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3. O ANO DE 2008: O CONTÁGIO DA CRISE MUNDIAL

3.3 NOVOS TEMPOS PARA O BRASIL E MEDIDAS DO BANCO CENTRAL

O período de 2008 foi muito importante para a sociedade brasileira, em virtude de o Brasil ter conseguido passar de devedor a credor. Depois de anos sofrendo com problemas na balança de pagamentos o Brasil conseguiu ter uma folga.

O crescimento acelerado e sustentado da economia mundial fortaleceu ás contas externas. Ás receitas de exportação atingiram níveis significativos, em virtude da elevação dos preços e das quantidades dos principais produtos de exportação do país.

Na maioria dos países emergentes aconteceu o fortalecimento das contas externas. Naquele período houve um bom aumento das reservas cambiais em diversos países emergentes.

O FMI precisou reduzir os seus custos para equilibrar seu orçamento, devido á falta de clientes nesse período. Devido ao bom momento da economia do país o Brasil quitou antecipadamente sua dívida com o FMI.

De acordo com Furugem, economista da FGV a nossa principal ineficiência que limita o crescimento brasileiro, é a falta de poupança interna, segundo ele:

Diferentemente do que acontece na China, onde a poupança se aproxima de 40% do PIB e explica o persistente crescimento em ritmo de 10% ao ano. O brasileiro é de comportamento consumista, mais do que poupador, prefere um carro hoje a dois amanhã. Daí vem o sucesso daqueles setores que vêm sendo impulsionados pela maior disponibilidade de crédito bancário, apesar do elevado nível da taxa de juros. Um crescimento sustentado a taxas elevadas depende da expansão da capacidade produtiva, cujo financiamento exige suficiente volume de poupança, se a poupança interna for insuficiente como acontece no Brasil, será necessário complementá-la com recursos externos. (Furugem, 2008, p.18).

Ainda não era o momento de o país descansar, em termos que política econômica, mesmo diante de uma situação confortável como era no momento. O Brasil havia sido beneficiado pelo acelerado crescimento mundial, mas a conjuntura internacional estava mudando.

O crescimento demanda cuidados, e não era o momento de se descuidar, mesmo com a boa notícia de o país ter zerado a dívida externa líquida com as reservas cambiais. Em tempos de prosperidade a receita tributária cresce mais que o PIB, e naquele momento o Brasil estava passando por isso.

Contudo, o governo federal anunciou no mês de maio o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), para poder acelerar o crescimento econômico do país. O programa tinha quatro metas, tais como: aumento de 10% no número de médias e pequenas empresas exportadoras, elevação do gasto privado em pesquisa e desenvolvimento para 0,65% do PIB, ampliação do investimento fixo para 21% do PIB e ampliação da participação das exportações brasileiras do mercado mundial para 1,25%.

Á inovação tecnológica promove o desenvolvimento econômico, sedo que ás políticas governamentais tem um papel muito importante nesse processo. Porém é necessário dar mais atenção para os efeitos reais da política governamental sobre as capacidades tecnológicas, conforme os economistas do IBRE/FGV:

Capacidade tecnológica é um conjunto de recursos á base de conhecimentos técnicos que permitem as empresas realizarem atividades tecnológicas de maneira independente. As capacidades tecnológicas (ou recursos cognitivos) armazenam-se em quatro componentes: capital físico (sistemas técnicos, equipamentos, instalações); capital humano; capital organizacional (rotinas organizacionais, processos e sistemas gerenciais); e produtos e sistemas. Tais capacidades, por sua vez, dividem-se em dois grandes tipos: capacidades de produção, para usar tecnologias e sistemas de produção existentes, e capacidades de inovação, para gerar e gerir inovações tecnológicas em produtos, processos e serviços etc. Estas por sua vez variam de básico, intermediário e avançado até a fronteira internacional de inovação. Tanto as capacidades de produção como inovadoras são adquiridas e acumuladas pelas empresas por meio de aprendizagem tecnológica, que são os mecanismos de aquisição de conhecimentos técnicos via fontes externas e internas. (Cavalcanti e Figueiredo, 2008, p. 22).

