Inovação e sustentabilidade
Nos últimos tempos, o termo “inovação” tornou-se um jargão obrigatório na linguagem das empresas, pois inovar passou a ser fundamental em todos os segmentos do mercado. Com isso, assistimos a cultura da inovação emergir e atribuímos a esse substantivo uma visão extremamente positivista: inovar virou sinônimo de “mudança para o sucesso”. No entanto, não podemos nos curvar à simplicidade dessa afirmação. O conceito de inovação é muito mais complexo e está baseado no desenvolvimento de novos bens, na implantação de diferentes métodos de produção e na criação de novas formas de organização, fatos que refletem o comportamento atual da sociedade.
É evidente que estamos passando por mudanças de comportamento social. Tais mudanças se relacionam a questões econômicas e políticas, a novos padrões de produção e consumo, e a diferentes formas de fazer negócios no Brasil e no mundo. De acordo com uma visão mais cética, a redução de empregos frente a outras soluções tecnológicas, o consequente aumento da desigualdade social e a mudança do ritmo de crescimento das grandes economias são pontos
MÓDULO IV – NOVOS PARADIGMAS EM
SUSTENTABILIDADE
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preocupantes desse processo. Para os que enxergam a partir dessa perspectiva, a inovação pode ser uma grande vilã.
No entanto, uma visão mais otimista sugere que, cada vez mais, a inovação é aplicada em pesquisas científicas para a cura de doenças crônicas, no desenvolvimento de novos materiais e no investimento em energias limpas e renováveis. Assistimos também a grandes transformações no campo educacional, como o incentivo à adoção de novas tecnologias, à capacitação das pessoas para um novo cenário econômico e, até mesmo, ao surgimento de novas profissões como alternativa para o mercado.
Ricardo Voltolini, no seu livro Sustentabilidade como fonte de inovação (2016), afirma que, para obter bons resultados, a empresa precisa saber claramente por que quer inovar, em que quer inovar, como inovar, com quem inovar, quanto tempo deve ser dedicado a essa inovação e até onde ela pode ir. Em outras palavras, a inovação pela inovação apenas não basta. É necessário encontrar o equilíbrio e clarificar os seus objetivos.
Como vimos, em 2015, foi estabelecida pela ONU a Agenda 2030, que definiu os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, desdobrados em 169 metas interdependentes e interconectadas que orientam a sociedade na construção de um mundo economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente mais justo até 2030. Para alcançar esses objetivos, é fundamental que as práticas de gestão atuem de forma integrada, estabelecendo iniciativas que possam aproximar a inovação e a sustentabilidade. Considerando esse contexto, devem ser desenvolvidas habilidades técnicas e estratégias de gestão associadas a valores como a ética e o desenvolvimento sustentável.
Negócios voltados para a base da pirâmide
A criação de sociedades mais justas e inclusivas prevê que mais pessoas consumam produtos e serviços, o que gera maiores impactos ambientais. No Brasil, por exemplo, em um período de aproximadamente 10 anos, 40 milhões de brasileiros ascenderam à classe C, o que gerou uma população de aproximadamente 120 milhões de pessoas na nova classe média. Em pouco tempo, essa classe passou a comprar carros, eletrodomésticos, eletrônicos, produtos manufaturados e outros recursos.
Stuart Hart, professor da Cornell University, foi um dos primeiros a chamar atenção para um novo setor da sociedade, a base da pirâmide (BoP), que reúne bilhões de pessoas em estado de pobreza no planeta. Segundo ele, o desenvolvimento sustentável só será bem-sucedido quando puxado de baixo para acima, fato corroborado por Prahlad no livro A riqueza na base da pirâmide (2005), onde o autor afirma que “essa base oferece enormes oportunidades e desafios às empresas que operam exclusivamente no topo da pirâmide.” Isso significa que as empresas devem olhar para esse novo consumidor como uma oportunidade de gerar novos negócios com menor impacto ambiental e de contribuir para o desenvolvimento social.
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Negócios voltados para a BoP não estimulam a adaptação de produtos já oferecidos ao topo da pirâmide – o que significaria bilhões de pessoas consumindo de maneira insustentável como boa parte da sociedade atual –, mas sim o desenvolvimento de novos produtos e serviços para esse novo consumidor, por meio de novas tecnologias sustentáveis que promovam a inclusão social.
