CAPÍTULO II – DA ORIGEM DOS FOLHETOS DE CORDEL
2.2 Novo Cordel: controvérsias em torno da nova terminologia
O termo representação é tratado por Chartier (1990, p. 16) como sendo “o modo pelo qual em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade é construída, pensada, dada a ler por diferentes grupos sociais”. Pautando-nos nesta afirmação, consideramos que a terminologia “Novo Cordel” pode ser compreendida como a forma de representação encontrada por Manoel Monteiro para os seus folhetos. Dessa forma, ambos, produto simbólico e autor, puderam se tornar visíveis diante da crítica literária.
Para Glauco Matoso (2009, p. 10), o conceito de “Novo Cordel” pode ser considerada “uma revalorização, com mais qualidade na versificação e mais atualidade temática, do bom e do velho folheto de feira nordestina”. Trata-se de uma reengenharia a que o poeta se impõe para falar do seu próprio tempo. Ao compreendermos que os folhetos de Manoel Monteiro apropriaram-se da dimensão educativa, afirmamos, com base em Azevedo (1998), que eles se assemelham aos livros paradidáticos, servindo como recurso para o professor em sala de aula. Ao abordar temáticas ligadas às matérias do currículo regular, a eles são atribuídos o status de “folhetos paradidático/publicitários”, diferindo-se dos chamados “livros paradidáticos”, apenas, quanto à materialidade ou fórmula editorial.
Manoel Monteiro defende o “Novo Cordel” argumentando que este é um tipo de cordel que “não destoa na poesia, nem nas regras, nem na forma; prima, contudo, pela correção da língua, pela riqueza e pela atualidade das informações” (MONTEIRO, 2009, p. 3). Entende-se que Manoel Monteiro, ao defender o “Novo Cordel”, está, tentando assegurar o caráter de novidade que atribui ao seu trabalho. No entanto, é necessário notar que há outros poetas populares produzindo seus cordéis, de modo semelhante, além de estudiosos que tomaram o fenômeno como objeto de estudo. Sua estratégia textual de convencimento torna- se ainda mais insustentável, se considerarmos, pautados em Curran (2011) que, a partir de 1960, a maioria dos folhetos já tratavam “do momento „atual‟, dos acontecimentos, notícias e problemas do tempo presente” (CURRAN, 2011, p. 275). Diante desses dados, importa-nos
configurar algumas reflexões sobre o fenômeno do “Novo Cordel”, que, reafirmamos, já vem sendo observado e analisado por outros estudiosos do cordel.
Seguindo outras trilhas, Glauco Mattoso (2009) afirma que o interessante no “Novo Cordel” (ou no neocordelismo, termo criado pelo autor) é justamente o fato de ele não ser novo. “O que está sendo chamado de „Novo Cordel‟ nada mais é que uma revalorização, com mais qualidade na versificação e mais atualidade temática, do bom e do velho folheto de feira nordestina” (MATTOSO, 2009, p. 10). Ao tratar sobre a temática, Mattoso (2009) pondera que o assunto carece de reflexão; para o autor, deve-se observar se esse fenômeno caracteriza- se, de fato, como “Novo Cordel”, diferenciando-se do cordel associado ao romanceiro tradicional, ou se apenas se trata de uma reengenharia a que o poeta se impõe, como forma de falar e de viver o seu próprio tempo.
Tomando como referência os estudos de Mattoso, observa-se que a produção de cordel de Manoel Monteiro, não se trata, efetivamente, de um “Novo Cordel”, mas de um reemprego de operações efetuadas nesse objeto. Reportando-nos, também, a De Certeau (2008), podemos afirmar que o “Novo Cordel” advém de operações originárias da inventividade própria de um sujeito ordinário que se viu convocado a marcar sua existência de autor. É, portanto, possível que Manoel Monteiro não tenha conhecimento dessas operações, todavia, não deixou de se utilizar dessa arte de fazer, no momento em que buscou se apropriar de estratégias textuais singulares para produzir folhetos de cordel que assumem um viés eminentemente paradidático-publicitário.
Compreende-se que o “Novo Cordel” de Manoel Monteiro é uma reengenharia a que o poeta se impôs como maneira não só de falar e de viver o seu próprio tempo, mas de marcar sua existência de autor. Consideramos, portanto, que o cordel é um produto cultural que se vincula a uma literatura considerada um fenômeno histórico e cultural passível de sofrer diferentes modificações, em diferentes épocas e lugares, por diferentes comunidades ou grupos sociais.
Desse modo, embora o poeta busque representar um cordel que se diferencie pela correção da língua, atualidade e riqueza das informações, esse posicionamento por si só não se sustenta, uma vez que, como já apontamos, os folhetos já tratavam dos problemas do momento atual da época desde a década de sessenta do século XX. Além do mais, não se pode perder de vista o fato de que a estrutura tradicional do folheto se sustenta nos seus dispositivos formais, uma vez que, na maioria das vezes, obedece a uma produção de sextilhas, na qual os versos rimam na forma ABCBDB, e de septilhas, nas quais os versos rimam na forma ABCBDDB.
Quanto à materialidade assumida pelo folheto, a temática é motivo de controvérsias, conforme aponta Saraiva:
Ao contrário do que se suporá, não é fácil saber o que é um folheto. Nem é por acaso que este termo às vezes se cruza ou se confunde com outros: opúsculo, plaquete, livrinho, livreto, separata, folha (solta, volante) e, como ocorria frequentemente no século XVIII, papel. Não há nada estabelecido a respeito dos limites do folheto, sejam do formato, do número de páginas, do tipo de papel, dos conteúdos e até dos modos de circulação. Catálogos de Pliégos Poéticos de La Biblioteca Nacional (século XVII) consideraram “pliegos” “(folhetos)” todos os impressos até 32 páginas ou 16 folhas, em tamanho 16º, 8º, 4 Folio e Duplo Folio. Mas trata-se apenas de uma decisão cômoda de bibliógrafo; o nome do folheto é quase sempre aplicado “a olho”, ninguém vai contar o número de páginas antes de usar. E se em tempos recuados o folheto era normalmente a folha dobrada, às vezes duplicada ou triplicada, sem capa, sem lombada, sem encadernação, já há muito falamos de folhetos que não se respeitam essas regras (SARAIVA, 2006, Prefácio). Como podemos observar, o folheto é indefinido quanto ao seu formato, número de páginas, tipo de papel, conteúdos e modos de circulação. Entretanto, deve-se primar pela correta adequação da língua, sobretudo por ter sido uma literatura que, durante muito tempo, foi relegada a segundo plano. Sobre esse ponto, explica Melo: “é importante destacar que a maior parte dos poetas de bancada buscava, e ainda busca, a excelência no que se refere ao uso da língua portuguesa e quanto às regras de metrificação. Na poesia de bancada, não há lugar para o improviso” (MELO, 2003, p. 83-84).
Nesse contexto, a representação do “Novo Cordel” em Manoel Monteiro é, também rechaçada, uma vez que a busca da excelência no uso da língua portuguesa e das regras de metrificação não se restringem, apenas, ao referido poeta, pois a maior parte dos poetas de bancada detinha essa preocupação. Devido à incessante luta pela busca da excelência do uso correto da língua portuguesa e das regras de metrificação, a partir de 2000, a representação do “Novo Cordel” foi extremamente evidenciada no contexto educacional.