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CONHECIMENTO CIENTÍFICO

1.3. O ABIMA – Processo de classificação

Se é verdade que os arquivos e as bibliotecas são tesouros inesgotáveis, nos quais, no presente, se pode descobrir a memória do passado, é necessário que essas fontes de conhecimento estejam abertas à investigação e se tornem funcionais. Assim, o acesso aos documentos implica a criação de um sistema de indexação e cotização das séries e das peças arquivísticas, com informação precisa sobre a localização, identificação, descrição e catalogação (Magalhães, 2007: 11). A informação sobre um arquivo traduz-se, em regra, em registos impressos ou digitalizados – inventário, repertório, catálogo, roteiro, que possibilitem e facilitem o acesso ao conhecimento, já que essa deverá ser a prioridade máxima de um arquivo. A descrição qualificada possibilita um acesso eficaz à informação facilita a concepção e realização de actividades educativas e de divulgação (Barros, 2007).

O primeiro grande problema a resolver, depois do processo de recolha, foi encontrar a estrutura mais adequada à inventariação das peças. O trabalho de arquivo não é mais que pôr em ordem o caos, aparente ou real, dos documentos, e torná-lo útil à instituição e a outros possíveis utilizadores. E é uma constante, na prossecução desta ordem, criar esquemas classificatórios e “objectos culturais” que sirvam para homogeneizar este caos a desordem natural, fruto da acumulação pautada ao ritmo da vida dos organismos e das pessoas (Borja Aguinagalde, 2013: 32).

16 Nesta fase, apareceu um novo colaborador, o Dr. Moreira da Costa, licenciado em Filosofia, que se encarregou

da parte informática inicial e do tratamento das secções de imprensa e teatro. A grande maioria das outras tarefas foi executada por Amado Vicente.

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A documentação arquivada distribui-se por áreas, secções e séries, diversas quanto à sua natureza e quanto à temática. Depois de ter definido um quadro de classificação em secções e séries, tentei, sem êxito, estabelecer um contacto com dois responsáveis de arquivos de Braga, tendo acabado por recorrer à responsável pelo Arquivo Municipal da Póvoa de Varzim17 e chegado à conclusão de que, com base nos dados essenciais que deveriam integrar esse instrumento de inventariação e classificação, seria preferível criar uma ficha especificamente adaptada ao caso do IMA.

Detentor dos elementos essenciais que deveriam integrar a ficha descritiva, elaborei um esboço que coloquei à consideração dos dois colaboradores que, nesse momento, já se encontravam a trabalhar na organização. Ponderados todos os pormenores, foi o projecto apresentado à Direcção. Depois de solicitados os necessários orçamentos, procedeu-se à sua impressão; as fichas são preenchidas, a lápis, para descrição dos documentos (v. Fig. 1).

Figura 1 - Ficha de Inventário

A organização do Fundo de arquivo significa classificar os documentos e este trabalho de classificação está a ser desenvolvido por uma equipa de três voluntários,18 que em Janeiro

17 Este contacto surgiu na sequência de um convite que a Dr.ª Teresa de Araújo, responsável por este Arquivo

Municipal, me dirigiu para proferir uma palestra sobre “A importância do registo para a memória histórica”, que ocorreu no dia 8 de Junho de 2012, na comemoração do Dia Internacional dos Arquivos. Aqui deixo a minha gratidão pela colaboração prestada na criação desta ficha.

18 A equipa é formada pela Prof.ª Emília Costa, Amaro Alves e Manuel Lopes Martins. Não posso deixar de,

pessoalmente e também em nome da Instituição, lhes agradecer a pronta anuência ao convite que lhes fiz e deixar o reconhecimento por um trabalho de reconhecido mérito e de um alcance incalculável para o conhecimento histórico do IMA.

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de 2013 iniciou esta tarefa e que a ela dedica, regularmente, duas manhãs por semana. Até ao dia 1 de Outubro de 2014 foram preenchidas 3.050 fichas.

