Capítulo 3 – Recrutamento Social dos alunos ingressantes
3.4 O acordo tácito entre a faculdade e os estudantes
Após a análise sobre o recrutamento social dos estudantes, retomamos as representações que as próprias faculdades fazem sobre si mesmas para verificar a correspondência com suas práticas. A imagem construída socialmente do curso de Direito da São Francisco nos leva a pensar, em um primeiro momento, que ela estaria mais próxima da produção intelectual. No que tange ao Mackenzie, a representação que se tem de seu curso de Direito é que ele atenderia mais a reprodução do saber técnico e prático. Tendo em vista que essa instituição concorria com outras escolas pela captação de frações da elite paulistana e que a promoção feita pelas escolas sobre si se referia à excelência no ensino, o discurso legítimo para o recrutamento salientava que os filhos da elite teriam acesso ao saber institucionalizado e legítimo. Além disso, como vimos anteriormente, a análise dos sites da USP e do Mackenzie alimentam as representações sociais de cada uma. De fato, eles apresentam características que demonstram a inclinação mais prática do Mackenzie, no sentido de ensinar seus alunos a ter o domínio do saber técnico para sua aplicação, enquanto a USP parece fomentar a produção de novos conhecimentos e teorias jurídicas. Contudo, isso não se revelou nos programas de ensino, as áreas do Direito que ganham maior atenção em ambos os cursos são as mais tradicionais e a bibliografia dos cursos parece ser aquela clássica já consolidada.
O fato de que parte dos professores de Direito da USP são contrários ao estágio de seus estudantes antes do terceiro ano da graduação por acreditarem que eles devam se dedicar exclusivamente à função intelectual, pode nos levar a acreditar que a produção intelectual seria mais valorizada nessa instituição. Se entendermos que essas propriedades favoráveis à produção intelectual livre na verdade constroem uma imagem de fachada e que, nela também ocorre a reprodução do saber jurídico – como será visto no próximo capítulo –, o corpo discente ajuda a reforçar aquela representação social.
55 A análise dos questionários mostra que os franciscanos parecem ser mais intelectualizados, com uma posição política incomum no meio social em que estão inseridos, afinal eles votaram mais em partidos de centro-esquerda (PT) e esquerda (PSOL), 38,6%, do que no Mackenzie, 14%. Eles se dedicam mais às atividades de estudo diário e possuem maior volume de capital cultural. Verifica-se, portanto, que os alunos da USP possuem mais atributos valorizados no ofício intelectual, o que é desejado por uma universidade que por muito tempo defendeu a produção de um “saber desinteressado”83. Ocorre que essa diferenciação entre franciscanos e mackenzistas, fruto de um imaginário comum, muitas vezes não corresponde com a realidade objetiva, embora essa construção social em torno da rivalidade entre as duas instituições seja necessária para que elas se reconheçam enquanto grupos distintos. Nesse sentido, a oposição entre os alunos da USP e do Mackenzie configura uma ruptura simbólica:
Encontra-se nesses estudantes uma vontade muito grande de se distinguir, mas, na verdade, essa busca pela diferença nada mais mostra do que o consenso que impera no meio escolar. Nesse jogo das diferenças, é difícil encontrar diferenças reais que ultrapassem o consenso, por isso as oposições podem parecer artificiais fictícias e até formais, pois não se discute o que é fundamental, afinal, é preciso haver um consenso sobre o que é fundamental para que haja discussão.84
Quando observamos a Faculdade de Direito da USP, especificamente, a análise do recrutamento social de seus estudantes e de suas definições de excelência jurídica revelam uma correspondência entre as aspirações dos estudantes e a imagem de formação universitária que a São Francisco promove de si mesma e que é socialmente reconhecida. Não necessariamente essas aspirações serão satisfeitas, mas, – apesar da possibilidade de frustração, após o ingresso e ao decorrer do curso – no momento da matrícula há um acordo tácito entre o novo aluno e a USP sobre as trocas esperadas entre eles; embora haja conflito entre a faculdade e o aluno, eles se integram e atendem um à expectativa do outro.
Os franciscanos lutam pelo direito de estagiar antes do terceiro ano em razão da impossibilidade de todos se dedicarem apenas ao estudo e precisarem “ganhar a vida”, além de desejarem experimentar o ingresso no mercado de trabalho. Diante disso, a Faculdade de Direito da USP, representada por parte de seus professores, se coloca contrária a tal iniciativa e busca assegurar o compromisso prioritário com a formação universitária ao exigir a dedicação total aos estudos. Essa disposição da faculdade visa garantir seu semblante de
83 Contudo, esse projeto educacional encontrou resistência justamente nas instituições educacionais anteriores à fundação da USP, entre elas a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Ver mais em:
CARLOTTO, Maria Caramez. Universitas semper reformanda?: a história da Universidade de São Paulo e o discurso da gestão à luz da estrutura social. 2014. Tese (Doutorado em Sociologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
84 BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. Os Herdeiros. Op cit. pp. 67 e 68.
56 excelência jurídica e universitária, justamente a característica que atraiu seus alunos que, posteriormente, passam a lutar contra essa ordem interna institucional, embora seja essa ordem que de certa forma garanta a atração dos próximos ingressantes. Em outras palavras, se por um lado os estudantes enfrentam a estrutura institucional mantenedora da excelência jurídica e universitária que anteriormente os atraiu, por outro lado, a São Francisco, fundada sob os princípios republicanos e liberais e que tanto se esforçou para recrutar grandes figuras críticas, ao tê-los como membros internos, busca engessá-los em sua própria ordem institucional, retirando, portanto, um aspecto de sua liberdade.
Em suma, os franciscanos acumulam capital simbólico ao estudarem na USP, mas este só é conferido pela ordem institucional que estrutura a faculdade de Direito e é contra ela que eles lutam, embora seja por causa dela que esses estudantes possam se colocar na posição de enfrentamento, lutando contra o poder que lhes dá poder. A USP, por sua vez, não busca recrutar figuras passivas que têm sobretudo o interesse do simples aprendizado do conteúdo do Direito e almeja atrair figuras ativas, “pensantes” e até revolucionárias, mesmo que sejam exatamente esses os atributos dos alunos que permitem a sua revolta contra ela mesma.
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