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o que uma raça pode dar em meio diferente, nenhuma lei biológica permite, a priori, afirmar. (…) a humanidade é extraordinariamente alterável e,

portan-to, melhorável. (Roquette-Pinto)84

P

arece que já é hora de desdobrar-mos alguma conclusão. Na minha hipótese, há ressonâncias entre a uto-pia de xul Solar, da “língua perfeita”

e da “nova raça”, e o tema da raça e da língua tratado pelos intelectuais brasileiros nas décadas de 1930 e 1940. Sobre o “problema racial bra-sileiro”, estão na Biblioteca de xul Solar, obras de figuras proeminentes –Oliveira vianna, Roquette-Pinto, arthur Ramos, entre outras85–,

re-84. Roquette-Pinto, Edgard: Ensaios de antropologia brasiliana, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1933, p. 86.

85. Clima e saúde: introdução bio-geográfi-ca à civilização brasileira (1938) de afrânio Peixoto, médico criminalista;

Pussanga: episódios e paisagens da Amazônia (1930) de Peregrino Junior, endocrinologista e biotipologista;

Conceito de Civilização Brasileira (1936), obra de juventude de affonso arinos de Melo franco, que veio a ser tornar mais tarde o defensor dos direitos humanos, reconhecido, sobretudo, pela lei contra a discrimi-nação racial. Em Conceito de Civilização Brasileira, um futuro Brasil civilizado, branco e europeu suplantaria o Brasil mestiço, primitivo e selvagem. O indígena

presentantes da geração que sucedeu a Escola de Nina Rodrigues e que marcou um período de transição na forma de interpretação racial do Bra-sil. O medo de que a mistura das raças –a negra, a branca e a amarela–

levaria o país a níveis irrecuperáveis de degeneração racial havia arrefeci-do. a miscigenação positivada, com a crença na possibilidade eugênica dos mestiços oriundos de sangue ne-gro, passou para o centro dos estudos sobre a cultura brasileira, com enfo-que nas noções de aculturação, assi-milação, hibridismo, sincretismo. Na vertente mais original, aparecera um pouco antes o conceito de antropo-fagia oswaldiano, que introduzira o tema da relação com o outro, na pers-pectiva do colonizado, recomendan-do que se assumisse a felicidade que os primitivos haviam descoberto an-tes de os portugueses aportarem no Brasil.

Os debates acalorados, com a proliferação de obras e idéias, abriram um leque de posições teóricas, cada qual tentando impor teses e métodos para enfrentar o “problema racial brasileiro”. Renato Kehl e Oliveira vianna persistiram nas teses bioló-gicas, derivadas do “racismo

cientí-americano não deveria ser estudado pelo princípio romântico, mas em seus respectivos círculos de influên-cias, “que determinaram e estão deter-minando o processo formador dessa mesma civilização”. (p.72)

fico”, do século xIx. arthur Ramos, Edgar Roquette-Pinto e Gilberto freyre aderiram às teses culturalistas de franz Boas, ou genéticas, com uma das dimensões dos ensinamen-tos de Mendel, o que favorecia o ca-minho da perfectibilidade via edu-cação e higiene. Em Changes in the Bodily Format of descendants of Im-migrants, franz Boas argumentara que o tamanho da cabeça da primei-ra geprimei-ração de italianos e judeus imi-grantes nos Estados Unidos não con-feria com o tamanho original.

Embora tenha recebido muitas crí-ticas em decorrência da pouca con-sistência de suas demonstrações, fe-riu a noção de estabilidade física que sustentava a teoria racial, e introdu-ziu a noção de plasticidade do corpo e da cultura86.

O Brasil mais do que qualquer outro país, da Europa ou da améri-ca, abraçara a tese do descrédito do racismo científico87. . Se no século xIx, os viajantes estrangeiros viam no Bra-sil um “laboratório racial” para com-provar a “degeneração” advinda do cruzamento racial, agora a tese da

86. Barkan, Elazar: The retreat of scientific racism. Changing concepts of race in Britain and the United States between the world wars, Cambridge, Cam-bridge University Press, 1992, p. 83.

87. Cf. flores, Maria Bernardete Ramos:

tecnologia e estética do racismo – ciên-cia e arte na política da beleza, argos, 2007.

plasticidade cultural e física, encon-trava no Brasil, um novo campo de experimentação. Para Oliveira vian-na, o fato de terem afluído para o Brasil, “etnias vindas de todos os con-tinentes torna a américa (…) o cen-tro por excelência dos estudos de raça”88.

os povos americanos são, pois, tão preciosos para os estudos de biologia da raça quanto os climas tropicais o são para as pesquisas sobre a febre amarela e a malária. os germens patogênicos, que produzem o im-paludismo ou o tifo icteróide, po-dem ser observados nos tubos e cal-dos de cultura cal-dos laboratórios, na França, na Inglaterra, na Aleman-ha; mas, só nos trópicos, só debaixo dos climas ardentes, é que o seu estudo pode ser feito de maneira fecunda. o mesmo acontece com a biologia e a psicologia das raças:

uma e outra podem ser estudadas em centros puramente arianos, em populações arianas; mas, só na América, só entre populações hete-rogêneas, onde se caldeiam os tipos antropológicos mais diferentes, on-de as raças mais primitivas se mis-turam com as raças arianas; só aí é que elas podem ser estudadas em

88. vianna, Oliveira: Raça e assimilação, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1938, p. 16.

condições ótimas de eficiência in-vestigadora89.

