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O andrógino1, desde seu mito em “O Banquete” de Platão até seu ressurgimento estético nos séculos XX e XXI, manteve sua presença no imaginário humano:

aparece inúmeras vezes dentro da história da arte (ora mais, ora menos ostensivamente), em diferentes religiões, na fotografia, no cinema, na publicidade, na moda e também nos quadrinhos.

A androginia é tema especialmente interessante na contemporaneidade: a dissolução gradual dos papéis e estereótipos de gênero, encabeçada em especial pelos movimentos LGBTQ e Feminista, e o consequente surgimento de inúmeras novas possibilidades identitárias vêm tendo repercussões de grande porte para a sociedade ocidental.

Na comunicação, surgem novos modelos que põem cada vez mais em xeque as fronteiras antes muito rígidas do que era considerado masculino ou feminino: na publicidade, mulheres ganham espaço, por exemplo, como consumidoras em campanhas de cerveja; atrizes/atores e personagens transexuais começam a ganhar voz em séries de grande audiência como Orange Is The New Black e Sense8; na fotografia de moda, as estéticas do masculino e do feminino confundem-se cada vez mais, reavivando a imagem do andrógino (apesar de muitas vezes o fazer criando um novo estereótipo, tratando o andrógino como uma “masculinização” do vestuário da mulher branca e esguia); mesmo nos quadrinhos, em especial desde a década de 1990, personagens queer e homossexuais vêm surgindo e ocupando espaço em séries publicadas por grandes editoras, como a Marvel e a DC Comics.

A figura do andrógino, entretanto, é temática ainda não muito trabalhada no mundo dos quadrinhos ocidentais, de um lado devido ao julgamento de um olhar categorizante de gênero, de outro devido a nossa ampla renúncia aos mitos e ritos em prol da racionalidade cartesiana2 (CAMPBELL, 2007). Nos mangás e animês japoneses, por exemplo, nota-se com mais vigor a presença dessa estética (mesmo

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1 “do grego andros significando ‘homem’ e gynos, ‘mulher’” (LEITE JR., 2009, p. 293)

2 Referente à filosofia cartesiana, de Renée Descartes, que prevê a separação entre corpo e mente, e dá especial protagonismo à mente (e consequentemente a tudo que a ela está associado) na

percepção da realidade, em detrimento do âmbito corpóreo, como sugere a máxima cartesiana

! que por vezes não se estendendo além da imagem exterior das personagens), em grande parte devido à cultura nipônica que nem sempre possuiu diferenciações tão marcadas de indumentária entre o masculino e o feminino (NETO, 2013, p.30). No ocidente, a presença de personagens andróginos ainda é tímida, contando com alguns como a personagem Delírio em Sandman, de Neil Gaiman, ou o/a Imperadortriz em O Incal, de Moebius e Alejandro Jodorowsky. A presença desta figura não é nula, mas nem sempre tem papel central na narrativa, nem sempre é vista com naturalidade dentro da trama e muitas vezes, sob um olhar heteronormativo 3 , está completamente associada à homossexualidade e/ou circunscrita ao âmbito da ficção científica (além de se inserir com frequência dentro do mesmo estereótipo da moda mencionado anteriormente).

O andrógino encerra em si a coexistência de dualidades. Muito além de ser um ponto médio dentro de uma escala binária entre os estereótipos socialmente construídos do masculino e do feminino, ele está mais para um ponto fora da curva:

é a personificação da fluidez de gênero, da quebra de estereótipos e, principalmente, da coabitação harmônica de opostos dentro de um mesmo ser – fato muitas vezes temido pela lógica maniqueísta ocidental, que pretende nos encaixar em identidades fixas.

No passado, esta e outras identidades e corpos desviantes da heteronormatividade estiveram ostensivamente associados a psicopatologias, e a herança deste tipo de pensamento se percebe até os dias de hoje, por exemplo, na necessidade de extensos pareceres psiquiátricos para se obter o aval para cirurgias de redesignação sexual, na necessidade de “passabilidade” para a formalização jurídica da mudança de sexo no Brasil e mesmo na quase completa invisibilidade dos corpos intersexo – sem falar nas violências sofridas diariamente por LGBTQs em geral no país. A essa ideia de que o desvio da norma padrão está associado a psicopatologias vale lembrar que Foucault (2017) argumenta, no contexto ocidental europeu, que a noção de loucura construiu-se quase como um grande guarda-chuva que abarcaria quaisquer desvios aos padrões sociais, religiosos, sexuais, entre

