2 ECOS DO MEMORIALISMO NAS GERAIS
4. CYRO DOS ANJOS E O DISCURSO MEMORIALISTA
4.1 O AMANUENSE BELMIRO: O CONTRAPONTO ENTRE O PASSADO E O PRESENTE
Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando- se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico,
romance cômico, romance disparatado, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, cômico ou absurdo.
Cyro dos Anjos
A primeira obra produzida por Cyro dos Anjos, O amanuense Belmiro, teve sua primeira edição em Belo Horizonte e foi entregue ao público em 1937. Em 22 de março desse ano, ele enviou os originais da obra a Carlos Drummond de Andrade, solicitando-lhe a leitura e a crítica, bem como o encaminhamento a José Olympio. No livro que compila as correspondências dos dois escritores, encontra-se, na carta de número 36, a comprovação desse envio: “Meu caro poeta Carlos: Envio-lhe solenemente o Amanuense. [...] Peço-lhe que o leia com sinceridade e me mande sua opinião. Peço-lhe, também, que o leve ao José Olympio” (MIRANDA; SAID, 2012, p.92-93). Cyro tinha a expectativa de ver o livro publicado pela grande editora, mas definira que, se não obtivesse a resposta esperada do editor, estaria preparado para realizar o seu intento: “Caso não lhe convenha editar o livro (e você não encontre outro editor), editá-lo-ei à minha custa na Imprensa Oficial ou em São Paulo, e pleitearei, então, um contrato apenas de distribuição” (MIRANDA; SAID, 2012, p.94). Entre justificativas sobre a aparência do escrito, Cyro reitera o que antes havia colocado como condição essencial, ter a análise do poeta. Dois dias depois, Drummond responde afirmando que a obra fora entregue a José Olympio e que se dispunha a iniciar a leitura: “Amanuense entregue hoje perante testemunhas pt vou ler sua obrinha menos como crítico do que cúmplice e interessado no sucesso do autor pt abraços. Carlos” (MIRANDA; SAID, 2012, p. 95). As considerações do poeta sobre O amanuense são tecidas e Cyro registra sua gratidão em outra carta, mas, por não conseguir o aceite da José Olympio, decide publicá-lo em Belo Horizonte: “Resolvi editar o livro aqui, à minha custa, na coleção ‘Amigos do Livro’11 [...] Creio que vou entregar a distribuição à Ariel, reservando, pra mim, a colocação em Belo Horizonte e duas ou três cidades mineiras” (MIRANDA; SAID, 2012, p. 98). Cumpre ressaltar que a 2ª edição do romance ficou a cargo da José Olympio que, na realidade, dentre as dezoito edições de O amanuense, respondeu por nove delas. A última edição foi lançada pela Editora Globo, em 2006, ano do centenário do autor.
Ao final da referida carta, Cyro declara a intenção de não mais escrever textos literários: “Depois, considerarei definitivamente encerradas, para bem do público, minhas atividades literárias” (MIRANDA; SAID, 2012, p. 98). No entanto, em 1945, o autor publica
11 Essa sociedade, criada por Eduardo Frieiro, firmou-se com o selo Pindorama e editou várias obras, como Brejo
seu segundo romance – Abdias. Provavelmente, Cyro não contava com as considerações relevantes da crítica brasileira que, talvez, o tenha motivado a dar continuidade à carreira literária. Um dos fatores que, possivelmente, contribuiu para essa boa recepção, também por parte dos leitores, possa ser atribuído à constatação que o próprio autor, em entrevista concedida a Afonso Henrique Fávero12, apresenta em relação à referida obra:
Quando surgiu O amanuense, havia um cansaço da literatura nordestina, do homem do campo, do ciclo do açúcar. Aliás, com grandes escritores como Graciliano Ramos e José Lins do Rego. O meu livro veio com outro espírito; é um livro intimista, pelo menos pretensamente psicológico, de maneira que ofereceu um outro tipo de literatura na ocasião e realmente ele foi acolhido com muita simpatia (NOBILE, 2005, p.13).
