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3.4 Expor Design: Reconhecendo Problemáticas de Representação

3.4.4 Novos Contextos Museológicos: Design e Compromisso Social

“A collection is only as good as what you do with it” Thompson (Drenttel e Lasky, 2010).

Num contexto mais recente, perante os novos modos de encarar a museologia e o papel do museu no seu ambiente social, são desafiados novos campos de exploração das narrativas das exposições e, consequentemente, a interpretação dos conteúdos. De um modo geral, influ- em nestas transformações as próprias mutações sociais e culturais alicerçadas nos paradigmas

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e correntes de pensamento que vão afetando a valoração e modos de apreensão do conheci- mento. A democratização do espaço museológico e o questionamento sobre a sua relevância social reforçam a necessidade de compromisso e relação ativa dos museus com o seu meio, indo além das funções custodiais como se viu no primeiro capítulo. Assim, no particular con- texto das exposições de design, perante a consciência de que o espaço expositivo é um espaço representacional construído e influenciado por contextos vários, portanto – e tal como o de- sign42 – um campo que não é neutro, questões quanto às formas de, por meio das exposições de design, alargar o campo de ação social interventiva do museu têm sido colocadas pelos profissionais ligados à museologia do design. Um exemplo desta ação teve lugar no evento “Symposium on Design, Social Change and the ‘Museum’” em 2010 sob o tema “Reasons not to be pretty”. Refletindo sobre o papel social dos museus de design no séc. XXI, partem da constatação que, apesar da pluralidade de museus dedicados ao design e à influência do de- sign no quotidiano, a predominância tradicional das abordagens estilísticas e estéticas têm deixado pouco espaço para a perspetiva sobre o papel social do design e para a promoção de ações com valor social nas programações museológicas. Esta supressão resulta pois, na co- municação de uma imagem distorcida não só do potencial mas também do efetivo contributo do design no mundo (Drenttel e Lasky, 2010: s.p.). Dando exemplos de casos concretos, o relatório do encontro, redigido por Drenttel e Lasky (2010), refere a existência de exceções suficientes no contexto museológico que permitem compreender o potencial que representa o papel das exposições de design com carater social interventivo (ex. Cooper Hewitt “Design for another 90%” 2007”; MoMA “Design and an elastic mind” 2008; “Trienal Cooper Hewitt 2010 – Why Design Now?” – com projetos endereçados a problemas ambientais humanos).

Um primeiro ponto de reflexão deste simpósio desenvolveu-se em torno das narrativas e das abordagens criativas aplicáveis na exposição do design e questões sociais, que, partindo do objeto de design, não se resumam nem tampouco culminem nele. Foram sugeridas possibi- lidades alternativas de abordagens, por exemplo, com ênfase nas próprias estruturas organiza- tivas do design e nos seus processos, por meio de narrativas que promovam a desmaterializa- ção do próprio objeto de design – “the design of design” (Drenttel e Lasky, 2010: s.p.). Indo ao encontro das próprias noções do atual paradigma museológico, que entende o museu como espaço democrático, apostado na comunicação de possibilidades, problemáticas e questões, mais do que no oferecer respostas definitivas e acabadas, a construção do espaço expositivo e o intuito de proporcionar experiências transformadoras aos visitantes parece, segundo os pro- fissionais participantes do simpósio, não depender tanto do estabelecimento rigoroso das nar- rativas percursos expositivos, mas do reconhecimento que os próprios visitantes, tendencial- mente, realizam hierarquizações sobre os conteúdos expostos sendo, em boa medida, a expe- riência do percurso e apreensão dos conteúdos moldadas pelos contextos e vivências de cada

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um. Por este motivo, refletem sobre a pertinência de oferecer experiências mais abertas, en- volventes e que convoquem múltiplos pontos de vista, combinando soluções tecnológicas e criativas, considerando os contextos dos públicos a que se dirigem.

No desfecho do encontro, foi expresso um conjunto de ideias/conclusões chave: primei- ramente, o museu como lugar de ação crítica e reflexão que precisa de cenários provocatórios que promovam o encontro, troca e partilha de ideias mas também educação. Assim, as expo- sições e os curadores arrecadam desafios que extravasam os conceitos tradicionais, encon- trando no museu uma arena cívica, uma plataforma dialógica e mediadora, focada no público e na programação que sirva o propósito educativo. Num segundo ponto conclusivo, foi refor- çado o carater instrumental das exposições de design que encontram sentido como meio de servir um propósito maior de bem comum e melhorando vidas. Este âmbito interventivo alar- gado, concluem também, exige do curador uma ampliação de competências por forma a dar resposta à complexidade de assuntos que afetam os desafios das exposições de design com cariz social interventivo. Do mesmo modo, creem que o exemplo de instituições museológicas de outras áreas, bem como de instituições/organizações empenhadas na afirmação do design como agente de mudança social, poderá ser benéfico e importante meio de aprendizagem e evolução na consciência de um necessário trabalho e reflexão em continuidade.