O sucesso dos negócios voltados para a base da pirâmide está na abordagem participativa dos stakeholders, em um processo de cocriação e colaboração. Como falamos anteriormente, stakeholders devem ser entendidos, ouvidos e engajados para garantir a prosperidade dos negócios.
As necessidades dessas comunidades mais carentes apontam oportunidades de negócio para as empresas. Por exemplo, o acesso e a distribuição de energia renovável, a utilização de biocombustíveis, a purificação de água, a criação de biomateriais – especialmente em técnicas de construção –, o acesso à tecnologia da informação e a agricultura sustentável são algumas das ações que podem auxiliar na resolução dos desafios globais.
Microcrédito: experiência de sucesso
Um dos mais célebres exemplos de negócio baseado na BoP foi a criação do microcrédito, que teve como protagonista o ganhador do Nobel da Paz Muhammad Yunus. Por meio do seu Grameen Bank, Yunus oferece pequenas quantias de dinheiro a pessoas pobres que não têm acesso a crédito. O banco, que hoje conta com mais de 2.000 agências, originou-se de uma experiência conduzida pelo próprio Yunus. Ele emprestou dinheiro a algumas moradoras próximas à região onde dava aulas para que pudessem adquirir a matéria-prima necessária à produção de artesanato.
Todos os empréstimos foram pagos pontualmente, e isso fez com que a ideia pudesse ser viabilizada e multiplicada.
O Grameen Bank é um exemplo de prosperidade de negócio voltado para base da pirâmide.
Além disso, a sua experiência deve ser observada por outros bancos, pois, após ter emprestado mais de 5 bilhões de dólares e empregado mais cerca de 19 mil pessoas nos últimos anos, o novo banco teve uma taxa de inadimplência de apenas 1,15%, enquanto as taxas do setor tradicional ficam entre 5 e 10%.
Exemplos como esse demonstram que devemos enxergar os problemas e desafios como oportunidades de inovação e sob a ótica da sustentabilidade, criando inovações que contribuam para a diminuição do impacto ambiental, prosperem financeiramente e colaborem para a construção de uma sociedade justa.
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Economia circular
Como vimos, o planeta Terra é um organismo vivo e funciona de maneira sistemática, em um processo cíclico. O sistema produtivo da sociedade atual, no entanto, funciona de forma linear: exploramos matéria-prima, produzimos o que queremos e descartamos o que não queremos mais. Esse movimento não é sustentável, pois acumula um grande número de resíduos e gera um grande impacto ambiental.
A economia circular surge então com o objetivo de redefinir esse processo, focando a criação de benefícios positivos para toda a sociedade, dissociando, de maneira gradual, a atividade econômica do consumo de recursos finitos e projetando resíduos fora do sistema.
Alguns dos princípios da economia circular são:
maximizar a usabilidade dos recursos utilizando-os de maneira mais eficiente;
regenerar os sistemas naturais e
recuperar os produtos e materiais durante o seu ciclo de vida.
Como podemos notar, esses princípios alinham-se ao conceito de tratamento “do berço ao berço”, visto anteriormente.
A transição para uma economia circular deve levar em consideração o produto, o processo, o uso e todo o ciclo nele envolvido. Representa, portanto, uma mudança sistêmica, que cria resultados de longo prazo, gera oportunidades comerciais e econômicas, e proporciona benefícios ambientais e sociais, exigindo não só mudanças tecnológicas mas também mudanças comportamentais da sociedade.
Como estratégia de inovação, a economia circular torna-se relevante em diversos setores produtivos, como os de transportes, serviços e agricultura. Vejamos um exemplo de cada setor:
a) Transportes:
No setor de transporte, por exemplo, novas soluções de locomoção, como a Uber e o Cabify, permitem que as pessoas se movam de um lugar a outro sem que precisem de carro próprio. A conectividade melhora, cada vez mais, a relação do motorista com os veículos e alia-se também a iniciativas de condução autônoma (carros autodirigidos). Empresas como a Tesla, que oferece ao mercado carros elétricos, colaboram com o avanço tecnológico e, consequentemente, com a diminuição do impacto ambiental.
b) Serviços:
No âmbito dos serviços, podemos citar as iniciativas de co-working, espaços colaborativos utilizados para trabalho que ficam, normalmente, em ambientes inovadores e criativos, permitindo maior interação entre pessoas de diferentes nichos de mercado e troca de experiências.
