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2 A CARTOGRAFIA DA FESTA

F IGURA 1 M APA DO E STADO DA P ARAÍBA E M DESTA QUE A RMCG – F ONTE : IBGE, GRIFO NOSSO

2.2 A SE NSIBILIDADE LOCAL DO DISTRITO DE GAL ANTE

O distrito de Galante se localiza na região sudeste de CG, tendo como principal atração a arquitetura da estação ferroviária, onde há um museu que relata histórias da região. Com acesso por via rodoviária, porém com o valorizado diferencial de, durante os finais de semana (sábados e domingos) do mês de junho, ser reavivada com a chegada do Trem do Forró, a mais concorrida atração do Maior São João do Mundo fora do Parque do Povo.

A locomotiva e os vagões, cada um deles com um trio de forró pé-de-serra, recebem decoração especial, compõe o trem que sai da Estação Velha, local que abriga o Museu do Algodão. A viagem, tanto de ida, como de volta, entre os 12 km que separam CG de Galante demora cerca de 90 minutos, significando que o trem vai bem devagar, de modo a dar mais tempo à diversão e à dança. A composição percorre paisagens da Serra da Borborema, com seus vagões repletos de casais dançando.

Principal atrativo do período diurno da festa do Maior São João do Mundo, a viagem apresenta a oportunidade de se vislumbrar cenários de sonho do homem nordestino. Sendo mês de junho, inverno, época de chuva, a vegetação da Serra da Borborema está verde, rios e córregos com seu leito tomado por água abundante, os açudes repletos, os roçados de milho ainda não colhidos denotam fartura. Quadros de orgulho do paraibano, mediante seus cenários rurais que se contrapõem às imagens de seca e desolação.

Ao chegar a Galante, os passageiros, entusiastas forrozeiros, deparam-se com um típico lugarejo, uma espécie de cenário cinematográfico, com arraiais, pavilhões e palcos para apresentações de shows, tudo também decorado com motivos juninos.

Há um esforço dos organizadores do evento, da PMCG, para que Galante tenha a aparência típica de um lugarejo interiorano que cultua as tradições do ciclo junino. O cenógrafo Demétrio Alves de Oliveira, ao ser incumbido de tratar da cenografia do distrito para a festa de 2006, privilegiou o aproveitamento do aspecto natural do lugar.

Em Galante a estação de trem era acabada. Aí eu cheguei com uma equipe do Rio de Janeiro, com seis pessoas, em três dias transformei a estação de Galante no que era há 40 anos atrás. Telegrafo com ph, tudo bonitinho. A pedra, eles pegaram a pedra, uma pedra de mão portuguesa, batida, que é muito valorizada, e jogaram cal em cima, pintaram a pedra. Isso não existe. A pedra é natural, é uma coisa natural. A coisa mais linda que tem é você ter uma coisa natural. Eu peguei por cima da cal e

fiz a pedra de novo na pintura. Se tiver a oportunidade de ir lá, tu vai ver [...]. (informação verbal).22

No dia 14 de junho de 2008, um domingo, às 11h30min, as barracas de comidas e bebidas ainda não contavam com nenhum freguês, estavam vazias, sem a aguardada clientela do trem do forró. Mas os barraqueiros se encontravam preparados para receber um batalhão, num ambiente sonoramente poluído em virtude da mistura de sons vindos das diferentes barracas, inclusive com música sertaneja romântica.

O entorno de Galante apresentava um típico cenário de inverno. Neblina no pé da serra, as encostas todas verdinhas, o tempo chuvoso com céu acinzentado sobre o vale à frente, cortado por um açude. Visão de paraíso para o imaginário nordestino, composto pelos intensos e diferentes tons de verde, água, fartura de produtos agrícolas, principalmente do milho, alegria, festa, forró e os filhos egressos que retornam. No local, um pequeno trânsito de turistas, que depois se tornaria mais intenso, com os visitantes motivados para visualizar a paisagem, além de fotografá-la insistentemente.

