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3 ENSINO DO PORTUGUÊS PARA ESTRANGEIROS NO BRASIL: O ESTADO DA

5.2 ESPECIFICIDADES DO ENSINO DE PL2 NA ESCOLA REGULAR

5.2.1 O aprendiz de PL2

5.2.1.2 O aluno estrangeiro no Ensino Fundamental

Desde os séculos XVI e XVII, juntamente com o surgimento da instituição escolar, a função da educação vem sendo construída e transformada, na medida em que se modificam na história, as compreensões acerca da infância e do que é ser criança.

O valor social atribuído à criança evoluiu historicamente. Passamos por uma fase em que ela era vista como um adulto em miniatura, um ser puro e inocente ou ainda como “o nascido com a mancha do pecado” (BAZÍLIO e KRAMER, 2003).

Hoje a criança é reconhecida como uma pessoa que sente, age e pensa de uma maneira peculiar; que possui características específicas ao período infantil (é pura emoção, movimento e cognição), mas que também podem variar, segundo as suas experiências de vida.

Essa mudança de paradigma imprimiu um novo olhar do adulto sobre a Educação Infantil que, a partir da década de 90, passou a ter como objetivo fundamental o educar/cuidar. Nesse caso, o cuidar não era mais visto apenas como o auxílio às necessidades físicas da criança por estar intimamente relacionado às ações educativas, como por exemplo: ao preparar uma aula que considere as

diferenças existentes entre os alunos, o educador está ao mesmo tempo, cuidando e educando.

Seguimos a definição de infância proposta por Kramer (2006, p. 13), na qual ela é “entendida como período da história de cada um, que se estende, na nossa sociedade, do nascimento até aproximadamente dez anos de idade”, independente de suas origens nacionais.

Ancorados nesse ponto de vista, afirmamos que semelhante à indissociabilidade entre o educar e o cuidar, a Educação Infantil e o Ensino Fundamental possuem inúmeras aproximações, visto que ambos contemplam saberes, afetos, valores, risos, inseguranças, cuidados e atenção. Portanto a utilização, nos últimos tempos, de educação da infância para caracterizar essas duas etapas sem a desnecessária fragmentação.

Educação infantil e ensino fundamental são frequentemente separados. Porém, do ponto de vista da criança, não há fragmentação. Os adultos e as instituições é que muitas vezes opõem educação infantil e ensino fundamental, deixando de fora o que seria capaz de articulá-los: a experiência com a cultura. [...] Temos crianças, sempre, na educação infantil e no ensino fundamental. Entender que as pessoas são sujeitos da história e da cultura, além de serem por elas produzidas, e considerar os milhões de estudantes brasileiros de 0 a 10 anos como crianças e não só estudantes, implica ver o pedagógico na sua dimensão cultural, como conhecimento, arte e vida, e não só como algo instrucional, que visa a ensinar coisas. Essa reflexão vale para a educação infantil e o ensino fundamental (KRAMER, 2006, p. 19 e 20).

Ao reconhecer que a criança de 06 a 10 anos também possui singularidades na forma e quantidade do que aprende e, com o intuito de assegurar a ela maiores oportunidades de aprendizagem, o governo federal implantou a Lei de nº 11.274 de fevereiro de 2006 que alterou a LDB de 1996. A nova legislação antecipou para 6 anos a idade obrigatória para a entrada do aluno na chamada educação básica e ampliou para nove anos o período de escolaridade no Ensino Fundamental (antes de 1ª a 8ª série, agora de 1º a 9º ano).

O consequente interesse do MEC por uma melhor qualificação das instituições de Ensino Fundamental culminou com a elaboração do documento intitulado Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade (BRASIL, 2006)

O registro evidencia o perfil de uma educação fundamental que precisa contemplar as necessidades, interesses e particularidades dessa faixa etária, principalmente no que se refere à garantia do espaço lúdico (antes presente apenas na Educação Infantil).

Até a divulgação do referido manual, conforme iam avançando os anos escolares, mais reduzidos tornavam-se os espaços da brincadeira na escola. Infelizmente, em algumas práticas pedagógicas o brincar ainda é encarado como atividade de preenchimento do tempo nos chamados “momentos de recreação”, e não, como uma possibilidade de aprendizagem fruitiva. A respeito dessa questão, nos apoiamos em Jalles (2007, p. 3) para defender que:

[...] esse momento de mudanças no ensino fundamental possibilite uma reorientação curricular que privilegie no cotidiano escolar o lúdico como veículo norteador das atividades, a definição de caminhos pedagógicos nos tempos e espaços da escola e da sala de aula que parta da realidade concreta das crianças, que respeite sua cultura, sua história, sua subjetividade.

Também não podemos esquecer de que é nos anos iniciais do Ensino Fundamental que o aluno se aproxima mais efetivamente das normas ortográficas da língua, bem como da complexidade envolvida nesse processo.

A criança estrangeira que aprende o PL2, nesse nível de ensino adquire, as três habilidades comunicativas: falar, escrever e ler, uma vez que se torna falante, escriba e leitor do novo idioma.

[...] considera-se que o ensino/aprendizagem de uma nova língua requer, além do conhecimento relativo ao seu sistema, outros conhecimentos relacionados à aquisição da oralidade e da escrita, tais como os dos atos de fala, os das condições de produção discursiva, os da organização textual, os dos usos de argumentos, os da seleção e emprego lexicais e os das visões sócio-histórico- culturais (SILVEIRA, 1997, p. 10).

É importante que o aluno também tenha consciência de suas responsabilidades para que possa posicionar-se em sala de aula e assim estar motivado a desenvolver estratégias de comunicação.

De acordo com Gomes de Matos (1997, p. 15), um aprendiz de PL2 precisa saber: em que contextos cada enunciado se encaixa e por que (por exemplo, a

diferença entre: “você é inteligente” e “inteligente é você”) e adquirir uma compreensão dos processos estruturados da conversação (o que acontece quando duas pessoas da mesma faixa etária e que possuem os mesmos interesses conversam etc).

Sustentamos, sobretudo, a importância da educação na infância, compreendida aqui do ensino infantil até a primeira etapa do Ensino Fundamental; uma vez que, é a partir da mediação de um outro mais experiente; da participação em novas e desafiadoras situações; da interação com uma diversidade de pessoas, ambientes e materiais que a criança é capaz de desenvolver-se como um ser integral.