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Novos desafios do governo de Getúlio Vargas

Quando Getúlio Vargas chegou ao poder o quadro econômico e político brasileiro era

bastante complicado. A crise mundial de 1929 tinha atingido o Brasil com uma brusca queda

nos preços internacionais do café. Vargas nomeou um importante banqueiro paulista, José Maria

Whitaker, para o Ministério da Fazenda que, imediatamente, tratou de socorrer o setor cafeeiro por meio da compra de 18 milhões de sacas de café. Em 1931 o governo federal precisou

comprar novamente o excedente do café e, desta vez, destruiu fisicamente grande parte do

produto para reduzir a oferta a manter o preço.

Com a crise no setor agrícola a moeda brasileira desvalorizou-se, facilitando o ingresso de capital externo no emergente setor industrial do país. No período de 1933-39 a indústria brasileira cresceu a uma alta taxa de mais de 11% ao ano, principalmente nos setores de bens de consumo como papel, têxteis, vestuários e calçados.

Um outro setor em que Getúlio Vargas resolveu investir foi na política previdenciária

e de saúde pública, criando os institutos de aposentadoria e pensões, organizados por

diferentes categorias profissionais de trabalhadores urbanos. Ao excluir os trabalhadores rurais dos benefícios previdenciários, Vargas deu claros sinais de que a sua política priorizava o

desenvolvimento do trabalho no meio urbano. Isto colaborou para aumentar a migração da população rural para as cidades, atraída pela maior oferta de emprego na indústria.

Para Vargas o Brasil precisava abandonar a condição histórica de ser apenas um país

agrícola e atrasado, e despontar como uma moderna nação urbana e industrial. Para tanto um novo Estado deveria ser construído e dar sustentação ao ambicioso projeto. E para consolidar o processo de industrialização no Brasil era imperativo o desenvolvimento das cidades.

Por outro lado, para conquistar as elites intelectualizadas que vinham se destacando desde o início dos anos 20, o Estado passou a estimular uma produção cultural que abordasse assuntos

de altos interesses sobre o país. A história, a geografia, a antropologia foram temas abordados

por diversas obras e que procuraram destacar o Brasil como uma nova nação, federativa e

unificada.

Para fortalecer esta idéia Getúlio Vargas vai desenvolvendo uma ampla rede de propaganda que, ao mesmo tempo, exalta o Brasil e o novo poder do Estado, onde ele próprio se afirma como o grande comandante. Apesar de algumas isoladas resistências Vargas utiliza todos os

recursos da comunicação, principalmente através do rádio, onde acalorados discursos pregam o estabelecimento deste novo modelo para o País.

Getúlio Vargas também apoiou a expansão urbana e o embelezamento das grandes cidades

brasileiras e promoveu a criação de novas cidades no interior do país, como foi o caso de Goiânia. Em seu projeto de governo a industrialização e o desenvolvimento urbano foram, sem dúvida, dois dos principais sustentáculos.

século XIX, podendo ser identificado como um urbanismo híbrido ou eclético. Para ele o

plano urbanístico de Belo Horizonte serve como um coroamento de um período no urbanismo (Bruand, 1981, p.352).

A Capital Federal já havia sido objeto de grandes reformas na administração de Pereira Passos desde o início do século. E, a partir de 1922, na administração de Carlos Sampaio, por ocasião das comemorações do Centenário da Independência do Brasil, o Rio de Janeiro havia se modernizado com a expansão proporcionada pelo desmonte do morro do Castelo e o aterro

junto ao mar. Também nas administrações seguintes, de Alaôr Prata e Prado Júnior, a cidade já assumira a fisionomia de grande capital do país.

Enquanto isto em São Paulo, na época a segunda maior cidade do país, os planos de

expansão e modernização vinham sendo implementados desde 1910, com a proposta de Victor

da Silva Freire sendo endossada pelo arquiteto e paisagista francês Joseph Antoine Bouvard,

que também desenvolveu projetos para o Vale do Anhangabaú e para o parque D. Pedro II. Nas administrações dos prefeitos Antonio Prado e Raymundo Duprat muitas reformas foram feitas na cidade, com a intensa participação de engenheiros-urbanistas como Victor da Silva Freire, João Florense de Ulhôa Cintra, Alexandre Albuquerque, Luiz de Anhaia Mello e Francisco

Prestes Maia, este último o autor do Plano de Avenidas de São Paulo em 1930.