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3 Heteronormatividade é entendida neste trabalho como a ampla expectativa social de que os indivíduos se encaixem sistematicamente dentro de um padrão de associações pré-estabelecidas historicamente entre sexo biológico, sexualidade e gênero, de modo que prevaleça sempre a heterossexualidade.

outros, muitos deles antes vistos até mesmo como atos criminosos e/ou profanos, como exemplifica com o caso do suicídio:

Esse domínio que, a meio caminho entre o sagrado e o mórbido, é inteiramente dominado por uma recusa ética fundamental, é o da insanidade clássica. Ela abrange assim não apenas todas as formas excluídas da sexualidade como também todas essas violências contra o sagrado que perderam a significação rigorosa das profanações. [...] Esta evolução no regime das blasfêmias e das profanações poderia ser observada igualmente em relação ao suicídio, que durante muito tempo pertenceu à esfera do crime e do sacrilégio; por essa razão, o suicídio fracassado devia ser punido com a morte. (FOUCAULT, 2017, p. 94)

Ora, para encaixarem-se dentro de uma instância de insanidade, é preciso entender esses desvios como anti-naturais, contrários àquilo que supostamente é pré-discursivo, inquestionável, esquecendo que a pretensão de naturalidade é, ela mesma, uma construção (BUTLER, 2017). Aí entra todo o poder do andrógino, pois ele configura-se quase como “a maior das loucuras”: um ser que deixa-se definir pela própria indefinição, sua única constante é a inconstância. A androginia, portanto, seja enquanto expressão de gênero ou como metáfora para a coexistência harmônica de polaridades, existe, neste sentido, quase como um lócus ambulante de instabilidade referencial, pois pressiona os limites das categorias do masculino e feminino, do racional e emocional, do certo e do errado, etc. A representação de personagens andróginos dentro dos quadrinhos deve, portanto, levar em consideração uma maior dimensão do que é este ser, este gênero, este arquétipo, esta maneira de viver e estar no mundo, incorporando-os em um mundo que os entende na complexidade de sua indefinição.

! 1.1.TEMA

Este projeto tem por finalidade produzir uma história em quadrinhos física baseada no conceito de androginia, passando por todas as etapas do processo de escrita e ilustração da narrativa. Para tanto, é preciso pôr em pauta a discussão sobre a importância da androginia enquanto arquétipo – ilustrado na ideia/imagem da união de opostos ou coincidentia oppositorum (ELIADE, 1999), dentro da qual entende-se a androginia sob um aspecto mais abrangente e arquetípico de harmonização de antagonismos – bem como enquanto instância problematizadora da compulsoriedade de uma binaridade masculino x feminino nos âmbitos de gênero/sexo/sexualidade e das interconexões entre essas três categorias.

Com base nisto foram desenvolvidos um roteiro e uma versão reduzida do primeiro de cinco volumes de uma história em quadrinhos tratando da androginia à luz destes seus dois aspectos: de um lado, a personagem principal, Serafim, foi construída para abarcar as estéticas do andrógino convergente e divergente (MOLINA, 2015); de outro, sua relação com seu antagonista, Teodoro, e o desfecho final da história apontam para o conceito de coincidentia oppositorum.

A noção de loucura como proposta por Foucault (2017) entra na equação, uma vez que, aos olhos dos códigos sociais, estéticos, sexuais e até mesmo morais do mundo ocidental, a androginia e outras divergências do status-quo binário de gênero ainda são percebidas como fortes afrontas, muitas vezes passíveis de medicalização e/ou internação, fato que deve ser fortemente contestado.

O meio escolhido para tal proposta foi o dos quadrinhos devido a suas possibilidades estético-estruturais, uma vez que o domínio da linguagem dos quadrinhos proporciona intrigante controle sobre o desenvolvimento da narrativa e a forma como ela é lida e percebida pelo leitor. Há também sua forte associação à narrativas mitológicas, que de um lado reavivam símbolos e arquétipos atemporais e, paralelamente, devem responder à uma lógica contemporânea que exige mais dinamismo e identificação com as personagens, trazendo um poder de penetrabilidade e envolvimento emocional ímpares (ECO, 2015).

1.2.PROBLEMATIZAÇÃO

Atualmente, vivemos numa realidade que ainda funciona dentro da lógica cartesiana onde corpo e mente são âmbitos separados, e tudo o que se associa a este está hierarquicamente mais elevado que aquele. Isto se traduz numa série de comportamentos sociais, em especial no que tange à temática de gênero, âmbito que tem sido cada vez mais foco de olhares críticos na atualidade. Tomando a mídia das histórias em quadrinhos como um meio de alta inserção social, com forte potencial de propagação de ideais através dos mecanismos de projeção e identificação, e entendendo a figura do andrógino, tanto em seu aspecto arquetípico quanto como expressão de gênero, como uma figura de forte poder questionador das categorias cartesianas – uma “imagem-poder”, como sugere Molina (2015, p.

