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Capítulo 1 – O Regime de Metas de Inflação e Suas Origens Teóricas

1.1. As Origens Teóricas do Regime de Metas de Inflação

1.1.4. Novos Keynesianos e as “Falhas de Mercado”

No início dos anos 1980, iniciou-se uma retomada de princípios keynesianos, que haviam sido abalados pelas ideias defendidas pelos Novos Clássicos. Essa retomada foi articulada por uma nova escola de pensamento, que ficou conhecida como escola Novo Keynesiana.

A despeito de sua grande diversidade, esta corrente pode ser identificada pela aceitação de que existem diversas imperfeições na realidade, ou “falhas de mercado”, as quais causam rigidez de preços e salários. Tais rigidezes fazem com que exista um trade-off entre inflação e desemprego no curto prazo. Os principais representantes desta escola são Olivier

Blanchard, Gregory Mankiw, Edmund Phelps, Stanley Fischer, Joseph Stiglitz, Ben Bernanke, George Akerlof, entre outros.

Em relação ao pensamento dos Novos Clássicos, a corrente novo-keynesiana critica principalmente a proposição de equilíbrio contínuo dos mercados, pois ela não leva em consideração essas falhas de mercado, que provocam a rigidez de preços no curto prazo. Os modelos novo-keynesianos consideram condições de concorrência imperfeita, em que os agentes são “price-takers” e há a possibilidade de falhas de coordenação e externalidades, que dão origem às imperfeições de mercado.

Conforme foi ressaltado na seção anterior, nos modelos novos clássicos, os preços e salários flexíveis ajustam-se rapidamente frente a um distúrbio monetário (antecipado), levando a economia para um novo equilíbrio. Em função disso, a política monetária é ineficaz. Dentre os primeiros modelos Novos Keynesianos a incorporar a rigidez nominal, e, portanto, a questionar a hipótese de equilíbrio contínuo dos mercados, estão os de Fischer (1977) e Taylor (1980). Estes modelos incorporam contratos salariais justapostos para explicar a rigidez dos salários nominais.

O argumento de Fischer (1977) é que a eficácia da política monetária depende da existência de contratos salariais nominais de longo prazo. Os agentes possuem expectativas racionais, mas algumas informações relevantes sobre a política econômica ficam disponíveis somente depois que os contratos (de longo prazo) já foram realizados. Essas informações novas só poderão ser incorporadas após a celebração de novos contratos salariais. Desta forma, ainda que a política seja anunciada, ela não provocará o ajuste rápido dos preços ao novo nível de equilíbrio. Uma vez que os salários nominais não se ajustam imediatamente às variações da oferta de moeda, a política monetária é capaz de afetar as variáveis reais no curto prazo. Ressalta-se que este mecanismo ocorre mesmo que a política seja antecipada pelos agentes, pois os contratos impedem o ajuste imediato.

Esta explicação contrapõe-se à visão Novo Clássica de que apenas mudanças não previstas na oferta de moeda podem causar impactos reais, e ainda assim, de forma isolada e não sistemática. Portanto, “the effectiveness of monetary policy does not require anyone to be fooled” (p. 203).

O modelo desenvolvido por Taylor (1980) considera que os contratos salariais não são todos realizados ao mesmo tempo, ou seja, eles são “justapostos” (staggered contracts). Os agentes econômicos possuem expectativas racionais e, quando estabelecem seus contratos

levam em consideração as taxas de salários decididas por outras firmas. Para tanto, eles avaliam tanto os contratos passados quanto os possíveis contratos futuros que serão realizados durante o período de validade do contrato.

Os salários nominais, portanto, tornam-se a fonte de rigidez de curto prazo. Os contratos salariais são capazes de produzir efeitos sobre o nível de emprego mesmo após o seu período de duração, pois eles afetam as decisões de outras firmas e trabalhadores. Ou seja, “contract formation generates an inertia of wages which parallels the persistence of unemployment” (TAYLOR, 1980, p. 3).

Outra explicação utilizada pelos novos keynesianos para justificar a existência de preços rígidos é o que ficou conhecido como “custos de menu” (menu costs). Nos modelos novo-clássicos, os preços são plenamente flexíveis. Eles são um reflexo da otimização contínua dos agentes econômicos, e do equilíbrio contínuo entre oferta e demanda. Ao contrário, nos modelos novo-keynesianos, como as firmas trabalham em condições de concorrência imperfeita, elas são “formadoras de preços”. Desta forma, pequenas alterações de custos, chamadas de “custos de menu”, não são suficientes para provocar um reajuste de preços, tendo em vista o impacto sobre o lucro individual da firma. Podemos citar como custos de menu, o custo de impressão de novos catálogos, o gasto com renegociação de contratos, etc. Estes custos seriam capazes de provocar grandes perdas de bem-estar na economia (MANKIW,1985).

Já em relação à rigidez do salário real, uma das explicações mais importantes provém da teoria do salário de eficiência. Esta teoria defende que não é vantajoso para as firmas reduzir o salário para a contratação de novos funcionários, pois a produtividade dos trabalhadores depende de seu nível salarial (quanto maior o salário, maior a produtividade). Ou seja, as empresas decidem pagar um salário maior do que o salário de equilíbrio de mercado. No modelo de Solow (1979), caso os salários entrem na função de produção de curto prazo, uma firma que busque minimizar os seus custos irá deixar sua oferta de salário inalterada, não importa o quanto sua produção mude (supondo que salários maiores estão relacionados a maior produtividade).

Em suma, existe um conjunto amplo de explicações da teoria novo-keynesiana (em geral, complementares) para explicar a existência de rigidez de preços e salários11. Estas imperfeições de mercado fazem com que a política monetária não seja neutra no curto prazo.

11 Neste trabalho optou-se por apresentar apenas algumas destas teorias. Para um resumo das explicações

Esta situação abre a possibilidade de utilização da política econômica como forma de estabilização da economia, em especial em situações de recessão profunda.

A despeito da diferença na visão sobre a neutralidade da moeda no curto prazo, podemos identificar uma convergência das ideias entre Novos Clássicos e Novos Keynesianos. É possível ressaltar os seguintes elementos gerais de continuidade entre essas escolas:

(i) Os agentes são otimizadores e possuem expectativas racionais;

(ii) A necessidade de fundamentos microeconômicos para justificar os resultados macroeconômicos;

(iii) A utilização de modelos macroeconômicos deve ser feita dentro de uma abordagem de equilíbrio geral;

(iv) A neutralidade da moeda no longo prazo.

As contribuições feitas pelas escolas Novo Clássica e Novo Keynesiana foram de suma importância para a evolução do pensamento macroeconômico ortodoxo. Todavia, ainda que cada vez mais sofisticada, especialmente em termos de modelos, a teoria ortodoxa continua com a mesma visão da origem da inflação, isto é, a de que um crescimento da oferta de moeda, acima do crescimento do produto, tem como resultado de longo prazo unicamente a elevação da inflação. Além disso, mantem-se a crença na neutralidade da moeda no longo prazo e na adoção de regras para a condução da política monetária. Esses são os principais elementos que irão diferenciar a visão ortodoxa da visão pós-keynesiana.