As primeiras quatro décadas do século XIX, em Portugal, ficaram marcadas pelas Invasões Francesas, pela ausência da Corte e pela Guerra Civil (1828-1834), factos que proporcionaram um clima de instabilidade e incúria patrimonial.
Após quase um quarto de século no Brasil, e de ter abdicado da coroa brasileira a favor do seu filho D. Pedro II, em 1831, D. Pedro regressou definitivamente à pátria, imbuído da missão de defender os direitos ao trono português de sua filha, D. Maria293.
O regresso de D. Pedro a Portugal não se realizou em circunstâncias favoráveis, mas antes de luta, por aquilo que achava legítimo, o que, naturalmente lhe deveria ter deixado pouco tempo para pensar em políticas concretas de defesa do património.
No entanto, não é isso que verificamos. Mesmo durante o tempo passado nos Açores e, nomeadamente, durante as agruras do cerco do Porto, D. Pedro IV revelaria especiais preocupações com a instrução e a sensibilidade artística. Estas seriam especialmente concretizadas na criação do Museu Portuense – o primeiro museu público de arte em Portugal, projecto que, como veremos noutro ponto deste capítulo, aproveitando bens dos conventos abandonados e suprimidos, sequestros e expropriações dos bens dos rebeldes e traidores e o espólio da Academia Real de Marinha e Comércio do Porto, teria como missão a preservação
289 SOARES, “D. Pedro, I do Brasil …”, 2014, op.cit., p.386. 290 Idem, ibidem.
291 SOARES, RODRIGUES, "A cultura artística dos Imperadores do Brasil…”, 2012, op.cit., p.106. 292 SOARES, “D. Pedro, I do Brasil …”, 2014, op.cit., p.386, WANDERLEY, op.cit.
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do património artístico incorporado e a promoção da sua utilização com uma finalidade cultural e pedagógica. Apoiou, igualmente, a criação de um depósito central em Lisboa que viria não apenas a recolher livrarias e cartórios, mas também pinturas, tendo em vista um ambicioso projecto de um Museu Nacional de Belas-Artes.
Como veremos, a maioria das medidas delineadas no âmbito do património histórico e artístico beneficiaram sobremaneira de um contexto de laicização do Estado, que teve o seu auge em 1834 na extinção das ordens religiosas e na consequente nacionalização dos seus bens, entre os quais relevante património edificado (como os designados monumentos), e milhares de obras de arte.
D. Pedro IV, apoiado por um conjunto de intelectuais liberais, antigos exilados, como Almeida Garrett (que tinha já demonstrado um especial e efectivo interesse pela pintura nacional, e que na década de 40, através do seu Jornal de Bellas Artes contribuirá efectivamente para a valorização do património móvel), que não o terão deixado de apoiar e influenciar com as ideias progressistas trazidas de países como a França ou a Inglaterra e que com ele vêm defender o trono de D. Maria, vai revelar a essência dos ideais liberais, traduzida em medidas concretas. De facto, à sua própria sensibilidade cultural e artística, vemos associar-se a missão do Estado Liberal, o qual tem o dever de proteger os seus bens mais valiosos, distinguindo-se deste modo do “desleixo de Governos quasi selváticos”294.
A protecção das artes e da cultura, a promoção da instrução de um povo, são sinónimos de civilização, que vemos expressos na actuação do herdeiro de D. João VI, em que se denotam influências do exemplo francês, a que certamente não seriam indiferentes os seus dois casamentos já aqui referidos, primeiro com uma sobrinha-neta da rainha Maria Antonieta, a Arquiduquesa Dona Leopoldina, e depois com a neta da Imperatriz Josefina, Amélia de Beauharnais295.
É nas suas acções, que toma com os seus ministros no curto espaço de tempo que acabou por viver em Portugal, e que tiveram enormes e múltiplas consequências (políticas, sociais, económicas, culturais) – com continuidade na sua herdeira – que encontramos um desejo de afirmação identitária, concretizada na salvaguarda dos monumentos assim como do património artístico, bibliográfico e científico, e menos por novas encomendas296. Procurava-se uma
294 SOARES, Clara Moura, RODRIGUES, Rute Massano, "A salvaguarda do património histórico-artístico na regência de D. Pedro IV: a Consciência Patrimonial no contexto das Guerras Liberais", in RODRIGUES, José Delgado, PEREIRA, Sílvia S. M., (ed.). Actas do Simpósio Património em Construção, Contextos para a sua
preservação (LNEC-IHA), Lisboa, LNEC, 2011, (pp.351-358) pp.355.