Estas preocupações, na verdade, comuns à museologia e ao design contemporâneos, pa- recem estar a moldar, de acordo com as referências mencionadas, motivações e abordagens ao design no ambiente museológico expositivo. O testemunho e empenho expressos no referido simpósio (com participação de profissionais ligados aos museus de design) sugerem pois, um outro âmbito de enfoque nos processos de comunicação do design por meio dos espaços mu- seológicos. Considera-se assim uma outra problemática em que, na verdade, se implicam também as problemáticas referidas precedentemente: a abordagem centrada no aspeto estéti- co, a influência do aspeto comercial e económico e a própria realidade do design pós- industrial cada vez mais, desviado do aspeto material/tangível. Esta preocupação é expressiva também na nuvem de palavras que moldam as direções que vêm orientando e motivando as missões dos museus de design quando olhando às palavras que expressam o concreto come- timento com os aspetos socias do meio no qual se inserem como “inclusão”, “tolerância”, “bem-estar”, “compromisso”, “enriquecer vidas”. Do mesmo modo, a existência assumida de compromisso com o aspeto ecológico e ambiental em algumas instituições, bem como o en- tendimento do museu como plataforma de encontro, dialógica e de debate, e a preocupação com a sensibilização dos públicos para o design e para a sua relevância, mostram, em concre- to, o assumir da problemática social no contexto dos museus de design e na própria compre- ensão do papel real do design, dos designers e do seu trabalho quotidiano.

68 3.5 Entre Pontos e Linhas, Construindo Constelações: O Design e a Diversidade de Abordagens Expositivas

Um dos projetos incluídos no programa da Bienal “Experimenta Design 2013”, em Lis- boa, designava-se “Neoasterisms” e desenvolvia-se no Planetário da Fundação Calouste Gul- benkian43. Os participantes eram convidados a propor novas constelações e a construir novos enredos mitológicos em torno das estrelas. “Se começássemos do início, se olhássemos para a nossa paisagem estelar como tabula rasa, que novas constelações desenharíamos em 2013 [...]?” (ExperimentaDesign, 2013: s.p.). Unindo pontos – as estrelas do mapa celeste, era dada a oportunidade a cada um de criar e nomear uma nova constelação no espaço estrelar, narran- do, a partir dela, uma nova história. As mesmas realidades unidas num sem número de dese- nhos diferentes entre si, originando uma diversidade de leituras, permitindo a construção de uma infinidade de interpretações e construções de sequências, dimensões e orgânicas variá- veis. Constrói-se desta realidade uma analogia em relação ao espaço expositivo em contexto, cujas linhas mediadoras, mais ou menos claras, mais ou menos definidas, mais ou menos fle-

xíveis, mais ou menos definitivas, desenham discursos, posicionamentos e narrativas que in-

fluem, até certo ponto, em como é olhado, lido e compreendido o Design.

Até aqui, foi-se já dando conta de alguns modos de expor o design nos museus e dos per- cursos que foram introduzindo o design em diversos contextos museológicos. Foram-se tam- bém reconhecendo algumas das problemáticas e realidades que condicionam ou influem o moldar dos seus contornos, detetando e categorizando motivações e predominâncias. Neste ponto, tendo presentes os contextos da museologia contemporânea no âmbito das exposições sobre que se refletiu ao longo do primeiro capítulo desta dissertação, mas também, os percur- sos e entendimentos sobre o design que se procurou sintetizar no segundo capítulo, expõem-se algumas abordagens ou propostas de abordagens expositivas museológicas sobre o design, cujo testemunho foi possível recolher a partir da literatura consultada e do contacto com al- gumas destas instituições museológicas dedicadas ao design. Será importante contudo ressal- var que não se esgota a diversidade de abordagens nos casos expostos, que, na inviabilidade de uma recolha mais exaustiva, constituem apenas uma seleção de exemplos cuja considera- ção partiu, sobretudo, como se referiu, da disponibilidade e possibilidade de acesso aos conte- údos e da diversidade, i.e., da deteção de evidência de dissemelhança entre perspetivas. Pro- curar-se-á compreender mais pormenorizadamente, as opções afetas aos discursos expositivos do design, relacionando-as com os próprios direcionamentos e opções políticas declaradas, lidos a partir das suas declarações de missão, objetivos e propostas de ação face às condicio- nantes, problemáticas e desafios de exposição do design que se foi, até aqui, reconhecendo.

43Estendendo-se a possibilidade de participação no programa através da plataforma “wikistars” disponível no

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A recolha de dados passou pela colocação de um conjunto de questões sobre as políticas e poéticas expositivas do museu focando particularmente a exposição permanente e procuran- do compreender alguns dados sobre a preferência/relevância dada à exploração de determina- dos aspetos dos objetos de design. Complementaram-se estes dados com informações primei- ramente de contexto sobre a Instituição em causa e, depois, com recurso a informações mais descritivas sobre as exposições em análise disponibilizadas pela Instituição.