• Nenhum resultado encontrado

5 FORMAÇÃO DISCURSIVA: A INFORMAÇÃO

6.4 Genentech – o encontro de Man of reason com Wall Street man

6.4.1. Novos papéis e instituições: empresas start-up e PhD CEO

Empresas “start-up”

Enquanto Genentech desenvolvia outros projetos, ampliavam as relações entre a academia e a indústria. Grois (1989, p.71) enfatiza, num tom acrítico, que a aventura americana deu início à criação de um novo tipo de estrutura, que fica na metade do caminho entre a universidade e o mundo industrial: a empresa start-up. Como foi enfatizado durante a entrevista com a representante da Human Genome Science (HGS, 2002), a principal característica dessas empresas é o fato de que são criadas com base na exploração de um novo conceito científico, traduzido numa nova tecnologia, que no caso da HGS é a aplicação do Genoma à descoberta e ao desenvolvimento de novos medicamentos. Outro importanto aspecto é o de que as empresas start-up dependem enormemente de empreendedores, gerentes e até de funcionários com sólida formação cientifica, criando assim um novo tipo de empresa com características próximas à da academia.

Man of reason Campo organizacional da biotecnologia Wall Street man

De fato, muitos dos cientistas que se opuseram a Boyer acabaram seguindo o mesmo caminho, fundando empresas de biotecnologia, enriquecendo com os descobrimentos científicos conseguidos com o dinheiro do contribuinte. Várias iniciativas de caráter inédito foram tomadas, com pesquisadores renomados (reconhecidos pela excelência em pesquisa básica), decidindo tornarem-se a principal força de sustentação das empresas, ou até mesmo a criar suas próprias empresas. Empresas de capital de risco e farmacêuticas partiram para uma estratégia agressiva junto às universidades. O movimento mimético que caracteriza a estruturação do campo organizacional – conforme identificado a partir da abordagem institucional – pode ser observado nesse momento. A Genentech estabeleceu o padrão do que viria em seguida: um consórcio de cinco a seis cientistas se reúne, formando uma empresa, as pessoas colocam dinheiro nessa empresa e os cientistas fazem seu trabalho nos laboratórios universitários. A justificativa moral e a racionalidade econômica impulsionava um processo que já tinha precedentes. Novas empresas começaram a explorar o potencial das novas tecnologias de engenharia genética. Como Bodmer e McKie (1994) apontam, uma das primeiras empresas a apostar no potencial do r-DNA foi a Biogen, cujo “fundador-chave”foi Walter Gilbert, outro cientista de renome. Outras empresas fundadas nesse momento foram a Genex, a Centocor, aAmgen e a Chiron, entre outras.

Como Teitelman (1991) enfatiza, aGenentch não criou sozinha a biotecnologia. Esse termo se tornou comum por causa de centenas de empresas que seguiram seus passos.

(…) entre 1979 e 1981, mais de 150 pequenas empresas de biotecnologia foram criadas por cientistas ansiosos por explorar suas pesquisas; enquanto uma dúzia de outros acadêmicos entraram em lucrativas alianças cooperativas com a indústria. Pesquisadores reconhecidos e prêmios Nobel como Paul Berg, Walter Gilbert e David Baltimore, que seguiram o exemplo de Boyer no mundo das empresas, agora, tinham um poder sem precedentes. A presença deles no corpo docente de uma universidade de segunda linha a colocaria na dianteira, permitindo- lhe contar com o patrocínio empresarial (MARSA, 1997, p.102-103).

Essas transformações possibilitaram as ofertas públicas do setor de informática e biotecnologia no período de 1981 a 1983. Enquanto algumas companhias de biotecnologia tornaram-se públicas logo na primeira fase do seu ciclo de vida – em alguns casos, poucos

meses depois de preenchida a papelada necessária à sua legalização – nenhuma companhia vendeu ações depois de efetivamente vender produtos. Talvez, uma exceção seja a Hybritech (com sede em La Jolla, CA), criada em 1978 e que não se tornou pública até outubro de 1981, ano em que recebeu aprovação para seu primeiro diagnóstico baseado em anticorpos. “Contos de fadas” sobre o Eldorado das indústrias de microcomputadores levaram a uma predisposição de capitalistas de risco, pela primeira vez na história, a investirem em pesquisa básica (TEITELMAN, 1991; STEWART, 1991).

Para Teitelman (1991), o termo biotecnologia como um conceito comercial pode eventualmente ter perdido sentido, considerando que o fator que o diferenciava originalmente – o conjunto de tecnologias dominadas pelas empresas – não se aplica mais. A engenharia genética atualmente tem se difundido cada vez mais e é considerada apenas um dos métodos de pesquisa e desenvolvimento de novos remédios. Inclusive a relação com a biologia molecular, que diferenciava o setor, está se perdendo, pois hoje em dia qualquer empresa farmacêutica emprega um número enorme de biólogos moleculares.

Mesmo como um fenômeno dos negócios – um pequeno e empreendedor grupo de empresas de biomedicina apoiadas na pesquisa, situado entre a academia e os gigantes farmacêuticos – a biotecnologia está ameaçada de se fragmentar. Essa fragmentação geraria uma variedade de “subindústrias” com atuação desde a distribuição de remédios até a neurociência e o diagnóstico, assim como ocorrera com a biologia molecular nos anos 1970. A tendência atual é a gradual absorção dessas empresas por grandes firmas com poder econômico e força no mercado para comercializar seus produtos. A aquisição da Genentech é apenas um sinal mais evidente desse fenômeno que vem se acelerando desde 1987.