Na avenida principal de Galante, quase todas as casas improvisam serviços de comidas e bebidas, aumentando sua capacidade de atendimento com a colocação de tendas em suas calçadas, com mesas plásticas. Bandeirinhas de São João, seguidas das faixas de patrocinadores, com destaque para a marca Skol, e folhas secas de coqueiro completam a decoração dessa área. Os ambulantes já estão com o fogo acesso para assar churrasquinhos, esquentar caldeirões de caldinhos e cozinhar milho verde, além de dispor de grande número de caixas de isopor gelando as bebidas. Tudo à espera dos passageiros do trem. Para o público infantil, a oferta de brincadeiras na cama elástica.

É surpreendente a quantidade de mulheres que trabalham nas cozinhas das casas/restaurantes. Elas mostram orgulhosas, as buchadas, galinhas ao molho, carne de sol, fava, tripa, feijão verde, bode guisado, macaxeira, pirão, entre outras iguarias da culinária campinense.

Os grupos de forró começam a tocar nas duas ilhas (barracas com cerca de 20 metros quadrados com tablados para se dançar). Há seis músicos sobre o tablado: cantor, sanfoneiro, zabumbeiro, percussionista (tocador de triângulo) e dois guitarristas. Três deles (sanfona, cantor e zabumba) usam roupas típicas. Ao lado e abaixo, dois seguranças para separar o local de dança do público que ainda não chegou. Pessoas da comunidade começam a se aproximar

22 Entrevista com cenógrafo Demetrio Alves de Oliveira, no município de Cabedelo (área metropolitana de João

da barraca. O vocalista1 convida: “Pode chegar para dançar.” Canta a música “De Mala e Cuia”, composição de Flávio Leandro:

Na minha casa toda hora é hora / A gente ri, a gente chora / A gente se diverte. Não depressa você bota as unhas de fora / Nosso amor não tem hora e logo acontece. Pode vir de mala e cuia amor / Eu não vou está nem aí pro mundo / Nosso amor tão cobiçado e não vai ser maltratado / Por ninguém de novo.

Três casais começam de mansinho e logo se animam. Há ainda uma senhora dançando sozinha, esbanjando alegria. Com passos ritmados, roda, ergue os braços, convida os demais a entrar no clima da música e da festa. Os ônibus de turismo começam a chegar. O trânsito já está interrompido, dificultando as manobras dos veículos. Os visitantes são atraídos pelas ofertas de venda dos ambulantes.

A reportagem do site UOL, referente aos festejos de 2007, comenta sobre o fato de Galante, durante suas festividades juninas, ter o trânsito de São Paulo: “Se a infra-estrutura campinense já sofre com o excesso de público e, principalmente de carros em circulação, a pequena Galante vive dias de caos durante o feriado religioso.” 23

O trem apita. Chegam os turistas munidos de suas câmeras fotográficas, vindos de oito vagões lotados, cada um trazendo cerca de 100 pessoas. O número de visitantes representa uma multidão para o tamanho do distrito. Todos muito animados, festivos, risonhos. Muitos jovens e pessoas da melhor idade. Uma massa humana trajando a camiseta preta do patrocinador, um tipo de abadá com logomarca da empresa de telefonia móvel Claro e do magazine de moda C&A.

Carlos da Silveira Mangabeira Júnior acena para a câmera e fala com um sotaque estilizado de nordestino “Eu sou de Recife!” (informação verbal).24 Debochando, pede para que entreviste Chico César, outro rapaz que desce do trem e que realmente parece muito com o cantor. Pergunto se ele gostou do trem. “I like very much my friend”. Pedem que ele cante uma música. “Mama África, a minha mãe é maconheira”, todos riem. Outra passageira do Trem do Forró, Maria Marlene Bastos, de Fortaleza, Ceará, diz: “Adorei. Ave, amei, amei. Esse trem tem tudo de bom. Pessoas interessantes, bacanas, educadas. O forró muito bom. É a primeira vez, mas eu quero voltar aqui sempre, sempre, nunca mais perder um São João.” (informação verbal).25

23

BARTHOLOMEU, Ana Luisa. Com 10 mil habitantes, distrito de Galante tem “trânsito paulistano” durante o São João. Disponível em:<http://noticias.uol.com.br/cotidiano>. Acesso em: 23 jun. 2007, às 11h15.

