CAPÍTULO 3 – TEIXEIRA E SOUSA E O FOLHETIM
3.3. O alcance dos folhetins
Ler se transformava em construir sentidos, treinando narrativas pequenas, medianas ou longas. Era um grau de estudos. Assim sendo, estudar Literatura é também mergulhar no contexto de produção. E é justamente esse contexto que nos chamou a atenção durante a leitura de O filho do pescador, do, até então, desconhecido ou adormecido escritor, Teixeira e Sousa, que no dizer de Veríssimo (1998) “é o primeiro escritor brasileiro de romance, portanto o criador do gênero aqui discutido” (VERÍSSIMO, 1998, p. 235).
Discutimos, no capítulo II, algumas perspectivas estéticas do romance-folhetim O
filho do pescador, como uma mídia impressa a serviço da construção de um perfil para o
leitor do final da primeira metade do século XIX. Ao apresentar ao público uma narrativa carregada de digressões, peripécias, redenção e moral dos fatos, Teixeira e Sousa oportunizou a jovens, semi-letrados e mulheres o contato e o gosto pela leitura literária, através da mídia- jornal, linguagem de fundamental importância naquele período, pelo fácil acesso de alcançar o texto. O folhetim trouxe à tona a liberdade de criação e do fazer literário com função comercial, tornando o autor conhecido pelo público leitor do século XIX.
É importante ressaltar que, apesar de os jornais circularem no meio doméstico e familiar, a princípio apenas como forma de deleite para as moças20, passaram também a chamar a atenção dos barões da elite burguesa, pelo teor dos textos publicados nos folhetins. Afinal, por que esses textos entretinham tanto? Qual a receita para o sucesso de vendagem? O que estariam disseminando? Se observarmos o contexto, iremos nos deparar, grosso modo, com duas classes sociais distintas: os burgueses e os não-burgueses. A burguesia via na leitura, além de informação, uma forma de entretenimento e deleite. As classes populares – os
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A princípio, parecia que o universo das moças da época resumia-se apenas a bordados, enxovais e afazeres domésticos e que assuntos como política jamais viriam a interessá-las. Estudos de gênero vão na contramão dessa ideia. A mulher, apesar dos processos de assujeitamento impostos pela sociedade, escapava a esse patriarcalismo, como o que expressavam em seus “cadernos-goiabada” ou nas publicações que vieram a fazer tempos depois. Sobre isso, Mary Del Priore nos apresenta um panorama da condição da mulher no livro que organizou, História das Mulheres no Brasil.
não-burgueses – enxergavam nos jornais os mesmos mecanismos que os burgueses. No entanto, era ali, também, que se construíam enquanto parte da sociedade, observando nas notícias e nos folhetins padrões de comportamentos aceitáveis ou não.
Assim, o alcance dos jornais gera uma preocupação com aquilo que estava sendo difundido e torna-se ponto de questionamento sobre o tipo de leitura adequado às moças das “boas famílias”. De acordo com Silva,
[a] crença de que um bom romance era aquele que trazia lições de moral para os leitores, recorrente nos textos brasileiros que se pronunciaram sobre os romances estrangeiros, esteve presente também nas críticas que se propuseram a analisar as produções nacionais (SILVA, 2006, p. 886).
Ainda a esse respeito, Jinzenji nos lembra que
[p]ara analisar as primeiras décadas do século XIX, além dessa noção ampliada de educação, é necessário considerar que a ação educativa era exercida por várias “instituições”; concomitante à escola, os meios/espaços não escolares de formação tiveram importante função na transmissão de valores, comportamentos e na difusão de conhecimentos (JINZENJI, 2010, p. 25).
Porém, observador dos acontecimentos a sua volta, Teixeira e Sousa demonstrou também preocupação em não se distanciar dessa adequação. Segundo Silva,
Para conceder moralidade aos romances publicados posteriormente, Teixeira e Sousa recorreu às mesmas estratégias, incluindo palavras edificantes nas falas de narradores e personagens que atuaram em enredos compostos por acontecimentos que exemplificaram a punição do vício e a recompensa da virtude (SILVA, 2012, p. 111).
Observamos os folhetins não apenas como veículo para divulgar narrativas. Havia um alcance maior. Não apenas se formava um público leitor; primeiro precisou que se pensasse em escritores capazes de informar, entreter, educar e levar à reflexão do que fora lido. Nada era por acaso. Havia um projeto de construção de uma identidade nacional, mas também havia que se pensar em projetos literários. E o de Teixeira e Sousa se apresenta claro quando trouxe a lume O filho do pescador. Independente de ter sido esse seu primeiro romance-folhetim publicado, Silva nos aclara que “Teixeira e Sousa previa que, aliado ao trabalho com a moral, o romancista deveria conferir brasilidade aos seus textos, mostrando-se desejoso de contribuir para a criação de um sentimento nacional” (SILVA, 2012, p. 111).
Apreendendo os periódicos como espaços de performances literárias, passa então a ocorrer uma espécie de censura aos textos publicados no rodapé dos jornais – os folhetins – agora ainda mais acirrada do que no período logo após a chegada da família real. Apesar disso, e – talvez por isso mesmo – os folhetins passaram a ser a “menina dos olhos” dos editores da época, numa receita que tinha como ingredientes uma mistura de amores proibidos, extração da moral dos fatos, peripécias e digressões. Com narrativas envolventes, muitos autores, consagrados ou não, passaram a figurar entre as leituras mais disputadas da época. Ganhavam os editores, os escritores e os leitores, mesmo com o olhar vigilante da censura. Afinal, “[s]e o Brasil era uma nação, deveria possuir espírito próprio como efetivamente manifestara pela Proclamação da Independência; decorria daí, por força, que tal espírito deveria manifestar-se na criação literária, que sempre o exprimia, conforme as teorias do momento” (CANDIDO, 2012, p. 313). Tratava-se de uma argila ganhando forma e esse produto-sociedade deveria se encaixar nas medidas pensadas pela sociedade moralizadora – um artesão cheio de ideias, mas em início de carreira.
O contexto de produção fervia e ansiava por novos colaboradores, disputados pelo mecenato. O folhetim alcançava as diferentes camadas da sociedade. Nesse cenário, encontra- se Teixeira e Souza, o cabofriense nascido em 1812. Lembrando de sua origem humilde, que não lhe possibilitou mergulhar de cabeça e com toda a vestimenta necessária ao universo das letras, e tendo a necessidade de interromper seus estudos de Latim para garantir seu sustento, o autor não desistiu de escrever. Apesar das amarguras e reveses, o folhetim também o alcançou e se mostrou ao alcance dele.