O caminho que a prosa de 30 tomou, voltando-se para a temática social e apresentando questões referentes à terra, especialmente focadas na situação do nordeste brasileiro, aos poucos, foi se desgastando pela repetição frequente, mesmo que os enfoques se estabelecessem diferenciados, e por serem sempre os mesmos autores. Essa prosa, entretanto, não seguiu, apenas, esse trajeto. Desviando-se da proposta inicial, que se alicerçou no regionalismo, uma outra corrente registrou presença, firmando a intenção de uma narrativa intimista, de cunho psicológico. Cyro dos Anjos se encontra enquadrado pela crítica nesse braço da Geração de 30. Todavia, ao ser entrevistado sobre a sua filiação à referida geração do modernismo, ele declarou a Jorge Araújo, da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA):
Eu não sou da geração modernista. Vim um pouco depois e fui um adesista retardatário. Cheguei à undécima hora no Modernismo e me vinculei ao movimento (aliás, nem havia mais movimento nesse tempo, ele estava em dissolução), por causa do Drummond, do João Alphonsus, do Emílio Moura e outros mineiros daquele tempo [...] Mas não me considero da geração modernista, nem pós- modernista, pois sou velho pra isso (a geração pós-modernista é de 1945). De modo que eu estou no ar, feito São Pedro. Eu não pertenço a nenhuma geração (ANJOS, 2013, p. 104).
12 A explicação dada por Cyro é a epígrafe do capítulo inicial de A recepção crítica de O amanuense Belmiro de
Cyro dos Anjos (2005), de Ana Paula Nobile, e foi retirada da dissertação de Mestrado (USP), intitulada “A prosa lírica de Cyro dos Anjos”, de Afonso Henrique Fávero (UFRN), que empreendeu um estudo sobre os dois romances de Cyro – O amanuense Belmiro e Abdias – e o livro de memórias – A menina do sobrado. O foco do pesquisador centrou-se nos narradores das respectivas obras, objetivando analisar, em primeira instância, a dimensão lírica que se constata em suas manifestações discursivas. Outro aspecto relevante observado por Fávero se refere à forma como Cyro conduziu o memorialismo em A menina do sobrado, cujos traços autobiográficos se mesclam com a ficção, e nos romances, que se constituem como ficção, mas apresentam traços que podem ser considerados como característicos de autobiografia.
Há que se considerar que essa “outra via” 13, trilhada por Cyro, se constituiu como uma proposta narrativa diferenciadora. O projeto do autor, apresentado em O amanuense, teve a pretensão de penetrar nos recônditos da alma humana, tomando, como referência, um personagem cujo mundo interior, com riqueza de detalhes, é trabalhado e analisado, levantando questões que passam a determinar-lhe um comportamento mais introspectivo e reflexivo, exteriorizado por meio de um processo de catarse14 a se manifestar na escrita. Nobile, em seus estudos sobre a obra, observa:
O amanuense Belmiro é um romance que “sussurra” entre os que “gritam” a realidade deflagrada na década de 30. Esses romances “gritam”, uma vez que se inserem numa época de intensa efervescência política, econômica, social e cultural, que foi a década de 30. Já o “sussurro” que cobre a narrativa belmiriana resulta da expressão da subjetividade, no sentido de inscrever o “eu” quase que numa forma de documento, pois o protagonista apreende-se ao se autocaptar, no prazer de se decifrar, de se comparar, de se contradizer. E esse fértil lastro não passou despercebido pela crítica, que define como lirismo essa atitude introspectiva de Belmiro (NOBILE, 2005, p.59).
Pode-se constatar que o romance não se nega a apresentar um enfoque do quadro social brasileiro: “Parece não haver dúvida que a figura do amanuense faça parte do processo histórico da sociedade brasileira, um símbolo da evolução social de um povo que procura as balizas da sua estrutura social, e que impotente percebe o tempo e a modernidade usurparem o seu poder de mando” (NOBILE, 2009, p.3-4). Belmiro é um fiel representante da classe média. Embora descendente de latifundiários, em situação decadente, ele acaba por incorporar a vida medíocre de funcionário público.
Durante um bom tempo a crítica não atinou para essa questão, mas, gradativamente, esse olhar passou a ser considerado. Muitos já se posicionam contrários à classificação da primeira obra de Cyro como romance pertencente, exclusivamente, à linha intimista da
13 Expressão usada por Carlos Drummond de Andrade, no texto “O amanuense, o trovador e o cigano”,
publicado na Folha de São Paulo, em 31 de julho de 1949, no qual o poeta tece considerações sobre três obras, a saber: O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos; O cancioneiro de Joan Zorro, de Celso Ferreira da Cunha e a monografia sobre os ciganos em Minas Gerais, de João Dornas Filho. O texto faz parte do acervo do autor na Fundação Casa de Rui Barbosa. Sobre o romance de Cyro, Drummond aborda, especialmente, o fato da obra descortinar um novo caminho para a prosa de 30 no Brasil.