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Entrevista com Carlos da Silveira Mangabeira Júnior, no distrito de Galante, no dia 14 de junho de 2008.

No palco principal o apresentador pede a liberação da pista para a apresentação de um grupo de dança da terceira idade dali do distrito e anuncia:

Daqui a pouco a gente volta com o forró da Querubina e Coroné Grilo. Queremos agradecer mais uma vez as pessoas que se fazem presentes, nós temos gente aqui de Natal, João Pessoa, Recife, Fortaleza (terceiro ano no São João de CG), Salvador, Maceió, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Teresina, Sergipe... também do nosso estado, do sertão da Paraíba que estão a nos visitar. Fiquem a vontade, a casa é de vocês.

O grupo composto por 12 mulheres vestidas com blusa vermelha e saia branca com aplicações de rosas vermelhas dança a música “Rosa Vermelha”, de Elba Ramalho, numa apresentação de sete minutos, bastante aplaudida. Em seguida começa o show do Coroné Grilo26 e o Forró da Querubina, contando com oito músicos no palco, dois cantores e três casais de bailarinos bem produzidos e abusando da sensualidade.

O ambiente do pequeno lugarejo junino como cenário de animada festa de interior delineia um quadro atrativo para os visitantes de Galante, com particularidades em relação à integração comunitária, distintamente do perfil observado na sede do município, nos bairros de CG. Locais em que a cultura lúdico-participativa faz as pessoas festejarem, celebrar o São João como entretenimento e lazer, enquanto que no distrito, o evento atrai os moradores pelas oportunidades econômicas.

Os bares e restaurantes das casas coexistem com inúmeras barracas de comidas e bebidas, além de inúmeros ambulantes da comunidade. Logo, o ciclo junino para os moradores de Galante não é vivenciado de forma intensamente lúdica assim como acontece entre a população dos bairros campinenses, conforme tópico anterior.

A diversão fica por conta dos turistas, que buscam em Galante, apesar dos congestionamentos de veículos, o número de pessoas acima da real capacidade de lotação do lugar e um pouco de caos, um espaço junino lúdico diferenciado, em virtude da cenografia interiorana. Um ambiente que proporciona a sensação de volta no tempo como um encontro com o sentido das tradições juninas, segundo define Milton Santos (2005, p. 111-112), em que o território extrapola a simbologia dos atos pragmáticos do cotidiano, admitindo “um aporte da vida, uma parcela de emoção, que permite aos valores apresentar um papel. O território se metamorfoseia em algo mais do que um simples recurso e... constitui um abrigo.”

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O cantor Coroné Grilo, um personagem popular criado e representado pelo radialista Oscar Neto, que se auto classifica como o “último coronel da música regional”, é conhecido pelo programa radiofônico diário que realiza na rádio Borborema, emissora de Campina Grande. Ele, além de colocar os forrozeiros para dançar, diverte o público ao cantar o original gênero do forró cômico, com letras que narram “causos” engraçados da cultura popular. O personagem, com seu chapéu de couro típico de “cangaceiro”, pistola na cintura, grande bigode, barbicha e fraque, realmente se caracteriza por uma pronunciada aparência jocosa.

Mesmo um diminuto espaço sócio-geográfico de um determinado território pode se caracterizar como lugar de recurso utilitário, em função de garantir o atendimento às necessidades econômicas, mas também de abrigo, em movimentos concomitantes que atendem às necessidades materiais e, ao mesmo tempo ter a generosa vocação de atender ao espírito, ao lado psicossocial dos indivíduos.

Os lugares das sociabilidades contemporâneas se caracterizam pelos movimentos determinantes das ordens racionais pragmáticas, restando menor espaço às manifestações daquilo que é prosaico, restritos, assim, a uma condição residual, porém mais humana. Por isso as motivações para a conquista além da satisfação material, a busca pela realização plena, emocional, dependente dos espaços simples e rústicos, conforme o cenário vivenciado em Galante.

