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CAPÍTULO II – REGIME INTERNACIONAL DAS INDICAÇÕES

2. O Acordo de Madri

O Acordo de Madri167 relativo à repressão das falsas indicações de procedência de mercadorias de 1891 (Madrid Agreement for the Repression of False or

Deceptive Indications of Source on Good”), à diferença dos demais Acordos aqui

estudados, dispõe sobre indicação de procedência num sentido mais amplo da expressão168

165

“Art. 10ter. Comprometem -se, além disso, a prever medidas que permitam aos sindicatos e associações

de industriais, produtores ou comerciantes interessados e cuja existência não for contrária às leis dos seus países, promover em juízo ou junto às autoridades administrativas e repressão dos atos previstos nos artigos 9, 10 e 10 bis, na medida em que a lei do país em que a proteção é requerida o permite aos sindicatos e associações desse país.”

166

Para detalhes sobre as modificações introduzidas na Convenção d e Paris ao longo dos anos: AUBOUIN, Jean-Michel. Le Droit au nom de Cognac. Paris : Librairie du Recueil Sirey, 1951. p. 164/174.

167

Vide item 2 do Capítulo I.

168

CORREA, Carlos M. Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights. A Commentary on the

(art. 3º169), como sendo a indicação do local de onde proveio o produto, independentemente de sua ligação com aludida localidade, seja ela cultural ou natural.

Em outras palavras, o sentido de indicação de procedência não é o mesmo que aquele extraído dos demais textos tratados neste estudo, ou seja, como uma espécie da figura indicação geográfica. No entanto, em razão da amplitude do sentido da expressão indicação de procedência, o Acordo também compreende as indicações geográficas.

Comparativamente à Convenção de Paris, o Acordo de Madri regula, expressamente, não só a proteção contra as falsas indicações de procedência (false

indication), como também contra as indicações enganosas (deceptive indication), uma vez

que como visto no item anterior, uma indicação pode não ser falsa, mas pode ser enganosa (vide exemplo do presunto de Parma, produzido na cidade de Parma nos Estados Unidos e não na Itália).

Conforme o texto do Acordo, devem ser apreendidos, na importação, todos os produtos que ostentem uma indicação falsa ou enganosa mediante a qual um dos países ao qual o Acordo é aplicável, ou uma localidade neles situada, seja diretamente ou indiretamente indicado como sendo o país ou local de origem (art. 1º).

No caso de um país não prever a medida de apreensão, esta deverá ser substituída por proibição de importação ou, ainda, qualquer medida de efeito similar, podendo ser adotadas, inclusive, medidas relativas ao combate à contrafação de marcas, caso o país não disponha de medidas específicas de proteção às indicações de procedência falsas ou enganosas (art. 1(3) (4) (5)).

Contudo, o Acordo não contém previsões sobre a possibilidade de pedido de apreensão diretamente feito pelos entes particulares afetados pelo ato da falsa ou enganosa indicação de procedência. O artigo 2º confere poder ao Ministério Público, ou qualquer outra entidade pública dos países partes, para requerer a apreensão dos produtos que

169

“Article 3 - These provisions shall not prevent the vendor from indicating his name or address upon goods

coming from a country other than that in which the sale takes place; but in such case the address or the name must be accompanied by an exact indication in clear characters of the country or place of manufacture or production, or by some other indication sufficient to avoid any error as to the true source of the wares”.

apresentam falsa ou enganosa indicação de procedência. O Acordo prevê que os entes particulares afetados pelo uso indevido da indicação sejam informados e possam adotar as medidas posteriores à apreensão.

De maneira mais específica do que aquela prevista na CUP, a obrigação dos países partes do Acordo de Madri é de proibição do uso ligado à venda ou disposição à venda dos produtos contendo a falsa ou enganosa indicação de procedência, compreendendo toda publicidade, documentos, notas fiscais, cartas ou qualquer comunicação comercial (art. 3bis)170.

Em razão da possibilidade de existência de indicações de procedência consideradas como genéricas, o Acordo dispõe sobre a competência dos tribunais de cada um dos países partes para decidir quais são as denominações às quais o Acordo não será aplicável. Aludida reserva, contudo, não se aplica aos produtos de proveniência vinícola (art. 4º), uma vez que as denominações desses não podem ser consideradas como genéricas. Com isso, buscou-se barrar todo e qualquer ato de concorrência desleal que poderia decorrer do uso indevido do nome de região vinícola reputada.

Ainda que apresente disposições mais específicas em matéria de proteção de nomes geográficos, o Acordo de Madri não atraiu a atenção e interesse de significantes países como Estados Unidos, Alemanha e Itália. Pode-se atribuir essa inabilidade ao fato de o Acordo isentar as indicações geográficas que já haviam sido consideradas como genéricas171 antes de sua criação, o que, apenas mais tarde, foi devidamente regulado e protegido pelo Acordo de Lisboa.

170

“Madrid Agreement for the Protection of False or Misleading Indication of Source on Goods. Article 1 and 2 of this Agreement provide extensive seizure remedies, comparable to those prescribed in Article 9 of the Paris Convention, for goods bearing false or misleading indications of geographical origin. Article 3bis adds the substantive norm that member countries shall “undertake to prohibit the use, in connection with the sale or display or offering for sale of any goods of all indications in the nature of publicity capable of deceiving the public as to the source of goods and appearing on signs, advertisements, invoices, wine lists, business letters or papers or any other commercial communication”. (GOLDSTEIN, Paul. International

Intellectual Property Law : Cases and Materials. New York: Foundation Press, 2001. p. 437).

171

BLAKENEY, Michael. Proposals for the International Regulation of Geographical Indications. Jornal of