295 Idem, ibidem, p.356. 296 Idem, ibidem, p.355.
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legitimação através da História, do seu conhecimento, reforçando a identidade nacional e a instrução dos cidadãos.
Uma política que se viria a afirmar futuramente com o Setembrismo mas cujas raízes já estavam implantadas e a que não seriam alheios os ecos da Revolução Francesa, nomeadamente os relacionados com os conceitos de monumento histórico e daquilo que poderemos designar como instrumentos de preservação, onde se inscrevem meios como depósitos, museus, inventários, classificação ou reutilização297.
Inserida num contexto de atitudes de salvaguarda do património que faz utilização destes meios, a partir de D. Pedro vamos encontrar o crescimento de uma consciência patrimonial, abrangente – por vezes elitista, mas ampla nas suas atitudes – , que não se fica, unicamente, pelo edificado, mas que se estende também (e, até muitas vezes, especialmente) ao património móvel. As invasões francesas, a ida da corte para o Brasil, a guerra civil, os exílios, terão contribuído para que se tomasse uma maior conscência do seu papel documental, simbólico e artístico (e mesmo financeiro), potenciando-se a sua valorização; a “portabilidade” tinha revelado a sua fragilidade mas também a sua importância.
O caso dos sete volumes da Bíblia dos Jerónimos, usurpados por Junot durante a primeira invasão francesa e devolvidos ao mosteiro de Belém em 1815, tinha demonstrado o “peso” que algum deste património podia assumir, com a sensibilidade do diplomata D. Pedro de Sousa Holstein (1775-1823), Conde de Palmela, a definir a obra como “verdadeiro Monumento
Nacional”298. A mesma sensibilidade e consciência do significado histórico e artístico que certas peças podiam assumir, seria revelada em 1833 pelo regente do reino que, perante a ameaça da invasão absolutista, assume uma atitude de protecção perante este e outros tesouros nacionais; esta postura, a promoção da fundação do Museu Portuense, entre outras acções que desenvolve até à sua morte – assuntos que analisaremos de forma mais aprofundada neste capítulo – demonstram uma clara valorização do património artístico, móvel299.
Como veremos, a legislação que passa a ser produzida, que analisamos nos vários capítulos desta tese, comporta na maioria das vezes, uma preocupação mais ou menos explícita com o conjunto de bens que são desamortizados. Com uma actuação que, num primeiro momento, procura uma proteção global – onde estarão inevitavelmente presentes interesses não apenas culturais, mas também políticos e financeiros – transparece a existência da percepção de que
297 Idem, ibidem, p.356.
298 NETO, Maria João, SOARES, Clara Moura, O Mosteiro dos Jerónimos. Arte, Memória e Identidade, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2013, pp.156-157.
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no vasto universo dos espólios nacionalizados, do património móvel conventual, existiriam preciosidades artísticas e históricas a serem conservadas. Para além das pinturas, livrarias, vasos sagrados, importava proteger todos os outros objectos que “por qualquer motivo se
julgassem preciosos”300. Obras e edifícios de “notável antiguidade”, “primores da arte”, relacionados com grandes feitos históricos, considerados de épocas áureas nacionais301,
conheceriam especial protecção.
Apesar de passarmos a constatar a valorização da dimensão estética do património histórico, nomeadamente, do móvel – a partir de então disponível em larga escala – que estará relacionada com características como a ausência de funcionalidade, que levam a que o aspecto artístico e estético, seja valorizado, constata-se que existia uma preocupação que não se limitava a estes valores. De facto, a carga histórica/simbólica que os bens encerravam, acabou por ter um peso substancial em todo o processo.
Em consequência de todo este contexto, não só obras, mas artistas, nomeadamente pintores, passam a ser vistos como símbolos da nação, parte integrante da memória colectiva. Foi isso, por exemplo, que sucedeu com Grão Vasco ou Josefa de Óbidos e as obras que lhes foram atribuídas.
Muitas obras – algumas consideradas excepcionais, atingindo o patamar de preciosidade artística, e por isso mesmo, merecedoras de especial protecção – seriam retiradas do seu contexto original, conhecendo assim uma valorização estética, museológica. Nos museus que vão nascer, e que servirão não apenas para potenciar o gosto do bello mas sobretudo o conhecimento da nossa história, do nosso património, estas, mesmo descontextualizadas, desempenharam uma relevante função documental, apresentadas como testemunhos de tempos áureos nacionais.