Segundo o entendimento de Canclini (2008) as expressões culturais são dependentes dos tradicionalismos,27 na forma de “porvir do passado”, dispostos para o consumo cultural do mundo contemporâneo, não delineado apenas por projetos modernizadores. Por isso, o autor comenta sobre o emprego de expressões culturais de outras épocas como estratégia para minimizar as contradições dos tempos atuais, em que os benefícios da modernidade são vistos sob suspeita, enfrentados por argumentos simpáticos à volta ao passado, reconhecido como lugar de melhores condições de vida. Pensamento decorrente dos temores e incertezas relativos às desordens sociais, o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico díspar, fenômenos de difícil compreensão para a própria racionalidade humana.

Em tal quadro, os atos de celebração têm função compensatória. Nas palavras de Canclini (2008, p. 166):

Se não podemos competir com as tecnologias avançadas, celebremos nosso artesanato e técnicas antigas; se os paradigmas ideológicos modernos parecem inúteis para dar conta do presente e não surgem novos, re-consagremos os dogmas religiosos ou os cultos esotéricos que fundamentaram a vida antes da modernidade.

Galante se configura, de acordo com as especificidades descritas neste tópico, como uma oferta de consumo lúdico ponteada por tradicionalismos, em meio ao grande volume e diversificação de ocorrências socioculturais do Maior São João do Mundo. Caracterizado como um evento festivo baseado na temática religiosa do mundo rural nordestino antigo,

27 Especialmente nos eventos festivos populares, o tradicionalismo é objeto fundamental, inclusive com largo

emprêgo da temática religiosa, a exemplo do Maior São João do Mundo, questão referenciada em diversas passagens desta pesquisa, especialmente, na dimensão artístico-cultural do megaevento campinense.

porém nos moldes da “socioculturalidade” contemporânea, decorrente e desenvolta por fluxos de expressões do passado e do presente.

Assim, o panorama atual aponta para um desigual e combinado processo de glocalização. Esta cultura-mosaico, como diria Abraham Moles, se alimenta através de sua enorme capacidade de digerir e mesclar fragmentos oriundos das mais distintas origens culturais, procedendo à montagem de culturas híbridas, na expressão de Nestor Canclini. A tensão entre tendências homogeneizantes e diversificadoras é uma característica persistente da dinâmica da cultura hoje, com seus antagonismos e suas forças discrepantes. (RUBIM; RUBIM; VIEIRA, 2005).

De um lado, a grande festa campinense se destaca como festa popular adaptada aos megaeventos populares da contemporaneidade, expressões culturais decorrentes da globalização, produzidas industrialmente, e com perfil de desterritorialização, mesmo num espaço sócio-geográfico, composto por diferentes áreas de CG, ainda com muitos aspectos de “cor local”. Como prova de tal conformação global, desterritorializada, há, como ponto máximo de representação, a configuração estrutural do Parque do Povo, com sua parafernália tecnológica, acentuada presença de marcas extraterritoriais de produtos de consumo de empresas patrocinadoras do evento, a diversidade artístico-cultural, a internacionalização gastronômica, além de outras expressões não autóctones.

Entretanto, de outro lado, o fenômeno de manutenção de tradições acontece no “São João das Casas”, conforme já apontado no tópico anterior, mas especialmente em Galante, célebre, justamente, pela força simbólica de sua territorialidade. De local que toma para si o papel de representação original do ciclo junino, pelo cenário de arraial matuto, segundo o imaginário de turistas, parado no tempo. O trem, transporte do passado, a velha estação, o pequeno aglomerado urbano com edificações coladas umas às outras, a bucólica praça com a igrejinha e o entorno rural serrano com muito verde surgem como composição cênica valorizada pelo ambiente festivo. Conjunto idealizado para a emotividade de pertencimento e de quem é nordestino, e destino turístico original para quem é de outras regiões do país.

O célebre distrito campinense é reconhecido, na sua função junino-cultural, como peça de resistência aos modelos globais, em virtude de um cenário compatível com a preservação de arquivos culturais autóctones.