3 ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DA FICÇÃO FANTÁSTICA
4.3 O além-túmulo e as histórias de fantasmas
As narrativas que recuperam a lenda da noiva cadáver abordam histórias de além- túmulo. Mesmo que se dê à narrativa uma explicação natural, como é o caso do conto alvarozevediano “Solfieire”, a sensação tétrica experimentada por uma história de fantasmas é obviamente patente de se observar.
Em “A guarida de pedra”, de Fagundes Varela, lemos a história de um soldado de nome André, que, certa noite, foi escalado para montar guarda na última guarida do forte. Implorou sem sucesso ao seu Tenente para que o dispensasse, mas, diante das negativas do superior, resignou-se e foi. Quando da troca de guarda, o soldado foi encontrado “de bruços, lívido e sem sentido, a espingarda e o capote lançados a um lado” (Varela, 1953, p. 294). Foi encaminhado à enfermaria e, lá, inquirido pelo comandante sobre o que teria acontecido. A princípio, reluta um pouco em contar. Diz apenas que “o susto” quase o matou! Mas o que teria acontecido? Toma coragem e fala:
Eu estava encostado à guarida com minha espingarda ao lado, e assoviava para distrair-me do medo que se tinha apoderado de mim. Sem uma estrela acordada, o céo era negro como uma furna, o vento corria desesperado, e o mar empolado batia com tal fúria sobre as pedras que até fazia a escuma entrar pelas janelinhas da guarida. De repente o relógio principiou a tocar; contei até onze pancadas, quando chegou as doze, ouvi uma gargalhada tão estridente, tão medonha que os cabelos se me arrepiarão na cabeça e a espingarda caiu de minhas mãos trêmulas; a gargalhada tinha soado perto, bem perto, à quatro passos de mim!...Nossa Senhora agora mesmo parece que ainda a tenho nos ouvidos!... (Varela, 1953, p. 295).
O jovem soldado se interrompe, ainda movido pelo medo, e seus colegas, que o ouviam junto ao comandante, se benzem antes que ele continue:
[...] eu escutei um som lúgubre e funerário, era toque lento e compassado como o que anuncia um enterro. O suor corria-me em bagas pela testa, meus dentes rangiam com força e minhas pernas tremiam como varas verdes ... Oh! meu Deus! era horrível o que eu!... (Varela, 1953, p. 295).
117 Ele se interrompe novamente, o que aumenta a intensidade emocional da narração. Gagueja como se temesse relembrar:
[...] eu vi uma figura sombria e medonha! Era um frade; cobria-lhe a cabeça, e lá dentro, à luz amarelenta de um círio que trazia na mão, divisei um rosto lívido e esverdeado como o de um cadáver, e dois olhos que ardentes e inflamados me faziam correr calafrios nas vêas. Atrás dele vinham quatro vultos todos mais alvos do que a neve, e seguravam com a mão um chicote fumarento, enquanto a outra sustinha um caixão mortuário. Eles caminhavam lentos que parecia gastar uma hora para mover um pé; e cantavam com voz trêmula e cavernosa a encomendação dos defuntos. Um vento gelado e furioso corria por todos os lados, as aves da morte piavam desoladamente, as ondas exalavam soluços frenéticos, batendo-se umas às outras. O frade que ia na frente estava já perto, e estendia seu braço de esqueleto para me agarrar (Varela, 1952, p. 296). Jorge, um dos soldados que ouvira o que contou André, se ofereceu, destemido e impetuoso, para montar guarda naquela guarida com o fim de provar que nada de estranho ou sobrenatural havia ali. Eram apenas histórias, fruto de uma imaginação inflamada pelo medo. Os outros, porém, achavam que era loucura “tentar ele combater com espíritos” (Varela, 1952, p. 297).
Na noite em que monta guarda, o cenário é o mesmo, ou, talvez, mais sombrio: uma noite escura, tempestuosa, ventos rugindo, mar agitado, trovões e relâmpagos. Quando se aproximava da meia noite, mais o vento rugia, à meia noite sentiu uma ventania avassaladora passar. Nesse momento, ouviu a procissão de mortos de que falara André, mas racionaliza o que ouve, afirmando ser somente os ventos da tempestade: “Entretanto, o toque aproximava-se cada vez mais, e o coro medonhamente solene estrugia abafando o bramido das vagas” (Varela, 1952, p. 297). Jorge não admitia temer. Por isso, saiu da guarida para ver e se deparou com a mesma cena descrita pelo primeiro soldado. Ameaça atirar contra a procissão de espectros que se aproxima, mas, “nesse momento um vento glacial e empestado passou-lhe pela fronte e tomou-lhe a respiração; o soldado sentio como se sentisse o peito despedaçar-se debaixo de garras de bronze” (Varela, 1952, p. 297).