No caso específico da pintura (tal como sucedeu, por exemplo, com as preciosidades em ouro e prata), mesmo sendo alvo de um tratamento privilegiado, conhecendo regras particulares de inventariação, arrecadação, etc, vemos que nunca disputou o reconhecimento da sua importância, em igualdade com o edificado. No entanto, por exemplo, na forma como D. Pedro num dos retratos realizados por Sendim, surge ladeado pela sua mulher e filha, numa visita ao Mosteiro dos Jerónimos/Casa Pia, com este monumento histórico como fundo – em que a sua actuação em defesa e “transformação” deste, se mostrou crucial – ia ao encontro de uma
300 Portaria de 19 de Agosto de 1834. Disponível em http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/16/84/p22 . 301 Carta de Lei de 15 de Abril de 1835, Collecção de Leis e outros Documentos Officiaes publicados Desde 15 de
Agosto de 1834 até 31 de Dezembro de 1835. Quarta Serie. Edição Official, Lisboa, Na Imprensa Nacional, 1837,
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consciência patrimonial que, pela valorização do edifício, extravasa uma simples representação, e confere àquela pintura o estatuto de monumento.
A suspensão das obras do Palácio da Ajuda em Setembro de 1833302, por razões financeiras decorrentes da guerra civil, revelar-se-ia, como o lado menos positivo (e até algo incongruente) da acção de D. Pedro IV, uma que vez colocou no desemprego todos os pintores que ali trabalhavam e implicou a extinção da academia ou escola de desenho de Bellas Artes, que existia anexa àquelas obras, desde 1826, sob a direcção de Joaquim Rafael (1783-1864), Primeiro Pintor da Real Camara e Corte. No entanto, esta sua acção – justificada por um “espirito de ecconomia”303 – viria a estar na origem, pela mão deste artista, do projecto de
criação de um Ateneu de Belas Artes, que culminaria com a criação das Academias de Belas Artes de Lisboa e do Porto, em 1836, já depois da morte do Rei-Soldado.
Com D. Pedro IV, pela positiva e pela negativa, estávamos perante um herói romântico, retratado dessa forma pelos artistas do seu tempo. João Baptista Ribeiro, Maurício José do Carmo Sendim (1786-1870), José Joaquim Primavera (1793-?), apresentam-nos um herói, por vezes também em representações mais informais e mesmo emotivas de um homem consumido pelas “fadigas da guerra”, que se batia pela filha e pela Carta. Uma imagem que se traduziria não apenas na arte, mas também em muitos opúsculos impressos da autoria de apoiantes como Gonçalo Araujo e Sousa304 – de que transcrevemos uma frase no início deste capítulo – e que nos deixam antever uma aura de quase herói clássico que, de uma maneira geral, se manteve presente na sua memória necrológica, que perdurou nos festejos dos seus aniversários, ao longo do século XIX.
3.1. O período açoriano: primeiras medidas nos conventos (1832)
302 Portaria datada de 4 de Setembro de 1833, assinada por Cândido José Xavier: “Manda o Duque de Bragança, Regente em Nome da Rainha, partecipar ao Conselheiro Fiscal das Obras Publicas para sua intelligencia e execução que foi servido Ordenar 1.º Que sejão por ora dezempregados todos os Pintores. 2.º Que sejão sorteados quatro Pintores de broxa para se empregarem nas Obras Publicas 3.º Que fiquem supenços os Mestres de Carpinteiros, Pedreiros, Canteiros, e Serralheiros para entrarem nas Obras Publicas segundo o seu merecimento, quando houver Lugar vago 4.º Que tambem seja sorteado para Fiel hum Guarda; e que todos os outros fiquem suspenços 5.º Que se adopte a proposta relativa ás Cantarias do Erario novo, se fôr projecto economico.” ANTT, MR, Mç.2142, 4ª Repartição Negócios diversos, Letra H 1835-1843.