Devido ás pesquisas sobre os efeitos da inovação tecnológica para o progresso industrial, criaram-se maneiras para se medir o grau das capacidades tecnológicas, principalmente nas economias emergentes.

O futuro da economia brasileira precisava ser analisado, e levado em consideração àquilo que realmente tinha influência sobre ele, principalmente devido aos impactos dos preços das commodities e do aquecimento da demanda global. A política econômica realizada tinha vários elementos que evidenciavam á continuidade do crescimento econômico do país.

Á economia interna efetuava o regime de metas inflacionárias, tais como, aumento de crédito para o consumo, políticas de distribuição de renda, flexibilidade do mercado de trabalho, financiamento de máquinas e equipamentos e política industrial, que estimulavam vários setores para a produção.

O aumento acelerado da demanda resultou no aumento do nível geral dos preços, isso foi consequência da política macroeconômica brasileira exercida no momento. Por conta disso o Banco Central começou a dar sinais de que aumentaria a taxa básica de juros.

A intenção do Banco Central era manter estável o poder aquisitivo das pessoas, e para isso traçou sua estratégia por meio da política de metas de inflação.

O bom desempenho das políticas macroeconômicas proporcionou o crescimento da economia brasileira. O país estava passando por várias transformações que possibilitaram na melhora da renda de boa parte da população, e estava caminhando para á direção de um crescimento gradual, mesmo diante de várias evidências de que havia uma enorme necessidade de reforma tributária.

Á rápida aceleração da inflação foi em boa parte devido à alta nos preços das commodities, em especial para o preço do petróleo e dos alimentos. Os países emergentes foram os principais causadores do forte e rápido aumento da demanda por matérias primas, alimentos e petróleo, com destaque para a China e Índia.

Conforme Furugem diretor e professor da FGV, os bancos centrais precisaram tomar algumas medidas, diante do crescimento desigual entre oferta e demanda os preços inevitavelmente se elevaram:

Diante desse cenário, tendo ou não metas formais para o controle da inflação, não há dúvida de que a maioria dos bancos centrais, mundo afora, tenderá a apertar a politica monetária, com objetivo de controlar a alta dos preços. Isso porque a preservação da estabilidade macroeconômica constitui a principal missão dos bancos centrais e nada faz supor que desta vez possa ser diferente. (Furugem, 2008, p.20).

O Brasil e diversas empresas se beneficiaram da excelente expansão do crescimento internacional dos preços das commodities. Os custos das atividades econômicas foram impactados pelo petróleo, e a consequência disso afetou os preços de diversos serviços e produtos, gerando pressões inflacionárias que se espalharam por diversos setores da economia.

A conjuntura internacional favorável possibilitou o aumento da renda da população de baixo poder aquisitivo, porém o elevado crescimento do consumo dos países emergentes gerou o aumento do preço dos alimentos. No caso do Brasil o governo precisou comprimir á política monetária para poder controlar o processo da inflação.

Porém á economia mundial naquele momento estava crescendo á taxas elevadas, e isso ajudou á manter os preços dos produtos de exportação do país.

O autor, diretor e professor da FGV faz um questionamento sobre o aumento do preço dos alimentos, e por quanto tempo mais as pessoas miseráveis teriam que lidar com esse aumento, e o mais importante, quando ela teria uma queda:

Isso parece possível e até provável, na medida em que a produção cresça em reposta a preços mais elevados. Parece improvável, entretanto, que os preços dos alimentos voltem aos níveis históricos anteriores.

Um cenário duradouro para preços dos alimentos relativamente mais caros do que tínhamos no passado será ainda mais provável se os países ricos, principalmente os europeus, reduzirem os subsídios á produção agrícola. (Furugem, 2008, p. 22).

O crescimento econômico do país seria mais limitado, devido á mudança da conjuntura internacional. Para Furugem, economista da FGV, a economia brasileira cresceria á uma taxa perto de 4,5% em 2008 e com inflação acima do limite fixado pelo sistema de metas.

