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A QUESTÃO ÉTICA

1. LIÇÕES DE MALLORCA

1.2. MALLORCA E SEUS DESAFIOS

1.2.4 O “ÚTERO FRIO”

Ao longo desse processo, observei a existência de um tipo de defesa, cunhada de “útero frio” (Cotta, 1995, 1996, 1997).24 Vários desses pacientes comunicavam que se refugiavam em um espaço de sua interioridade, que seria como uma bola de água, ou algo assim. Esse espaço interno era, comumente, frio, porém, protegido do mundo externo. Ali, nada nem ninguém os ameaçava. Foi a partir de comunicações desse tipo que me ocorreu uma analogia: os pacientes entravam em um “útero frio”, cuja função era igual à de um freezer, qual seja a de conservar o alimento – no caso, o verdadeiro si- mesmo -, ainda que congelado. Simbolicamente, o útero frio faz o papel inverso de um útero quente, na medida em que este último favorece o desenvolvimento embriogênico e leva o sujeito a nascer e, na saúde, a arriscar-se no mundo externo.

Muito embora tenha sido durante o trabalho em Mallorca que me defrontei com vários pacientes com esse tipo de defesa e que o termo “útero frio” foi lá cunhado, a bem da verdade, foi também em Mallorca que me dei conta de que a primeira vez que havia presenciado tal tipo de defesa havia sido no Rio de Janeiro, anos antes. Abaixo, citarei a primeira situação clínica em que essa defesa se me apareceu:

Conheci Graziela num workshop terapêutico, coordenado por mim e por Sandra Guimarães.25 Após os exercícios de aquecimento de praxe, quando solicitamos aos participantes que reportassem o que se passava com eles, a paciente relatou encontrar-se sentada no fundo de uma piscina cheia, encostada num de seus quatro cantos. Disse-nos que se sentia perfeitamente bem, em paz e protegida naquele lugar. Inicialmente, achei tratar-se de um delírio. Mas não o era. Não interpretei aquela fala, até porque nada do que me

24 Após descobrir pela prática clínica tal tipo de defesa e assim nomeá-la, constatei, com

alegria, que tanto Guntrip (1992) como Margaret Little (1985/1990) e Schwartz-Salant (1989) haviam escrito sobre defesas do tipo “intra-uterinas”, as quais são formulações muito próximas e análogas à minha.

25 Sandra Guimarães é Psicóloga, Psicoterapeuta Corporal e fez também parte do grupo

pioneiro de psicoterapeutas corporais do Rio de Janeiro. Além da amizade pessoal, co- coordenamos diversos workshops terapêuticos, durante alguns anos.

vinha à mente me era satisfatório. Fiquei muito curioso para compreendê-la. Foi somente durante a clínica mallorquina que vim a entender que ela estava a dizer que se encontrava, defensivamente, em seu “útero frio”...

Outro exemplo desse tipo de defesa foi por mim descrito em minha dissertação de mestrado (Cotta, 2003). Para o que aqui nos interessa, transcreverei, a seguir, uma síntese do ali relatado:

Anos antes, ele vivia uma paixão platônica e recíproca por uma colega de profissão; no entanto, segundo ele, o fato de ser casado e sentir-se extremamente culpado em relação à esposa não lhe permitia arriscar a acercar-se corporalmente da moça. Um congresso na Europa apareceu-lhe como a grande oportunidade para materializar seu apaixonamento. Nas sessões que precederam o embarque, André relatou com minúcias seus desejos e fantasias amorosas e sexuais que gostaria de realizar com a tal moça, em terras européias. Incentivado por seu psicoterapeuta a pôr fim ao platonismo de seu enamoramento, André viaja decidido a viver uma deliciosa lua-de-mel. Na primeira sessão após o retorno da viagem, antes de dizer qualquer palavra a seu analista, este lhe pergunta “então, comeu a mulher?”. Diante da negativa de André, o analista lhe diz “você não passa de uma bicha enrustida!”. Ao ouvir isso, sentiu como se, naquele momento, o mundo se lhe tivesse escapado. Sentiu-se “só e desamparado, como nunca havia me sentido antes”.

Naquela noite, teve um sonho que considerou um marco em sua vida: sonha estar num mar revolto, correndo risco de morte. Vê seu terapeuta chegar à praia. Esperançoso, acena-lhe, pedindo socorro. Para seu terror, o terapeuta não só não o ajuda, como lhe vira as costas e vai embora. Pressente, então, que vai morrer. E submerge no mar. No entanto, para sua surpresa, não morre.

Contou-me que esse sonho fora decisivo para ele, porque lhe deu forças para, na sessão de análise seguinte, fazer o que há muito tinha vontade: interromper o tratamento.

Referindo-se ainda ao sonho, disse-me que achava estranho o fato de a única forma de sobreviver à situação foi afundar no mar e continuar a respirar.

Fazendo considerações sobre o paradoxo entre submergir e continuar a respirar normalmente, perguntou-me:

- Você não acha isso estranho, não? O que você acha disso?

Respondi-lhe que, efetivamente, não achava estranho nem via nenhum paradoxo. Pois entendia que, diante de tantos ataques à sua pessoa, sentindo- se tão só e desamparado, inclusive tendo se sentido atacado e abandonado pelo próprio analista, como defesa para sobreviver a tudo isso, a ele só lhe restara isolar-se em algum lugar interno, para prosseguir sobrevivendo. Disse- lhe que ele havia “entrado” no que chamo de “útero frio”. Expliquei-lhe essa minha idéia teórica, lembrando-lhe que o único lugar em que uma pessoa humana consegue respirar e sobreviver, estando completamente submerso em água e sem ajuda de aparelhos, é dentro do útero. E que, muitas vezes, quando o indivíduo vivencia uma forte ameaça à sobrevivência de seu ser, uma das defesas disponíveis para tamanha ameaça é regredir a um estado intra- uterino, onde não há nenhum outro sujeito e a pessoa se sente protegida do meio ambiente pelo isolamento e salvaguarda que a condição intra-uterina oferece.

Essas minhas palavras o tranqüilizaram, porque depois de um certo tempo calado, que me pareceu um silêncio meditativo, respondeu-me:

- É, faz sentido. Porque, por mais que pareça estranho, ao afundar e

ficar ali respirando, eu me sentia salvo. E porque, também, a partir desse sonho, minha relação com as pessoas, minha confiança nelas, ficou abaladíssima. Foi a partir daí que eu fiquei ainda mais fora do mundo, mesmo!

Em razão da tremenda fragilidade egóica e dos tipos de defesa próprias dos pacientes borderlines, bem como de sua necessidade de se expor verdadeiramente e em segurança, para poderem desenvolver seu processo de singularização, procurei criar na clínica um espaço de acolhimento que ajudasse o analisando a trazer seu verdadeiro si-mesmo de volta do esconderijo em que se encontrava, ajudando-o a sarar o self ferido. Entendo que, para tanto, concordando com Winnicott, é necessário que o terapeuta

esteja vivo em sua corporeidade, além de, como aponta Guntrip (1992), poder ser vivido como uma figura parental totalmente diferente das figuras parentais originárias. Como já referido em outro lugar (Cotta, 1995, 1996, 1997), acredito que essa espécie de “útero” terapêutico permite e encoraja que o self ferido seja restabelecido, com segurança, calor e afeto. Permite, também, um estado de relaxação em direção ao crescimento do si-mesmo do paciente.