14 Para Aristóteles, a catarse é a forma por meio da qual o homem atinge a purificação de sua alma. Esse
processo se efetiva a partir de uma descarga emocional, fruto de alguma situação dramática vivenciada. Nos estudos de psicanálise, o termo encontra-se associado à ideia de libertação, ou seja, a catarse permite que o ser humano torne-se liberto de alguma situação de opressão.
geração de 30. Fogal15 (2011) afirma que a estruturação da obra se dá por meio de um método que declara a ambiguidade: “O enredo do romance é fundamentado pela mescla entre as fugitivas imagens do passado e as forças vitais que impelem o homem para a realidade, sendo estabelecido assim um movimento ambíguo, que ilustra o presente a partir de formas pretéritas e, em contrapartida, dá ao passado aspectos cotidianos” (FOGAL, 2013, p.8). Mas o cerne da questão apresentada pelo estudioso encontra-se na constatação de que O amanuense, “[...] foi capaz de assimilar os dois modelos (o social e o lírico) sem se limitar a nenhum deles, mas que opera uma combinação de caráter dialético entre os dois polos” (FOGAL, 2013, p.10). Para Fogal, o caminho trilhado pela crítica não conseguiu perceber que, em O
amanuense, Cyro elabora uma narrativa na qual consegue integrar o aspecto social e o subjetivo. Na realidade, a presença dos personagens que compõem o círculo de amigos de Belmiro permite que se descortinem ideologias, assumidas e defendidas por consistentes representantes, especialmente por Redelvim e Jandira, comunistas, e Glicério e Silviano, fascistas. A incorporação da estrutura burguesa por alguns personagens é constatada na obra e se faz alvo de crítica. Revolucionário, anarquista ou socialista; filósofo, reacionário; tradicionalista, burguês, juntos, os personagens comprovam que a base do romance não privilegiou, apenas, o intimismo. Os fatos históricos que permeiam a narrativa; a representação do quotidiano de uma cidade – a capital do estado de Minas Gerais; os traços regionais presentes, especialmente nos costumes e na linguagem, concorrem para que não se veja a obra presa, apenas, à corrente intimista da geração de 30, como afirma Fogal: “[...] é pertinente dizer que o estilo intimista não pode ser classificado como oposto ao referencial, pois funcionam de maneira articulada, tanto quando se busca a representação da realidade como quando será enfatizada a expressão da interioridade” (FOGAL, 2013, p.104).
Além da questão referente à estrutura de O amanuense, outra também recebeu atenção da crítica. Nos primeiros textos críticos publicados sobre a obra, há uma extensa especulação sobre quais influências teriam determinado a escrita de Cyro. Entre todos os nomes mencionados, o de Machado de Assis figura, praticamente, em toda crítica, ao lado de outros escritores, como Graciliano Ramos, Marcel Proust, Georges Duhamel, citado na epígrafe de O
amanuense. Segundo Nobile (2005), a presença machadiana é percebida nos aspectos formais,
15 Em sua dissertação de Mestrado (UFMG), recentemente defendida (2011), sob o título “O método de
composição de O amanuense Belmiro: um problema histórico, crítico e estético”, Alex Alves Fogal desenvolveu uma pesquisa, intentando estabelecer uma discussão sobre o romance social e o psicológico da geração de 30, tendo como foco a obra de Cyro dos Anjos, O amanuense Belmiro. O pesquisador conduz suas reflexões objetivando comprovar que o referido romance não pode ser enquadrado em nenhuma das vertentes, pois seu método de composição se estrutura de forma diferenciada.
como o tamanho e os títulos dos capítulos e o estilo simples e equilibrado em frases curtas, e, também, nos de conteúdo, como a malícia de Machado, sua ironia e ambiguidade.
