmente verdadeira, pois este todo universal não contém a integralidade dos demais conceitos, mas, sim, partes destes. Tal afirmação não explica a totalidade da base metodológica que edifica o processo na contemporaneidade, pois não contempla a função da jurisdição de promover o processo, contudo explica o acontecer processual, após seu início.

Por essas razões, a base metodológica processual, pensada como quadrilogia reflete todas as premissas desenvolvidas até o presente momento, além de contemplar os critérios clássicos. Tal acepção eleva o processo ao status máximo no seu universo teórico,

posicionando a ação como ponto de ignição para a gênese da linguagem processual, atribuindo à jurisdição a responsabilidade de: (i) promover o processo, e (ii) oferecer um representante com dever de imparcialidade e participação na construção hermenêutica e democrática da decisão judicial. E, por fim, a decisão judicial em si, a qual, nessa conjuntura, torna-se o produto do processo, interligado à ação, produzida pelas partes e pela jurisdição.

Por consequência, o papel da jurisdição em promover o processo está intimamente ligado ao constitucionalismo e ao garantismo, enquanto construção de um ambiente de igualdade e de liberdade entre os participantes, por meio da promoção dos direitos fundamentais dos envolvidos no transcorrer do processo, tal função representa o conjunto de funcionalidades que operam as questões periféricas do entorno processual, bem como atribuições substanciais do próprio juiz na condução e direção do processo, funções estas exercidas pelo representante da jurisdição. Sob o aspecto da decisão judicial, as atribuições da jurisdição são exercidas pelo seu representante, como um papel hermenêutico concebendo a imagem de um juiz ser-no-processo, ou seja, um participante proativo no acontecer processual, comprometido em produzir a decisão judicial na, e pela linguagem.

Em síntese, a jurisdição promove o processo, realizando a aplicação do direito sob duas perspectivas: a transformação do processo em um ambiente de igualdade e de liberdade para os participantes, bem como a busca pela construção do direito, a partir do caso concreto em conformidade com a Constituição e com intuito de promover a pacificação social, no, e pelo processo, ofertando um terceiro com o dever de imparcialidade e de argumentação, incumbido de ser um partícipe da linguagem processual. Nesse sentido, a função da jurisdição no Estado Democrático de Direito é ser o poder contramajoritário.

Sobre a ação, esta é a provocação formal e o ato responsável por materializar um conflito, apresentando um projeto de resolução no qual se busca uma decisão, conforme o direito e a Constituição, que garanta aos envolvidos, como autor ou como réu, o direito pretendido, ou uma resposta negativa, devidamente fundamentada e permeada pelo contraditório, com a aptidão de chamar a jurisdição para inaugurar o processo, materializada em forma de um projeto-roteiro para a decisão judicial, ou seja, é o esboço do conflito e de sua solução (antecedente), no qual se busca a formação de uma decisão jurídica (consequente).

Em relação ao processo, este é o elemento protagonista do universo processual, pois é a própria instituição do Estado Democrático de Direito, estruturado em forma de linguagem multidimensional a qual dispõe os participantes em um ambiente de igualdade e liberdade

para a produção de uma decisão judicial justa, realizando a aplicação do direito, balanceando sua face deontológica com a realidade para a produção de sua face ontológica, ou seja, representa um conjunto multiverso de possibilidades relacionais, desenvolvidas em forma de arcos intersubjetivos que se criam, expandem-se, depuram-se e extinguem-se, durante sua existência. Diante desse contexto, avançando sobre o conceito da decisão judicial, esta é o conjunto de pontos decisórios, montados em um momento adequado e ordenados em forma de uma narrativa que conta a história do processo, formando a coisa julgada.

Assim, esta estrutura metodológica processual possibilita um maior comprometimento do processo com o tecido social, porque permite a emancipação dos atores sociais e transforma o processo em um empreendimento democrático e hermenêutico consentâneo ao Estado Democrático de Direito e ao giro ontológico-linguístico (linguistic turn). Portanto, pensar a teoria geral do processo, a partir de uma base metodológica formada em uma quadrilogia composta por seus elementos fundamentais, harmônicos e interdependentes, quais sejam: (i) a ação; (ii) a jurisdição; (iii) o processo e a (iv) a decisão, permite olhar para a processualística contemporânea mais próxima da realidade constitucional e filosófica. Tal modelo detém aptidão para efetivar as matrizes constitucionais e combater as formas arbitrárias de decisionismo que subvertem o sentido do Direito.