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2 A Influência das Políticas Públicas de Reconhecimento de

2.2 Novas perspectivas sobre o conceito de “quilombo”

Desde o primeiro conceito de Quilombos de que temos registro, este termo evoluiu em função das pesquisas, feitas nas últimas décadas, que aglutinam profissionais das mais diversas áreas do conhecimento. Assim, segundo Alfredo Wagner Berno de Almeida, em 1740 o Conselho Ultramarino definia o termo Quilombo como “toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele” (ALMEIDA, 1999, p. 47).

Nessa primeira definição, percebemos a ideia de Quilombo como um lugar distante do local do trabalho, ou seja, distante das terras do Senhor de escravos, local de difícil acesso em função da necessidade de servir de esconderijo, uma vez que estariam fugindo de seus senhores. Outros de seus elementos são a negação do trabalho e que deveria ser autossuficiente.

Entretanto, nas páginas seguintes, o autor relata outros exemplos de quilombos que não se enquadram nesta definição. São quilombos produtivos, como no caso do Quilombo do Limoeiro, no Maranhão. O governo invadiu o Quilombo, afugentando o quilombola e colocando em sua casa um colono que fugira da seca no Ceará.

Existiram também outras relações produtivas entre escravos e Senhores, dependendo do poder econômico destes últimos. Quando a produção e a venda dos produtos estavam em alta (plantations), os Senhores tinham maior domínio sobre seus escravos através do uso da força como forma coercitiva; entretanto, quando suas finanças iam mal, geralmente ocorriam negociações, os escravos podiam plantar roças de subsistência e constituir núcleos familiares. Ainda, há notícias de que houve negociações com quilombolas quando a produção estava em alta e não se podia deixar que os escravos deixassem de produzir o produto destinado à

31 exportação. Por outro lado, na época de crise, engenhos foram abandonados e os escravos ficaram usando as terras que se constituíram em quilombos.

No caso do Quilombo da Serra dos Tapes em Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul, no século XIX, temos notícias sobre o mesmo através do Processo Crime de Mariano que se encontra na APERGS (Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul), e em correspondências da Câmara Municipal de Pelotas. Depreende-se que o Quilombo cujo líder foi Manuel Padeiro tenha sido um típico quilombo como o descrito pelo Conselho Ultramarino, de difícil acesso, fora do

contexto produtivo. Maestri (1984) classifica-o como “quilombo de rapina17”;

entretanto, em trechos dos depoimentos constantes do processo, encontramos outros indícios que levam a crer na constituição de um quilombo misto, uma vez que os quilombolas subtraíam milho, roupas, utensílios nas terras dos moradores da Serra dos Tapes e em especial nas terras de Boaventura Barcellos, ex-senhor de Manuel Padeiro. Em outra passagem do processo, ao descansarem, os quilombolas plantavam feijão. Indícios apontam para uma intensa rede de relações entre os quilombolas, libertos, escravos, proprietários de Datas de Matos na Serra dos Tapes,

que possibilitavam a obtenção dos elementos necessários à sua sobrevivência.18

Embora na Serra dos Tapes tenhamos um território abrangente, na região descrita no processo, podemos perceber que os quilombolas estavam próximos das chácaras de seus senhores, e que dispunham de alguns locais em que paravam para descansar (v. Figura 4); inclusive, segundo a tradição oral, podemos localizar um destes.

17

Quilombo de Rapina no sentido de apropriar-se de alimentos produzidos por eles próprios nas Terras de seus “donos”

18

O capítulo seguinte será dedicado à origem histórica do Distrito do Quilombo, que está associada às ações do grupo de Manuel Padeiro.

32 Figura 4: Um dos locais do acampamento Quilombola.

Fonte: acervo da pesquisadora

Dessa forma, apontamos algumas características do Quilombo no século XIX que nos fazem refletir sobre a classificação dada a ele. Os Quilombolas foram caçados pela elite pelotense e não sabemos ao certo se todo o grupo foi preso, morto ou se alguns escaparam. O certo é que, na atualidade, a região sul do Rio

Grande do Sul conta com inúmeras Comunidades Negras Rurais19 que estão num

processo continuo de reconhecimento e de afirmação de suas raízes identitárias.