Dentre os romances de Machado de Assis que teriam servido de modelo para determinar traços de estilo em Cyro, especialmente na obra inicial, Memórias póstumas de
Brás Cubas e Memorial de Aires foram, logo, apontados pela crítica por sugerirem uma maior aproximação entre os personagens protagonistas. Belmiro, como Brás, registra suas impressões autobiográficas por meio de meditações irônicas e pessimistas. A exemplo do burocrata Aires, o burocrata Belmiro teria o mesmo ceticismo e a mesma ironia fina e sutil ao dissecar a sua própria vida. Mas caberia destacar que há, também, uma forte familiaridade desse narrador com o casmurro Bento Santiago, especialmente estabelecida pela intenção de escrita, pois ambos têm a mesma pretensão – escrever um livro de memórias –, declarada de forma clara por Belmiro e disfarçada por Bentinho – atar as pontas da vida. Evidenciam-se, nos dois narradores, a presença da frustração diante da vida e a busca do autoconhecimento, da identidade.
Sobre as possíveis influências, Cyro declara que, desde pequeno, lia muito e que tudo o que se lê acaba por deixar marcas. Em relação a Machado, ele não nega a forte admiração e afirma que, ao descobrir Machado, aos dezesseis anos de idade, ainda em Montes Claros, na Escola Normal, deslumbrou-se com sua literatura. Mas não foi somente Machado a determinar-lhe o estilo e ele observa que, com o passar dos anos, outros escritores tiveram um papel bastante relevante em sua produção literária. Cita, também, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Anatole France e registra que as companhias mais presentes, além de Machado, são Proust e Stendhal. Em relação à influência do Bruxo do Cosme Velho em O amanuense, ele comenta:
Eu diria que, ao invés de influência, o que existe é uma certa afinidade. Há, digamos, famílias de escritores por afinidade. O próprio Machado é chegado a Stendhal, a Sterne, a Joseph de Maistre. [...] Eu me sinto parente pobre de Machado. Quanto a haver linhagem machadiana em meus romances, o leitor é quem dirá. Eu escrevo assim, porque sou assim. Sempre me interessei por Machado. O Machado prosador, sobretudo a partir de Brás Cubas.
[...] Ninguém consegue imitar um escritor. O que há é afinidade. Uma pessoa que não tenha o mesmo temperamento não é receptivo à influência. Esse tipo de influência é fecundador, pois desenvolve certas tendências profundas do indivíduo, uma intensificação (ANJOS, 2013, p. 104).
O crítico Antônio Candido, no estudo, intitulado “Estratégia”, sobre o romance em destaque neste 4.1, estabelece um contraponto, refazendo o discurso que a crítica construiu, a
partir da influência exercida por Machado em Cyro. Ele observa que o mais relevante seria ressaltar os aspectos que se constituem como pontos de distinção entre os dois autores e as obras relacionadas – O amanuense e Memórias póstumas. Destaca que, em Machado, há a presença de uma visão dramática da vida e que, em Cyro, essa visão não se perde, mas é acrescida de certo sentido poético: “[...] O que não se falou, porém, foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar de dramática, no sentido próprio, da vida, Cyro dos Anjos possui além dessa, e dando-lhe um cunho muito especial, um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens” (CANDIDO, 2001, p.16).
O crítico registra a alternância que se torna visível em Belmiro, o narrador- protagonista. Seu lado lírico, em determinados momentos, faz-se mais latente e, em outros, o racional, marcado por uma ironia fina, toma a cena. Essa flexibilidade que configura a essência do personagem possibilita o entendimento do processo de criação de Cyro, diferente do que foi elaborado por Machado em Memórias póstumas. Para comprovar o exposto, no capítulo 34, o amanuense assume esse seu desnível de comportamento ou, como será comprovado no decorrer da narrativa, um labirinto de antinomias, que marca a personalidade de Belmiro, impossibilitando que tenha pleno conhecimento de si mesmo:
Relendo, agora, as derradeiras páginas, há uma semana escritas, fico a pensar nestas diferenças de nível que me ocorrem, nos domínios do espírito, tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam.
[...] Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. A um Belmiro patético, que se expande, enorme, na atmosfera caraibana – contemplando a devastação de suas paisagens – sempre sucede um Belmiro sofisticado, que compensa o primeiro e o retifica, ajustando-o aos quadros cotidianos. Chegado à sua toca da Rua Erê, o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa, se reajusta e assobia a fantasia do Hino nacional de Gottschalk (ANJOS, 2001, p. 98-99).