Esses espaços representam um grande ganho para toda a humanidade, pois diminuem o impacto
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ambiental por meio da otimização de recursos. Com eles, temos menos escritórios funcionando, reduzimos consideravelmente os custos com construção, energia, água e internet, e diminuímos a geração de resíduos.
c) Agricultura:
Na agricultura, a tecnologia vem otimizando os processos para reduzir o desperdício na cadeia. No ciclo biológico da economia circular, os alimentos e os materiais de base biológica (como algodão ou madeira) são projetados para retornar ao sistema por meio de processos como compostagem e digestão anaeróbica. Esses processos regeneram sistemas vivos (como o solo) fornecendo-lhes nutrientes, e esses sistemas fornecem recursos renováveis à economia.
A economia circular propõe uma mudança de perspectiva, uma mudança no modo como a nossa economia funciona. Essa transformação só é possível por meio da criação de produtos e formas de fazer negócio que sejam cíclicos e estimulem a colaboração e a integração dos sistemas terrestres. A criatividade e a inovação são a base para essa reconstrução de uma economia que possa colaborar para a restauração e a prosperidade do nosso planeta.
Smart cities
Com o avanço progressivo da utilização das tecnologias da informação e comunicação (TICs) no dia a dia da população, observamos uma mudança na maneira como as pessoas se relacionam, o que traz, cada vez mais, reflexos para os espaços públicos. Ao mesmo tempo, os índices de urbanização crescem em alta velocidade, criando grandes centros e megacidades.
Nesse contexto de desenvolvimento dos núcleos urbanos, surge o conceito de smart cities:
cidades inteligentes, entendidas como espaços urbanos onde a inteligência está a serviço dos cidadãos na forma de tecnologias avançadas, promovendo o desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico e a qualidade de vida. Nesse caso, o envolvimento dos cidadãos, o investimento em infraestrutura, o capital social e as tecnologias digitais tornam as cidades mais habitáveis, resilientes e capazes de responder aos desafios enfrentados pela sociedade.
Algumas iniciativas governamentais já podem ser observadas no sentido de alterar o modelo atual de cidades, como o 20/20/20, plano da União Europeia para reduzir poluentes e melhor aproveitar os recursos naturais. O objetivo do plano é, até 2020:
reduzir em 20% o consumo de energia primária;
reduzir em 20% as emissões de gases do efeito estufa e
ampliar em 20% a contribuição das energias responsáveis no consumo total da população.
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Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável também são um exemplo, pois têm como uma das suas metas a promoção de cidades como comunidades sustentáveis, além das metas relacionadas à produção e ao consumo nas cidades. Os desafios são imensos, e desencadeiam uma série de consequências que vão desde uma maior necessidade de mobilidade, até o aumento de demanda de estratégias de segurança pública.
Evolução do conceito
O conceito inicial de cidade inteligente data da década de 1990, quando era visto como um modelo de cidade integrada, criada para resolver os problemas de sustentabilidade relacionados, principalmente, à esfera energética e de redução das emissões de gases nocivos à atmosfera. Hoje esse conceito evoluiu e apresenta algumas características específicas, como podemos observar no quadro a seguir.
Quadro 3 – Características das smarts cities
habitação e inclusão Criar melhores oportunidades de moradia para todos.
cidades inclusivas e humanas
Promover a qualidade de vida, reduzir o congestionamento, a poluição do ar e o esgotamento de recursos, impulsionar a economia local, promover interações e garantir a
segurança.
acessibilidade urbana
Pensar a cidade não apenas para veículos e transporte público, mas também para pedestres e ciclistas. Deve-se considerar a construção de modais e a integração dos serviços de transporte oferecidos.
preservação e
desenvolvimento de áreas abertas
Criar parques e espaços recreativos, a fim de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, reduzir os efeitos do calor urbano e promover o equilíbrio ecológico respeitando a biodiversidade.
governança pública efetiva
Promover, por parte do governo, um diálogo constante e transparente com o cidadão. A tecnologia e os meios digitais colaboram nesse sentido, gerando
responsabilidade e promovendo a transparência, além de facilitarem o uso de serviços públicos. As redes sociais também são canais que podem ser utilizados para ouvir a população e obter feedback sobre programas e políticas de governo, ou para realizar consultas públicas e de opinião.