303 Ibidem.
304 ARAUJO E SOUSA, Gonçalo Jose de, Ao Advento de Sua Magestade Imperial; O Senhor D. Pedro Duque de
Bragança a esta Cidade de Lisboa no Glorioso dia de 28 de Julho de 1833. …, Lisboa, Na Typographia de
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Depois de regressar do Brasil e da Europa, foi nos Açores, reduto liberal, que apoiado pelos seus mais fiéis seguidores, o imperador preparou o futuro. Ali, onde se proclama regente e nomeia o primeiro governo liberal, D. Pedro, Palmela, Mouzinho da Silveira, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, José António de Aguiar, José da Silva Carvalho, entre muitos outros, arquitectaram o novo Portugal Liberal. Como escreve Pedro Calmon “A vida de D. Pedro nos Açores – quatro mezes épicos de bohemia politica – foi a necessaria transição entre a tranquilidade burgueza de S. Christovão e o cêrco do Porto”305.
Na ilha Terceira, verdadeiro viveiro ideológico e político, os liberais delineariam uma pequena amostra daquilo que mais tarde viriam a pretender realizar no Continente.
No que se refere aos conventos, levaram a cabo aquela que, após 1822, seria a primeira reforma com significativas implicações nestes e em outras estruturas religiosas. No dealbar do liberalismo, a conjuntura ideológica, política, económica tinha-se alterado e com ela a forma como as casas religiosas e a vida consagrada eram vistos. A necessidade de equilibrar o erário público era outro dos fortes motivos para agir, uma vez que com as supressões os bens eram nacionalizados.
O Relatório apresentado pelo então Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, José Xavier Mouzinho da Silveira, publicado conjuntamente com o decreto datado de 17 de Maio de 1832, que suprime conventos e colegiadas nas ilhas dos Açores e organiza as paróquias em S. Miguel, espelhava as motivações ideológicas liberais que estavam na base dessa concretização. A relação do clero com o trabalho estava no cerne da questão. Com os religiosos a serem vistos como classe parasita da sociedade, para o Ministro, “(…) o grande
principio da economia publica, [era] o desfazer quantos obstaculos se oppozerem ao maximo desenvolvimento da faculdade de trabalhar.(…)”. Para ele, tal como para a ideologia liberal, o
trabalho era visto como
“(…) a base de todas as virtudes e de todas as riquezas, e o luxo, entretido pelos
fructos do trabalho anterior, é a causa do trabalho posterior, assim como é destruidor do bem publico, não digo só o luxo, digo tambem a subsistencia mais miseravel á custa alheia (…)”306
Como tal, segundo Mouzinho da Silveira,
“Goze cada um de sua propriedade particular, e não consinta o Governo que vivam
de contribuições senão os homens necessarios para as cousas, e Portugal tem mais do
305 CALMON, op.cit., p.257.
306 Relatorio de Mouzinho da Silveira que acompanha o Decreto de 17 de Maio de 1832, disponível em
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que bastante para ser, sem o ouro do Brasil, o Paiz mais rico da Europa (…) Entre nós não ha proporção alguma entre a capacidade de achar materia contribuinte, e a gente destinada a devora-la; assim estão mal todos, ou porque não podem pagar, ou porque não são pagos”307.
Referindo-se propriamente ao Clero dizia que
“(…) tomado no sentido lato, é um dos mais escandalosos exemplos desta desproporção, no Reino, e nas Ilhas absorve maior rendimento que o da Nação, e a priva de dous terços da sua capacidade contribuinte (…)Nas Ilhas dos Açôres, aonde elles não tem os Dizimos, a mais violenta das contribuições, (…) pagar ao Clero Secular, o rendimento deste, e do Regular, e o preço, que recebe dos soccorros espirituaes, é muito mais avultado do que toda a receita publica, cuja parte consideravel é o excedente desses Dizimos (…) ”308.
O número de instituições religiosas, as falsas vocações, eram alguns dos problemas assinalados. De facto, há muito que nos Açores os conventos, pela vida ali praticada, nomeadamente os femininos, tinham atingido um elevado grau de desmoralização e descredibilização.
No entanto, a religião não era posta de parte, e D. Pedro, “ao mesmo tempo religioso, e amigo
dos homens” devia aumentar “o numero dos Pastores do Rebanho de Jesu Christo, e diminuindo a bem dos Povos as entidades, que os apoquentam”309; de facto a religião era reconhecida como “uma necessidade publica” e reconhecia-se a importância dos párocos e a necessidade de criação de novas paróquias310. Os liberais procuravam na Igreja Católica o desempenho de “um papel importante na aglutinação das consciências e na harmonização da sociedade”311.