Ás várias mudanças na área institucional serviram como referência para a política monetária ao longo dos anos. Devido á tais mudanças os principais bancos centrais do mundo acabaram se tornando independentes do poder executivo, em virtude dos políticos estarem sempre preocupados á curto prazo, com vistas á eleições, e a política monetária tem um papel importante, ela é vital em nosso meio, é preciso que ela esteja, quando possível estável na maioria do tempo.

Barbosa, professor da escola de pós-graduação em Economia da FGV, chama atenção para o custo social da irresponsabilidade monetária, que beneficia o político e por conta disso a sociedade acaba por arcar com esse custo.

Os avanços na política monetária começaram com o banco da Nova Zelândia com o regime de metas de inflação, e se propagou pelo mundo, e isso possibilitou á mudança de postura dos bancos, que acabaram se tornando mais transparentes.

A transformação da transparência nos bancos centrais do mundo pode ser compreendida por duas razões, de acordo com Barbosa:

Em primeiro lugar, a independência do banco central não pode ser um cheque em branco da sociedade para o banco, mas deve ser acompanhada da contrapartida da responsabilidade de prestar contas dos seus atos á sociedade. A transparência torna fácil esta tarefa, pois a sociedade é informada a cada momento do que está sendo feito e de porque está sendo feito. Em segundo lugar, a revolução da transparência pode ser explicada

por outra revolução na teoria econômica: a das expectativas racionais. A sociedade toma decisões levando em conta a trajetória da politica monetária, logo, quanto mais informação a sociedade tiver sobre a politica monetária do banco central, menos erros ela cometerá em suas decisões. A informação do banco central deve ser tão acessível quanto possível. (Barbosa, 2008, p. 10).

O Banco Central seguiu essa tendência da transparência, desde o Plano Real, com o regime de metas de inflação, que trouxe consigo á prestação de contas para a sociedade.

Lula assinou uma medida provisória em junho, a MP 435, que de acordo com análises feitas pela conjuntura econômica, tal medida permitia ao Tesouro emitir títulos para financiar a compra de dólares pelo Banco Central, no caso permitiria que o prejuízo do Banco Central se tornasse em lucro, ou em prejuízo.

No primeiro semestre de 2008 o Banco Central havia registrado um prejuízo de R$ 41,6 bilhões de reais que se transformou em um lucro de R$ 3,2 bilhões de reais, Barbosa chama a atenção para á questão da transparência sobre ás informações nas quais é muito importante, não se deve escondê-las:

Alguém poderia argumentar que o lucro ou prejuízo do Banco Central pertence ao Tesouro, e que se este lucro for transferido hoje ou amanhã não vai fazer a mínima diferença. Outro argumento seria de que o lucro ou prejuízo do Banco Central não é importante para avaliar a politica monetária, e que, portanto este número certo ou errado também não faz a mínima diferença. A resposta para estes argumentos é de que numa sociedade democrática o banco central, como qualquer outro órgão do governo, deve ser tão transparente quanto possível. (Barbosa, 2008, p. 10).

É muito importante para o crescimento do país que a sociedade fique á par do que acontece no Banco Central, pois o futuro da nação depende de quais decisões serão tomadas e como serão executadas, pois bem no fim quem acaba por pagar as contas é a população.

Uma boa notícia para a sociedade brasileira veio pela promoção do Brasil á Investiment grade pelas agências de rating internacionais, o país passou á integrar o grupo de países com Índice de Desenvolvimento Humano alto.

Esse período foi marcado pela redução da desigualdade social. Depois de duas décadas perdidas na questão de renda e de trabalho, á mistura de crescimento acelerado com á intensa redução da desigualdade social é uma história de redução da pobreza que retrata um marco de prosperidade no país.

Desde 2006 houve á criação de empregos formais e melhor renda. O principal fator contribuinte para á população de baixa renda foi á recuperação do mercado de trabalho, que de acordo com dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged/TEM) foram gerados mais de 1,881 milhões de novos postos de trabalhos.

O Brasil virou notícia em diversos jornais estrangeiros, pelo fato do destaque na questão de oportunidade com relação ao contexto internacional. Essa boa fase era decorrente da renda do trabalho e o emprego com carteira assinada, que melhorou ás atividades econômicas do país, principalmente para as famílias de classe média, a classe C no Brasil estava crescendo.