Observa-se nessa declaração do personagem a existência de um duplo: o Belmiro patético, preso ao passado, que se transporta para um outro espaço, a Vila Caraíbas, e se agiganta com o que a memória lhe traz e o faz reviver; e o outro, o Belmiro sofisticado, que se adapta ao presente, aos fatos do cotidiano e corrige os desvios do primeiro. Interessante é que esse segundo Belmiro se deixa ver na escolha do Hino, para assobiar, cujo arranjo é uma variação sofisticada do Hino Nacional. Célia Tamura16 considera sobre a referência ao Hino:
16 Em tese recentemente defendida (UNICAMP), intitulada “O mito quixotesco na literatura de Cyro dos Anjos”,
“[...] obra apropriadamente Belmiriana, já que traz a variação de uma composição já existente, como faz o amanuense o tempo todo, ao longo do diário, em seus pastiches literários” (TAMURA, 2013, p. 63).
Antes mesmo de declarar-se duplo, ele já tem o entendimento dessa condição. Ao conhecer Carmélia, na terceira noite do Carnaval de 1935, capítulo 7, trazendo da memória o mito de Arabela, Belmiro sofisticado cede lugar ao Belmiro patético: “O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombarias de Belmiro sofisticado e faz crescer, desmesuradamente, em mim, um Belmiro patético e obscuro” (ANJOS, 2001, p. 38). O personagem protagonista, em sua constatação, declara-se refém do passado, mas não descarta o presente. Eis a primeira antinomia, a relação antitética entre o passado, que nele habita, e o presente, no qual ele se insere fisicamente. Na realidade, estabelece-se uma medida temporal que registra um paradoxo entre o passado e o presente e que será traduzido pela escrita. Ricoeur reflete sobre a impossibilidade de se medir o tempo. Passado, presente e futuro não podem ser medidos com precisão. Fisicamente, o indivíduo se insere no presente, mas esse é tão fugaz, pois, num instante, se transforma em passado, porque, na realidade, o presente não tem extensão. Ricoeur, de posse do pensamento de Agostinho, declara que os tempos são medidos no momento em que passam e assim é possível percebê-los: “Portanto, no momento em que o tempo passa, pode ser percebido e medido” (RICOEUR, 2010, p.20, v.1). Narrar é uma forma de buscar na memória as imagens que ficaram registradas a partir dos acontecimentos que se fixaram na mente: “Narração, diremos, implica memória [...] Porém, o que é lembrar-se? É ter uma imagem do passado. [...] Por que essa imagem é um vestígio deixado pelos acontecimentos que permanece fixado na mente” (RICOEUR, 2010, p.22, v.1). Belmiro sofisticado iniciará sua trajetória memorialista, dando voz ao Belmiro patético, em um processo constante de busca do passado, que, gradativamente, vai perdendo força, permitindo que o presente se imponha.
Durante o percurso de leitura de O amanuense, outros Belmiros emergem da narrativa. No episódio já mencionado, que se registra como o mais marcante na pacata vida do amanuense, pois pode ser entendido, segundo Pecora17, como um “êxtase epifânico, [...] uma
recorrentemente, é citado pelo autor. O estudo da pesquisadora busca comprovar que o prosador mineiro pode ser colocado entre os autores que seguiram o quixotismo cervantino, elaborando personagens que trazem a marca dessa personagem conflituosa e instigante.
17 Em palestra sobre o romance de Cyro, Alcyr Pecora apresenta uma leitura do protagonista de O amanuense -
invocação lírica de um modelo antigo, como um arquétipo feminino”, que vem quebrar uma rotina sem novidades, surge mais um Belmiro, aquele que retorna ao mito infantil donzela Arabela. A jovem Carmélia, que materializa, aos olhos do amanuense, Arabela, ao recordar-se do incidente do carnaval, identifica-o para o amigo Glicério, como um homem que “estava muito triste, olhando o salão como se olhasse para o mar” (ANJOS, 2001, p.127). Foi justamente por esse motivo que ela tomou sua mão, querendo alegrá-lo, e o levou para dançar. Antes de desmaiar, o homem de pince-nez (Belmiro), dizendo coisas sem nexo, chamou por Arabela. Esse Belmiro triste, cujo olhar se projetava distante e profundo, é reconhecido pelo amanuense: “[...] e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar. Um Belmiro oceânico, irremediavelmente oceânico, eis o que Carmélia