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Importância da mudança
Como vimos, enfrentamos hoje um alto índice de urbanização. Cerca de 54% das pessoas do mundo vivem em cidades, índice que, segundo projeções, deve chegar a 66% até 2050. Se combinarmos esses dados com o crescimento esperado da população, nos próximos 30 anos, teremos a inserção mais 2,5 bilhões de pessoas em cidades. A sustentabilidade apresenta-se, portanto, como uma ferramenta ambiental, social e econômica necessária ao acompanhamento dessa rápida expansão que está sobrecarregando os recursos das nossas cidades.
Com o lançamento dos ODS, mais de 190 países concordaram em buscar alcançar as metas para o crescimento sustentável, e as cidades inteligentes surgem como um canal fundamental para o sucesso dessa iniciativa.
O principal objetivo das smart cities é colocar as pessoas no centro das atenções. A cidades devem ser pensadas para tornarem-se espaços amigáveis, que fazem com que os seus moradores possam integrar-se ao lugar onde vivem.
As empresas devem entender a importância desse novo conceito para a gestão, pois são parte integrante das cidades e têm as suas ações e atividades impactadas, assim como geram impactos. Além disso, os stakeholders cobram cada vez mais essa contribuição das organizações e o seu pioneirismo em ações que contribuam para a criação e o desenvolvimento de espaços mais inclusivos.
Gestores conscientes da importância que exercem dentro da construção de modelos de gestão compatíveis com essa nova realidade têm maiores condições de gerir empresas para prosperar.
Compliance e ética
Compliance
Como vimos, os modelos de gestão estão mudando de forma acelerada, fato que se deve a uma série de fatores, como inovações disruptivas, transformações digitais, ameaças de crise, escândalos de fraude e corrupção. Esse panorama fez com que as organizações aumentassem o foco em estratégias de governança que contemplem as mais diversas partes interessadas, indo além dos acionistas e administradores. Essa mudança também eleva a responsabilidade no processo de tomada de decisão, avaliação e julgamento dos gestores.
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Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2015), a governança aplicada às corporações pode ser assim definida:
“[...] sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle, e demais partes interessadas.”
As boas práticas de governança corporativa (GC) referem-se à conversão dos princípios básicos da empresa em recomendações mais assertivas, que alinhem os seus interesses com a finalidade de “preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade da gestão da organização, sua longevidade e o bem comum.”
Cada vez mais, a governança corporativa vem se aproximando da sustentabilidade, pois a sociedade passou a exigir que fossem publicadas informações sobre os aspectos econômicos, sociais e ambientais nos relatórios e demonstrações de resultado das empresas. Os stakeholders esperam das empresas um comportamento ético e transparente, que considere os direitos humanos, preserve os recursos naturais e colabore para reduzir os impactos negativos à sociedade.
Considerando essa necessidade, a GC por ser um tipo de guia de atuação, uma promotora de um ambiente de confiança, ético e baseado em valores.
Nesse cenário, vemos crescer a pressão por parte do governo e da sociedade em relação à compliance, termo em inglês que significa conformidade. Após inúmeros escândalos expostos pela mídia e operações como a Lava Jato, diversos acordos internacionais surgiram, promovendo a cooperação entre autoridades de diversos países para combater a corrupção e os atos ilícitos nos setores público e privado. Além disso, as legislações estão cada vez mais rígidas e com maior teor punitivo financeiro, atingindo tanto empresas quanto indivíduos. Há ainda os pactos autorregulamentados pelo próprio mercado. Vejamos alguns exemplos:
Lei Anticorrupção (Lei n° 2.846/2013);
Lei das Estatais (Lei n° 13.303/2016);
Programa de Integridade estabelecido pelo Decreto n° 8.420, elaborado pelo Ministério da Transparência e pela Controladoria-Geral da União;
grupo de trabalho anticorrupção da Rede Brasileira do Pacto Global;
Programa Destaque em Governança de Estatais e
revisão do regulamento do Novo Mercado (B3).