Existem duas perspectivas para se conceituar classe média, conforme o economista chefe do Centro de Politicas Sociais do IBRE:

A primeira é pela análise das atitudes e expectativas das pessoas. A sondagem do consumidor divulgada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas em bases mensais para o Brasil segue nessa direção. Este tipo de abordagem foi bastante desenvolvido nos anos de 1950 e 1960 por George Katona, psicólogo que tinha no economista James Tobin, um de seus grandes admiradores. Seguindo nesta linha, Thomas Friedman, colunista internacional do New York Times no seu best seller “O Muno é Plano” define classe média como aquela que tem um plano bem definido de ascensão social para o futuro. Esta fábrica de realização de sonhos individuais é o motor fundamental para conquista da riqueza das nações. O combustível é o anseio de subir na vida, já o lubrificante seria o ambiente de trabalho e negócios. (Neri, 2008, p. 49).

Havia várias opiniões sobre a classe C, diziam que ela não era importante e que não contribuía para o desenvolvimento do país sendo que todas as classes tanto á A, B, D e E tinham suas particularidades e devidas contribuições para o crescimento do país. Ás pessoas que pertenciam à classe C conseguiram obter mais casas, carros, computadores, créditos e carteiras de trabalho, antes isso tudo era privilégio apenas da classe alta, houve uma explosão da classe C, foi um período muito marcante na história brasileira.

Porém, esse momento da boa fase da economia brasileira estava sendo comprometido em virtude da elevação dos custos da energia para o setor industrial, que desde 2000 á 2007 tiveram um aumento de 217% e a tendência para os próximos anos era de aumento crescente.

Devido á essa questão do aumento da energia, ás indústrias ficaram muito preocupadas, porque energia cara era um fator recessivo para a economia que acabava interferindo diretamente nos investimentos produtivos. O problema disso conforme o presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) Érico Sommer (Conjuntura Econômica 2008/10) é que a “sucessão de impactos ocasionados pela alta dos preços da energia resultava em um estado de profunda e prolongada inconsistência do desenvolvimento econômico, comprometendo toda a produtividade”.

Para se avaliar o impacto que á energia teria sobre a competitividade industrial e seus efeitos sobre o ritmo de crescimento do PIB e do IDH foram feitas pesquisas pela FGV para melhor compreensão desse fator. De acordo com essa pesquisa o crescimento do PIB até 2015 poderia sofrer uma redução de 7,1% por causa do aumento dos custos da energia, traçados para o período de 2005 á 2015, em 34,5% para o setor industrial e em 20,3% para á população.

Á renda da população brasileira seria afetada, teria uma redução, e aumentaria em 19,1%. O IDH também acabou sendo afetado de maneira negativa, e teria uma elevação crescente até 2015.

O estudo realizado mostrou que o ritmo de crescimento do IDH e do PIB diminuiria, devido á elevação do preço da energia. Á consequência desse aumento provocaria sérios problemas para á população, interferindo assim no desenvolvimento da sociedade, conforme Sommer (Conjuntura Econômica 2008/10):

O encarecimento de energia gera uma progressão de efeitos, cujo primeiro impacto é sentido pelos grandes consumidores. Como a maioria dessas indústrias, entretanto, é fornecedor de matérias primas para as de transformação, o quadro recessivo se propaga. O encarecimento desses produtos básicos pode fazer com que as manufatureiras decidam reduzir suas atividades, por exemplo, e consequentemente haverá diminuição no plano de contratações, o que resultará em menos emprego e renda para o trabalhador. (Sommer, 2008, p. 23).

O elevado aumento da conta de luz afetou diretamente os cidadãos, que precisaram buscar mais fontes de recursos para poderem cumprir com ás suas obrigações, deixando assim de fazer investimentos para si, elevação do bem estar, para ter condições de pagar o aumento da energia, pois bem no fim acabava sobrando muito pouco dinheiro no orçamento das famílias, gerando assim uma diminuição do IDH.