Para obter o sucesso desejado por Vargas o Brasil necessitava urgentemente de integrar

todo o território nacional10 . Uma nova organização territorial se impunha buscando ocupar os enormes vazios territoriais existentes no país. O projeto de Goiânia, a nova capital do Estado de Goiânia, realizado por Attílio Corrêa Lima entre 1933 e 1935, serviu como modelo das soluções modernizadoras e de aperfeiçoamento do padrão urbanístico das cidades. Alguns anos mais

tarde, e após a inauguração de Goiânia em 1940, Vargas lançou mais um importante programa:

A Marcha para o Oeste que estimulou a criação de novos territórios e novas cidades expandindo

os limites agrícolas do país.

Da mesma forma que o Rio de Janeiro e São Paulo outras capitais brasileiras foram

passando por transformações urbanísticas como Curitiba, Porto Alegre e Recife. E também foram surgindo novas cidades, principalmente no norte do Estado do Paraná, como Londrina, Maringá, Cianorte e Umuarama, que rapidamente se transformam em importantes centros urbanos regionais.

Todo o esforço do Governo

Vargas no sentido de desenvolver

uma nova política territorial e urbana para o país estimulou o debate sobre a arquitetura e o urbanismo no Brasil. O arquiteto Le Corbusier que já havia visitado o Brasil em 1929 e esboçado alguns planos utópicos para o Rio de Janeiro e para São Paulo, foi novamente convidado a visitar o Brasil, em 1936, pelo Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema.

10. Em 1931 foi criado o Correio Aéreo Nacional, interligando diferentes localidades e facilitando a comunicação.

Inauguração do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde. Foto

de Gustavo Capanema e Getulio Vargas,

diante da escultura Mulher Reclinada de

Le Corbusier veio na condição de consultor de um grupo de jovens arquitetos brasileiros11 incumbidos de projetar o edifício sede do ministério, no Rio de Janeiro. Este edifício acabou por se constituir em um marco histórico da arquitetura contemporânea brasileira.

Nos anos 40 o governo estadual do Rio de Janeiro passou a exigir a execução de planos urbanísticos para as cidades médias do estado. Assim, a empresa Coimbra Bueno e Cia., que já havia sido a responsável pelas principais construções de Goiânia, passou a realizar planos urbanísticos de cidades como Petrópolis, Campos e Cabo Frio. Para tanto contratou como consultor o urbanista Alfred Agache12 que passou a difundir os novos princípios das cidades- jardins.

Nesta época Alfred Agache também foi convidado pelo jovem prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek de Oliveira, para elaborar um plano urbanístico para o novo bairro da Pampulha. Agache fez um estudo preliminar que não foi do agrado de Juscelino, que então convidou o arquiteto Lúcio Costa para realizá-lo. Impossibilitado de executar o serviço Lúcio

Costa indicou o jovem arquiteto Oscar Niemayer, que elaborou seu primeiro grande projeto em 1941. Desta aproximação entre Juscelino e Niemeyer, quinze anos mais tarde surgiu Brasília, a

grande obra de Kubitschek, o futuro Presidente da República.

Getúlio Vargas procurou criar as condições para o desenvolvimento industrial do país

e, através do Estado, investiu pesadamente na indústria de base que o setor industrial tanto necessitava. Com isto propiciou o desenvolvimento das empresas privadas, mas, ao mesmo tempo, provocou uma enorme intervenção estatal na economia.

Desenvolver a produção siderúrgica nacional era fundamental devido aos seus efeitos

multiplicadores em vários ramos industriais como a mecânica, a química e os transportes, além de conquistar a simpatia dos setores militares tendo em vista a viabilização da indústria bélica

e da indústria naval. Dentro deste espírito Vargas consegue o financiamento americano para a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN, cuja usina foi implantada em Volta

Redonda, no Estado do Rio de Janeiro, e cujo projeto foi encomendado a Attílio Corrêa Lima. Assim, em 1941, Attilio Corrêa Lima foi contratado pela CSN para elaborar o plano

urbanístico da Vila Operária de Volta Redonda e também o Plano de Urbanização Regional de

Barra Mansa, ambas cidades situadas no Estado do Rio de Janeiro. Estes projetos serão melhor

analisados em outros itens específicos deste trabalho.

11. Desta equipe, liderada por Lúcio Costa, também fazia parte os arquitetos Afonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcelos, Carlos Leão e Oscar Niemeyer.

12. Alfred Agache também elaborou um plano de urbanização para Curitiba/PR, entre 1941 e 1943, mas que foi apenas parcialmente implantado.

2.1.3