Esta era toda uma conjuntura que influenciava o crescimento económico dos Açores. De facto, D. Pedro
“acha meios de quadruplicar a povoação, a prosperidade, e as finanças das Ilhas,
convertendo em pórtos na Terceira, S. Miguel, e Fayal as substancias, que até agora nutriam a desesperação dos Claustros, e definhavam na inutilidade, e na intriga excellentes Pais, e Mãis de familias possiveis, que multiplicarão um dia a especie
307 Idem, ibidem http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/73/116/p169. 308 Idem, ibidem.
309 Idem, ibidem.
310 Idem, ibidem, http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/73/116/p170.
311 NETO, Vítor, “O Estado e a Igreja”, in História de Portugal, (MATTOSO, José, dir). 5º vol., Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, p.266.
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humana, e augmentarão a industria, e o trabalho, sustentando a Sociedade, em logar de se lhe impôr como fardos.”312.
Todas estas ideias vão estar reflectidas no decreto de 17 de Maio de 1832, logo no Artigo 1º, em que se refere:
“Os bens de todos os Conventos supprimidos nas Ilhas dos Açôres são Bens Nacionaes
os bens dos Conventos conservados, podendo não ser sufficientes para a sustentação de todos os Religiosos, e Religiosas, entrarão na Massa geral da administração, que fiscalisará o rendimento, e preencherá o que faltar O Governo applica desde já os bens desnecessarios áquella sustentação, para abrir pórtos nas Ilhas de S. Miguel, Terceira, e Fayal, (…)”313.
Também os padroados eram declarados bens nacionais.
Quanto aos bens, nomeadamente os bens móveis, encontramos pontos de contacto com o decreto de 26 de Outubro de 1822, contudo, ao contrário deste, nenhum artigo alude especificamente às livrarias, quadros, medalhas, pedras preciosas, ou outro bem de eventual interesse artístico. Ou seja, o legislador não teve a preocupação de salvaguardar o vasto conjunto de obras de arte que constituíam o importante tesouro das corporações então suprimidas.
São apenas três os artigos do dito decreto (artigos 3º, 4º e 5º) com eventual implicação mais directa neste tipo de património:
“Art. 3.º Os Vasos Sagrados, como calices, patenas, pixides, e ambulas são dados ás
Parochias pobres, preferidas as que de novo se crearem; e posto que as galhetas, e as colherinhas não sejam objectos Sagrados, e que as custodias só o sejam as meias luas, todavia as custodias, galhetas, e colherinhas serão considerados objectos Sagrados para o fim da doação. Do mesmo modo são doados ás referidas Parochias todos os ornamentos e vestiduras
Art. 4.º Os bens de raiz dos Conventos supprimidos são a hypotheca legal de todas as pensões estabelecidas neste Decreto, os móveis não comprehendidos no Art 3º serão immediatemente alienados Quando aconteça dispôr o Governo de alguns bens, outras hypothecas serão substituidas, em quanto houver direito adquirido a ellas
312 Relatorio de Mouzinho da Silveira … http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/73/116/p170. 313 Decreto de 17 de Maio de 1832, http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/73/116/p170-179.
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Art. 5.º Os inventarios dos bens dos Conventos supprimidos, e dos conservados serão feitos pelos Agentes da administração publica, e os dos objectos mencionados no Artigo 3º serão feitos pelo Ordinario na occasião, em que se fizer o inventario geral estes objectos serão distribuidos pela fórma disposta no mesmo Artigo 3º, com Recibos em fórma, que subirão com os inventarios á Secretaria d’Estado dos Negocios Ecclesiasticos e de Justiça.”314.
De facto, apenas os objectos mais directamente ligados ao culto, merecem especial menção, nomeadamente, por terem destino certo: as paróquias pobres ou então criadas. Tudo o resto parece entrar na grande massa dos “móveis não comprehendidos no Art 3º”, cujo destino era serem “immediatamente alienados”315.
Para levar a cabo e estimular as alterações pretendidas, foram introduzidas uma série de novas regras que passavam, nomeadamente, por facilitar que as religiosas deixassem os conventos; pela obrigação de nenhum religioso poder recusar um emprego compatível com a sua profissão; pelo cessar de pensões pagas pela Fazenda Pública aos conventos (mesmo aqueles que fossem conservados); pela proibição da mendicidade e de entrada à profissão religiosa a pessoas de ambos os sexos, assim como a admissão de pupilos, pupilas e donatos. A infracção destas regras, e de outras que constituíam o decreto, poderia levar a sanções, nomeadamente, em alguns casos, à supressão de conventos316.
No que se refere a conventos de religiosas, seriam suprimidos onze conventos e conservados