Está a ser usado o método numérico simples, sendo atribuído um número a cada documento, a partir do qual serão organizados os documentos, facilitando a localização em estantes mas também dando indicação precisa das caixas de arquivo porque elas estão identificadas, na lombada, pelos números de início e termo dos documentos aí guardados. O preenchimento e descrição exigem o conhecimento do conteúdo do documento, tarefa que, muitas vezes, exige muito tempo e grande esforço de leitura, interpretação e síntese. O grande problema do tratamento dado a este Fundo está na classificação do documento em Secção (SC) e Série (SR), correspondendo aquela aos assuntos e esta aos sub-assuntos. A classificação levanta, normalmente, muitas dúvidas que têm sido superadas com o conhecimento gradual do contexto da documentação existente ou fazendo uso do senso comum. Em alguns casos mais problemáticos os voluntários recorrem ao meu parecer. Mas descrever um documento não é tarefa fácil, pois, como bem avisa Borja Aguinagalde (2013),

(…) describir documentos com juicio y sentido comum y práctico es, sobre todo, un arte. Arte que no está al alcance de todos, ni mucho menos puden suplir los fantásticos medios tecnológicos hoy a nuestro servicio. Y arte para cuyo desarrollo es preciso, como decía antes, educar el ojo del experto. (p. 36)

Recomenda este autor que todos os documentos que aparecem posteriormente, já depois do inventário realizado, e toda a sorte de papéis “que aparecen en los baúles y que constituyen la alegría de archiveros e investigadores, por las sorpresas que suelen esconder” (id., ibid.) devem igualmente ser descritos.

É através da Secção e da Série que, fundamentalmente, o acesso ao documento se vai fazer. Daí a particular atenção ao esquema mental que é preciso ter presente. Foram criadas, no início, determinadas secções que, por sua vez, continham várias séries. Todavia, à medida que os documentos se multiplicam e diversificam são acrescentadas novas secções e novas séries que vão sendo registadas, em suporte em papel. Foram definidas, até ao presente, cerca de 30 secções – entre outras, Colégio de Regeneração, Mons. Airosa, Dominicanas, Imprensa, Administração, Música, Internas, Obras, Oficinas, Admissões, Confrarias, Teatro, Segurança Social. Cada uma das secções, como já foi referido, divide-se em várias séries.

A ficha manual, de certo modo insubstituível, não é suficientemente ágil para facilitar o acesso ao documento. Por isso mesmo, desde o início deste processo, sempre esteve presente o propósito de proceder ao registo informático para que a busca se tornasse mais

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rápida e eficiente. Depois de várias consultas sobre a melhor e mais prática base de dados, acabei por decidir pela base em Access. O conteúdo da ficha estava definido mas era necessária a construção e lançamento dos dados que estavam a ser processados pela equipa de inventariação e classificação. Nesse sentido, fiz dois convites19 para a construção da referida base (v. Fig. 2) e para a execução da tarefa da inserção de dados, tarefas que teriam de ser desenvolvidas em estreita articulação.

Figura 2 - Folha da base de dados (em Access)

A última fase deste demorado processo passará pela digitalização dos documentos, o que implicará, em primeiro lugar, a aquisição de um scanner tipo A3. O professor convidado para a tarefa de digitalização disponibilizou-se, ainda, para organizar a secção de fotografia, que é particularmente rica no período do Fundador e no do último Director. Atendendo a que se trata de um material muito específico, foi decidido consultar o responsável pelo Museu da

19 Os convites foram feitos ao Dr. Lino Abreu e ao Dr. António Carvalho. O primeiro, licenciado em Filosofia e

professor aposentado da Escola Secundária Sá de Miranda, Braga, é perito nas novas tecnologias e acedeu gentilmente ao convite que lhe dirigi para a construção da base de dados, em Access, da ficha de arquivo já elaborada; o segundo, é mestre em História da Educação e da Pedagogia, professor aposentado, e foi convidado para esta tarefa mas prestou outros serviços na área do controle administrativo. Agradeço, a ambos, em nome do IMA, os valiosos serviços prestado ao bem comum.

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Imagem, de Braga, para colher informação adequada para proceder ao arquivo correto destas peças.20

O arquivo, através dos seus elementos materiais, documentados, transmite valores imateriais e identitários da instituição, tanto em suporte escrito como na sua própria localização física. Foi esse entendimento que me levou à concretização deste projecto da preservação da memória, sabendo que ela depende da gestão da informação feita de forma consciente, salvaguardando o passado que valoriza o presente e antecipa o futuro. Enquanto memória, o arquivo documenta basicamente o vivido, conferindo-lhe, segundo Magalhães (2007), um sentido e quando

(…) tomado de forma integrada, nos planos diacrónico e sincrónico, e não como uma justaposição de séries, [é] que o arquivo de uma instituição se reveste de uma continuidade e de uma representatividade que o tornam imprescindível para a reconstrução histórica do itinerário e da identidade dessa mesma instituição educativa. Se tomado na sua complexidade e na sua diacronia, o arquivo constitui um referencial básico para o entendimento e a construção do sentido evolutivo de uma instituição educativa (p. 74).