Os demais soldados ouvem o estampido de um tiro, mas estavam tão apavorados que se abstiveram de ir conferir. Esperaram amanhecer. No dia seguinte, a guarida estava
118 vazia. Nas grades das janelinhas que davam para o mar, encontraram “fragmentos de roupa ensanguentada e carne humana” (Varela, 1952, p. 295); no chão, “um capote militar ensopado de sangue escuro e coalhado pelos frios da noite” (Varela, 1952, p. 295), e, ao lado, a espingarda do soldado, “com o cano torcido como se fosse de cêra” (Varela, 1952, p. 295).
A narrativa termina sem que haja quaisquer posicionamentos ou do narrador primeiro, aquele que ouve a história e a transcreve, ou do narrador segundo, o velho pescador que a conta deixando ao leitor o benefício (ou o malefício) da dúvida. Em “A guarida de pedra”, o fantástico surge “permeado pela relação entre o caráter lendário com que se apresenta a história e o narrador que a copila” (Silva, 2013, p. 94), mas o fato de não se oferecerem indícios que conduzam o leitor à solução da dúvida permite-se que se oscile entre a possibilidade ou não do acontecimento sobrenatural. A não explicação do que teria acontecido com o soldado reforça a ambiguidade narrativa e ratifica a fantasticidade do conto.
Na primeira versão de “Demônios”, de 1891, quando o narrador e Laura saem a caminho do mar tropeçando trôpegos por entre cadáveres e lodos, sentem a presença de almas sofredoras aprisionadas naquelas flores de fungo, bolor e lodo:
E continuamos a caminhar por entre aqueles monturos vivos, oprimidos pelo aflitivo resfolegar de almas cansadas. De repente, Laura tremeu toda e cingiu-me medrosa contra o meu corpo.
– Que tens tu, minha pobre flor?...
Ela me respondeu que dentre o respirar daqueles monstros, distinguia um gemido de dor.
– Um gemido? E era humano?
– Sim, sim! Disse ela, sem falar. E, nesse instante, outro longo e doloroso gemido veio confirmar as palavras da minha companheira (Azevedo, 1891, s/p).
À medida que conversam com essas vozes, descobrem que estão ali aprisionados pelos seus maus feitos em vida, seu castigo eterno. A despeito do cunho moralizante do trecho, a imagens grotescas despertadas pela descrição servem à narrativa como forma de potencializar seu efeito receptivo. Estavam em meio a um cataclismo em que apenas narrador e a noiva pareciam ser sobreviventes dos que morreram, pecadores condenados
119 a passar a eternidade presas num purgatório terrestre, que os sobreviventes precisavam atravessar:
[...] continuamos a derivar penosamente por aquele tenebroso labirinto de lodo soluçante. Aqui, era alguém que chorava as mortes por ele próprio cometidas; ali, já outro, carpia lágrimas alheias que os seus feitos perversos provocaram; [...] E afinal tudo era já um clamor aflitivo de agonizantes, envenenados pelo próprio coração; um convulso e revolto estortegar de almas desesperadas, que se estrangulavam, curtindo as próprias fezes. [...] E as falas e os soluços subterrâneos não se calavam; e as palavras borbulhavam à flor do lodo, fervilhando como se viessem expelidas por um vulcão de cóleras humanas. (Azevedo, 1891, s/p)
Se, na segunda e terceira versão do conto, a palavra labirinto não é utilizada por Azevedo em nenhum momento para descrever aquele cenário apocalítico em que se tornara a cidade do Rio de Janeiro, na primeira versão, ele o utiliza para descrever o cenário que formavam aquelas almas presas ao lodo, justamente porque, enquanto passavam, as vozes daqueles fantasmas os iam chamando, os fazendo desviar o caminho. Tudo o que desejava Laura era fugir depressa daquele lugar e daquelas vozes fantasmas.