Poderiamos ir mais longe. A revolução mais autêntica na biotecnologia não aconteceu tecnologicamente, mas intelectualmente, nos corações e mentes dos biólogos acadêmicos, durante os grandes debates dos anos 1970. Não sabemos ainda de todas as conseqüências dessa revolução, mas sabemos que uma grande transformação envolveu a biologia molecular durante aqueles anos, derrubando conceitos tradicionais e promovendo uma abertura para novas relações com o mundo exterior. Porque foi essa grande transformação, combinada com o entusiasmo de Wall Street – um entusiasmo tão velho quando a própria ganância – que criaram as condições para a emergência da biotecnologia nos anos 1980 (TEITELMAN, 1991, p.20)

O empreender científico – Ph.D CEO

Diferentemente de outros campos, onde havia personalidades individuais dominantes, na biotecnologia ocorreu o surgimento de um conceito mais genérico, expressando uma interseção entre a academia e o mundo dos negócios: o de empreendedor científico, o Ph.D. CEO. A institucionalização desse papel sinalizou o poder do discurso do Man of reason, que foi incorporado na prática discursiva reticular. Os mercados financeiros e o público em geral pareciam demandar essa figura.

A indústria americana era continuamente vista como burocrática, chata e lenta. O antídoto parecia ser o empreendedor que dominasse uma tecnologia que pudesse neutralizar as forças negativas da burocracia e do capital. Esses empreendedores canalizaram o idealismo agressivo dos anos 1960 para a nova ordem do mundo dos negócios. Coincidindo com a análise de Boltanski e Chiapelo (1999), esses indivíduos eram considerados possuidores de um novo “espírito empreendedor”, capaz de transformar o indivíduo enquanto revitalizava a economia. O empreendedor irradiava juventude (literal e figurativamente); o empreendedor

start-up, com sua criatividade e flexibilidade, era confrontado com a rigidez artrítica das

antigas grandes organizações. O empreendedor era descrito pela mídia como uma espécie de revolucionário – capaz de transpor o abismo do alto risco, romper antigas regras, liberar energias contidas, realizar milagres científicos e restaurar a economia.

Um episódio representa bem as novas relações de poder. O reitor da Universidade de Stanford, Donald Kennedy, convidou cientistas renomeados e presidentes das melhores universidades reconhecidas pela pesquisa de ponta, como Harvard, MIT, Caltech e a Unversity of California and Stanford30 para uma reunião com executivos de 11 corporações – incluindo a Du Pont, o Eli Lilly, Genentech e Gillette. O objetivo era discutir diretrizes para as relações da indústria com a academia, excluindo da lista dos convidados a imprensa e o público. A conferência não serviu apenas para mostrar o quanto a expectativa relativa à engenharia genética tinha alterado o etos científico. Os participantes exemplificaram que as fronteiras entre o indústria e academia tinham sido ultrapassadas. Três dos reitores das

30 Essas universidades recebiam US$600 milhões em fundos federais de pesquisa, aproximadamente 15% de

universidades estavam nos conselhos-diretores ou eram consultores bem pagos de diferentes corporações, enquanto pelo menos quatro dos CEOs representando a indústria eram trustees da Caltech, do MIT ou de empresas afiliadas ao MIT. Os participantes da conferência, defendendo-se das acusações de que conspiravam para criar “cartéis de campus” que lucravam às custas do contribuinte, elaboraram um manifesto em que garantiam à opinião pública de que preservavam a integridade da universidade.

a febre da biotecnologia era tão forte que mesmo prêmios Nobel como Cesar Milstein se sentiam diminuídos porque não tinham começado uma empresa. “Nesta sociedade” – ele enfatizava – “você se sente um estúpido se não for capaz de fazer dinheiro”. Outro cientista reconhecido observava que “é supreendente como atitudes em relação à transferência de tecnologia mudam quando aquele primeiro Ferrari vermelho aparece num campus (MARSA, 1997, p.133).

O papel do PhD CEO também transformou as relações entre o corpo docente e a universidade, porque um professor que cria uma nova empresa não é simplesmente valorizado como professor e pesquisador, mas também se torna uma fonte significativa de recursos. Num encontro da American Society for Microbiology no início dos anos 1980, os cientistas foram aconselhados a reconhecer seus papers em cartório, antes de os apresentarem em encontros científicos, para facilitar o processo de patenteamento. Estudantes orientados pelos PhD CEOs se queixavam de trabalhar de graça para as empresas destes. Disputas entre cientistas – até então imbuídos de um espírito de colaboração para a pesquisa – se tornaram freqüentes quando surgiu a questão da patente ou da consultoria.

Mesmo que as relações comerciais da academia com a indústria não fossem inéditas, o caso da biotecnologia era diferente. De fato, os cientistas americanos sempre foram ligados à área comercial, prestando consultoria a várias empresas e indústrias. Lembro que a industria eletrônica nasceu dos campi americanos. Inclusive, muitas das universidades eram financiadas por representantes corporativos como Rockefeller, Mellon, Vanderbilt e Carnegie. Contudo, no caso da biotecnologia, as pessoas que comercializavam seus descobrimentos continuavam nas universidades. A opinião pública, por sua vez, considerava as questões sociais e éticas da comercialização da biomedicina mais sensíveis do que a comercialização de outros materiais.

6.4.2 A ideologia neoliberal