Oliveira vianna, o sociólogo que se tornara uma “autoridade científi-ca em antropologia”90, defendia, con-tudo, a idéia do “centro por excelên-cia dos estudos raexcelên-ciais”, para se opor ao “transplante” da teoria de franz Boas que considerava livresca, sem o respaldo da observação empírica.

O alvo de sua pontaria eram as teses culturalistas de Roquette-Pinto e ar-thur Ramos. Para vianna, a tese de Boas tratava mais de mostrar a plas-ticidade dos tipos humanos do que a convergência de todos os descen-dentes de imigrantes para um supos-to tipo americano, que ao fim e ao cabo, era o que se desejava, ou seja, a unidade nacional. O pomo da dis-córdia estava na pouca consideração dos caracteres raciais em prol da re-lação homem-meio, como pregavam Roquette-Pinto e arthur Ramos, ao enfatizarem a educação e a higiene para solucionar o problema racial brasileiro. Defensor da cientificidade do conceito de raça, Oliveira vianna alertava:

Cabe observar, porém, que, entre os antropólogos e etnólogos, mesmo os que admitem a igualdade das raças, só o admitem em relação às

89. Ibidem, p. 19-20.

90. Cf. Bresciani, Maria Stella Martins: o charme da ciência e a sedução da objetividade. oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil, São Paulo,

raças brancas, quando comparadas entre si. Na sua quase maioria, porém, estes cientistas recusam-se a aceitar o princípio da igualdade das raças brancas com as demais raças do globo, especialmente com a raça negra91.

De fato, Roquette-Pinto, que ha-via desempenhado um importante papel, como organizador do Primei-ro Congresso BrasileiPrimei-ro de Eugenia, em 1929, opondo-se à tese “degene-racionista da mestiçagem”, defendi-da pela maioria dos participantes, dizia que o “branqueamento” viria com a educação e a saúde92. arthur Ramos, por sua vez, reconhecido an-tropólogo do negro no Brasil, era “con-tinuador incansável da obra de Nina Rodrigues”, com uma única “ressalva”:

se, nos trabalhos de Nina Rodrigues, se substituíssem os termos raça por cultura e mestiçagem por aculturação, suas concepções adquiriam completa e perfeita atualidade93.

De qualquer forma, ao conside-rarmos o interesse que tinha xul So-lar pelo advento do homem novo na américa latina, embora fosse pela via da teoria da evolução espiritual do homem, não nos causa estranha-mento, portanto, depois de refletir

91. vianna, op. cit., p 243.

92. Cf. Schwarcz, lilia Moritz: o espetáculo das raças, São Paulo, Cia.

das letras, 2004, p. 96.

93. Cf. Maio, Marcos Chor y Santos, Ricardo ventura (org.): Raça, Ciência e Sociedade, Rio de Janeiro, fiocruz,

longamente sobre o tema, a presen-ça na sua Biblioteca das obras dedi-cadas ao problema racial brasileiro, com orientações ideológicas desde as mais autoritárias voltadas para o se-gregacionismo, como Raça e assimi-lação de Oliveira vianna, até as mais liberais e democráticas, voltadas pa-ra o assimilacionismo, como Ensaios de antropologia brasiliana de Roquet-te-Pinto e o negro brasileiro de arthur Ramos. Se hoje vemos com suspeita toda e qualquer discussão racialista, à época da vigência dos pressupostos teóricos do progresso e da evolução humana, o leque intelectual e ideo-lógico ia desde as correntes místico-transcendentais, pela via do cresci-mento espiritual pregada tanto pela teosofia como pelo integralismo bra-sileiro, passando pelas culturalistas e mendelianas, pela via da educação e higiene, até as biológicas ou deter-ministas, seja em relação ao meio ou à herança do sangue racial. além desses autores destacados que se de-bruçaram sobre o problema racial brasileiro, que abordamos acima, há outros, no Núcleo Brasil da Bibliote-ca de xul Solar, que nos induzem a concluir que xul procurava conhecer a dinâmica de uma cultura mista ou de uma “raça” miscigenada gestada em meio a assimilações, influências, composições, fragmentos, mesclas, vestígios indígenas e africanos vivos nos mitos, nas lendas, no folclore, na música popular, no seu “processo recente de hibridização”.

Aonde se cruzam língua

No documento El artículo aborda el conjunto de 58 obras (páginas 26-29)

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