Muito para além da sua função de depósito, o arquivo permite uma projecção e uma reinvenção da própria tradição e tem um duplo sentido. Se, por um lado, significa a preservação da memória, por outro, representa a identidade de uma instituição. Daí a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e uma articulação entre a arquivística e a historiografia. É neste contexto multifacetado e diverso da sua temporalidade que o arquivo se torna um lugar privilegiado de informação e construção do sentido evolutivo para a história de uma instituição educativa (Magalhães, 2007: 74). Assim como uma biblioteca não é um amontoado de livros, também um arquivo não é uma justaposição de séries de documentos. Tem de ser tomado de forma integrada, nos planos diacrónico e sincrónico, para a reconstrução histórica do itinerário e da identidade da instituição.

Enquanto memória, escreve Justino de Magalhães, o arquivo representa o vivido, mas enquanto imagem da realidade, o arquivo é um quadro, pelo que remete para a acção. Daí a sua riqueza informativa e a sua imprescindibilidade da mundivisão de uma realidade que continua a merecer a atenção de quem quer saber mais (Magalhães, 2007: 74). Assim, a construção da história desta instituição educativa que agora se apresenta resulta, em boa parte, do vaivém progressivo entre o arquivo e a memória.

20 O contacto com este responsável, Dr. Rui Prata, foi estabelecido pelos Drs. António Carvalho e Amado

Vicente. O pedido de orientação foi prontamente atendido por aquele responsável, a quem a Instituição fica reconhecida pelo apoio dado. Trata-se de um processo em curso. Entretanto, já foi feita a inventariação.

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A reconstituição do arquivo é fundamental, em trabalhos como este. Sem arquivo não há instituição. Trata-se de reconstituir a instituição, do ponto de vista da informação substantiva e da interpretação da mesma. Este longo e meticuloso trabalho foi, em boa parte, condição necessária para que a presente tese se pudesse fazer com segurança.

Mas a valência do arquivo, num trabalho como este, é condição necessária também para que seja assegurada a dialéctica da investigação entre a noção de verdade, a informação histórica, permitindo dar testemunho e voz a uma diversidade de agentes, à complementaridade de perspectivas, à dialéctica/construção do sentido. Com efeito, sem se conhecer e reconhecer com idoneidade e segurança quem é quem, quem fez o quê, quem disse o quê e em que circunstâncias não seria possível trabalhar a complexidade de espaços, tempos, acontecimentos, realizações. Foi fundamental reconstituir o arquivo e fazê-lo já sob um cruzamento entre heurística e hermenêutica. Isso pode ser atacável do ponto de vista arquivístico, mas é inteiramente aceitável do ponto de vista historiográfico.

A reconstituição criteriosa do arquivo, por secções, tipos de informação, agentes e testemunhos, confere ao objecto estudado o sentido instituinte, diversifica e gera idiossincrasias com potenciais leitores. Ou seja, as narrativas e experiências vividas pelas internas despertam nos atuais leitores uma aproximação diferente daquilo que sucede com a acção dos agentes de poder. A imprensa confere quotidianidade ao passado e ainda hoje pode ser lida com esse sentido. Este trabalho, começando no arquivo e construindo uma narrativa historiográfica, integra o objecto estudado na memória colectiva, posto que gera confluência entre o passado e o presente, entre os agentes de ontem e os leitores do presente. Dá significado e torna inteligível o passado.

O arquivo produz conhecimento e continua a ser explorável, é o paradigma de construção de conhecimento de história das instituições educativas. Funciona como uma dialéctica entre a memória e a organização de um pensamento; dá representatividade; confere identidade e espelha a instituição.

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2. C

ASA

D’

ABRIGO

/C

OLÉGIO DE

R

EGENERAÇÃO

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A Casa d’Abrigo/Colégio de Regeneração, um sinal luminoso, surge em Braga pela iniciativa de um jovem sacerdote, na segunda metade do século XIX, para acolher jovens e mulheres, vítimas de abuso sexual e de exploração feminina, num contexto de pobreza que, nos finais do século, era um estigma que sufocava uma significativa percentagem da população desta região, assim como do restante país. O Recolhimento não é uma fuga do mundo mas uma forma criativa e inspiradora de reinserção, de regresso ao mundo e às coisas, uma porta aberta para a Vida.

No breve historial que aqui traço fica uma apresentação sumária, uma visão panorâmica da identificação de uma instituição educativa, única, no seu género, no país.

2.1. Contexto sociopolítico e religioso. A Igreja em Portugal nos anos 30-60 do