Segundo ALMEIDA (1999), “é necessário que nos libertemos da definição

arqueológica.” Ou seja, é necessário que deixemos de lado a ideia construída historicamente do que seja um quilombo; é preciso uma análise atenta sobre vários

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Abrimos um parêntese sobre a utilização do termo Quilombo e do termo Comunidades Negras Rurais, enquanto que o primeiro é utilizado para fazer referências ao Quilombo Histórico(negros que resistiam à condição jurídica de escravizado), o segundo refere-se à esse novo conceito de Quilombo formulado por sociólogos, antropólogos, historiadores, no sentido de contemplar o que determina o artigo 68 da Constituição Federal de 1988: Comunidades Negras Rurais estão relacionadas ao

passado escravista, com seus desdobramentos, e ao momento pós-abolição.(Fiabani,2008, pg.14).

Assim, embora a maioria das Comunidades Negras Rurais da atualidade não tenham como comprovar descendência direta de ex-escravos, as condições de vulnerabilidade e exploração que continuaram a existir no período pós-abolição, levaram os ex-cativos a se agruparem buscando uma certa proteção e autonomia frente às condições de exploração do seu trabalho. Assim, muitos ex- escravos migraram para o campo constituindo-se novos integrantes dos antigos quilombos, outros foram em busca de terras abandonadas, outros receberam heranças ou compraram pequenos lotes, ou ainda ficaram trabalhando em pequenas porções negociadas com seus antigos donos. Em todos os casos, o maior problema foi a regularização da documentação, o que teve como consequência desdobramentos variados, de acordo com cada caso, chegando inclusive em casos extremos como expropriação, encolhimento da área, conflitos e ameaças armadas. Encontramos nas fontes diversas nomenclaturas utilizadas para fazer referências às comunidades na atualidade: Remanescentes de quilombos, comunidade negra rural, mocambos, quilombolas... Em nosso trabalho, ao nos referirmos à origem do Distrito de Quilombo que remete aos Quilombolas de Manuel Padeiro, utilizaremos os termos quilombo ou quilombolas, e quando nos referirmos à Comunidade Alto do Caixão e à Comunidade do Algodão, existentes na atualidade, utilizaremos a expressão Comunidade Negra Rural.

33 aspectos sociais e históricos das populações que compõem tais locais, para além dos vestígios arqueológicos que comprovem que a comunidade quilombola estudada tem origem direta de ex-escravos fugitivos.

...o quilombo, em verdade, descarnou-se dos geografismos, tornando-se uma situação de autonomia que se afirmou ou fora ou dentro da grande propriedade. Isso muda um pouco aquele parâmetro histórico, arqueológico, de ficar imaginando que quilombo consiste naquela escavação arqueológica onde há indícios materiais e onde estão as marcas ruiniformes de ancianidade da ocupação (Almeida, 1999, p. 60).

E conclui com um novo conceito de quilombo: 20

A observação etnográfica aqui permite romper com o positivismo da definição jurídica e chama a atenção para os instrumentos epistemológicos tão odiados pelos empiristas e positivistas. É com bases nesses instrumentos que se pode reinterpretar criticamente o conceito e asseverar que a situação de quilombo existe onde há autonomia, onde há uma produção autônoma que não passa pelo grande proprietário ou pelo senhor de escravos como mediador efetivo, embora simbolicamente tal mediação possa ser estrategicamente mantida numa reapropriação do mito do “bom senhor” tal como se detecta hoje em certas condições de aforamento.

Apontaremos como exemplo a Comunidade Negra Rural do Alto do Caixão,

cuja origem ao que interpretamos não remonta diretamente21 ao Quilombo

Histórico do grupo quilombola do século XIX cujo líder denominava-se Manuel Padeiro. Para tanto, se faz necessário localizar, no Distrito denominado Quilombo, a Comunidade do Alto do Caixão.