214) –, chega-se ao seguinte problema de pesquisa: De que maneira é possível representar a androginia na construção de personagem e de uma narrativa para histórias em quadrinhos?

1.3.JUSTIFICATIVA

Considerando-se a noção do discurso representativo enquanto formador de subjetividade e cúmplice da produção de sentido sobre os corpos e sobre a realidade (BUTLER, 2017) e entendendo a figura do andrógino – para além de fluidez de gênero – como uma afirmação política (MOLINA, 2015), a importância do presente projeto experimental se revela tanto no advento de personagem principal que não se insere nos códigos restritivos da binaridade heteronormativa (trazendo à tona, portanto, uma identidade que merece reconhecimento), como no fato de que sua identidade, em termos de gênero, representa ela mesma o absoluto paradoxo do binarismo e, deste modo, exerce forte pressão sobre o mesmo.

A escolha da mídia dos quadrinhos não é ingênua - este é um meio que atinge um público cada vez mais heterogêneo, com ênfase em jovens de 18 a 25 anos, e ganha cada vez mais espaço, em especial com as graphic novels, em meio

! à literatura convencional. Frente à contemporaneidade e aos inúmeros avanços tecnológicos atuais, nossa assimilação de informação tornou-se muito mais veloz, multimodal e reduzida em termos de concentração (REID, 2011). A leitura de textos convencionais está mais ligada à concentração em profundidade, enquanto os múltiplos estímulos online trazem à tona um caráter mais visual: ora, os quadrinhos se mostram, portanto, uma importante mídia capaz de reunir e assimilar ambas as categorias e servem até mesmo, para efeitos educativos, como porta de entrada para a literatura convencional (REID, 2011, p. 6).

Para além disto, Umberto Eco (2015) argumenta que, através de um processo de mitificação, dentro do qual os quadrinhos têm a possibilidade de construir novos mitos a partir da reciclagem e renovação de arquétipos atemporais, e, paralelamente, um de desmistificação, pois operam numa lógica capitalista com demandas que vêm do próprio público, as HQs (histórias em quadrinhos) têm uma habilidade especial em sua linguagem para fazer funcionar os mecanismos de projeção e identificação nos leitores, sendo assim uma mídia de grande ênfase na construção de um imaginário popular.

A ideia de propor um viés representativo para o andrógino nos quadrinhos advém, de um lado, portanto, da necessidade de se contestar os cânones da heteronormatividade, do binarismo de gênero e de toda uma lógica identitária repressiva e limitante que exerce sua função principalmente através dos mecanismos de representação, seja na mídia, na política ou em ambos. Sob outra ótica, quando entendida sob seu aspecto mais arquetípico, a androginia representa em si um pressionamento da lógica cartesiana que insiste em separar corpo e mente (BUTLER, 2017), em circunscrever a compreensão humana em opostos que não se misturam. O andrógino, sob este aspecto, serve como interessante símbolo da necessidade de reconciliar razão e emoção, consciente e inconsciente, no que Carl G. Jung chama de coincidentia oppositorum:

Basta lembrar que as expressões coincidentia oppositorum, complexio oppositorum, reunião dos opostos, mysterium coniunctionis, etc., são frequentemente utilizadas por Jung para designar a totalidade do Si-mesmo e o mistério da dupla natureza do Cristo. Segundo Jung, o processo de individuação consiste essencialmente em uma espécie de coincidentia oppositorum, pois o Si-mesmo compreende tanto a totalidade da consciência quanto os conteúdos do inconsciente. (ELIADE, 1999, p. 81)

A sugestão, portanto, de uma representação para o andrógino na forma de uma história em quadrinhos visa, em primeiro lugar, colocar em posição de protagonismo uma identidade que desafia a compreensão do binarismo heteronormativo e da própria lógica cartesiana, e, com isto e para além, ressaltar o papel e responsabilidade da Comunicação como participante na formação de subjetividades através dos mecanismos de representação de que dispõe.

1.4. O

BJETIVOS 1.4.1.GERAL

Criar uma possível representação da androginia na construção de personagem e narrativa para histórias em quadrinhos.

1.4.2.ESPECÍFICOS

1.4.2.1. Estudar os elementos que compõem a linguagem das histórias em quadrinhos.

1.4.2.2. Investigar o conceito de androginia e seu potencial enquanto imagem-poder.

1.4.2.3. Confeccionar uma história em quadrinhos que traduza o conceito de androginia na construção de sua narrativa e personagens.

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