Os custos de não conformidade também foram ampliados, resultando de questões não só jurídicas mas também éticas, pois as empresas que se envolvem em escândalos têm a sua reputação e imagem extremamente afetadas.
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Aplicado à realidade das empresas, o termo compliance se refere a estar em conformidade com todas as suas obrigações legais. Um sistema de compliance contempla um conjunto de processos interdependentes que contribuem para a efetividade do sistema de governança corporativa, guiando as ações dos funcionários no desempenho das suas funções e estimulando-os por meio de uma conduta ética e íntegra.
O sistema de compliance é um mecanismo usado para estimular o cumprimento das leis e normas tanto internas quanto externas, funcionando também como uma blindagem contra desvios de conduta e como uma garantia de geração de valor econômico.
Princípios de governança corporativa como base do sistema de compliance O termo compliance surgiu como princípio na década de 1990 e era usado, principalmente, em instituições bancárias como sinônimo de “adequação jurídica”. No entanto, com o tempo, observou-se que não era possível implementar processos de compliance sem um alinhamento com os procedimentos e as políticas internas da empresa, estratégias de gestão de pessoas, processos de qualidade e melhoria continua, saúde financeira, etc. Por conta disso, atualmente, ao tratarmos de compliance, referimo-nos a um sistema que se estende a todos os níveis da empresa, alinhando-se aos seus objetivos estratégicos, à sua missão e à sua visão.
Dessa forma, na base de um bom sistema de compliance, estão os princípios básicos de governança corporativa. Conforme define o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), tais princípios são os seguintes:
a) Transparência:
Desejo ou necessidade de apresentar aos stakeholders as informações que sejam do seu interesse, e não somente as impostas por disposições de leis ou regulamentos. Como já vimos, as partes interessadas devem ser ouvidas e informadas não só a respeito do desempenho econômico da empresa, mas também quanto aos fatores tangíveis e intangíveis que fazem parte da gestão organizacional e que conduzem à preservação e ao fortalecimento do valor da organização.
b) Equidade:
Necessidade de tratar, de maneira justa e equivalente, todos os shareholders e stakeholders, levando em consideração os seus direitos e deveres, interesses, necessidades e expectativas.
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c) Prestação de contas (accountability):
Necessidade de os agentes de governança prestarem contas sobre as suas formas de atuação com clareza, de maneira concisa e compreensível, assumindo integralmente as consequências dos seus atos e as suas omissões, atuando com diligência e responsabilidade no âmbito papéis que assume.
d) Responsabilidade corporativa:
Responsabilidade dos agentes de governança, que devem garantir a viabilidade econômico-financeira das organizações, reduzir as externalidades negativas dos seus negócios e das suas operações, e maximizar os impactos positivos, levando em consideração os diversos capitais (financeiro, intelectual, humano, tecnológico, social, ambiental, reputacional) nos curto, médio e longo prazos.
Formatação de um sistema de compliance efetivo
Quando organizado de maneira efetiva, um programa de compliance fortalece a cultura corporativa e protege a reputação da organização, além de alavancar e oportunizar negócios. O Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União também reconhece, publicamente, empresas que estabelecem programas desse tipo com o selo Pró-Ética.
O Pró-Ética é um conjunto de esforços dos setores público e privado para promover no País um ambiente corporativo mais íntegro, ético e transparente. A iniciativa visa à adoção voluntária de medidas de integridade pelas empresas, por meio do reconhecimento público daquelas que se mostram comprometidas com a implementação de medidas voltadas para a prevenção, detecção e remediação de atos de corrupção e fraude.
A seguir, apresentamos um passo a passo de como formatar um sistema de compliance efetivo:
a) Envolver a alta direção:
A liderança pelo exemplo e a disponibilidade de recursos são dois fatores essenciais nesse
A liderança pelo exemplo e a disponibilidade de recursos são dois fatores essenciais nesse