2 AMOR: CONCEPÇÕES E MANIFESTAÇÕES CULTURAIS
2.2 O amor a Deus e o amor como suprema virtude
Nos primeiros séculos após a crucificação de Jesus, o Império Romano vivia entregue aos prazeres, e o amor era considerado mera sensação. Os romanos, segundo Lins (2013), baseavam sua vida numa filosofia de valor ao poder e à riqueza, e eram adeptos do divertimento sem barreiras.
No entanto, o excesso de uma vida entregue, unicamente, aos desejos do corpo e o surgimento de uma nova religião fundaram entre alguns cidadãos um comportamento diferenciado. Havia a propagação de uma fé que lhes negava o direito ao amor terreno e ao prazer do sexo, e que lhes prometia, no lugar disso, uma eternidade desencarnada: o cristianismo trouxe aos romanos uma nova moral em relação ao amor.
De acordo com Lins,
na área do amor, o triunfo do ascetismo parece não ter sido surpreendente. O erotismo pagão havia se desgastado, ao longo dos séculos, por meio de excessos, deixando um tédio que assumiu proporções excepcionais. A desintegração da vida familiar tinha deixado as pessoas insatisfeitas com seus vínculos afetivos, gerando um sentimento perturbador de isolamento e de frustração emocional. (LINS, 2013, p.127).
Nesse sentido, May (2012) afirma que as primeiras concepções sobre o amor que ganharam força e expansão no mundo ocidental estão sustentadas pelos textos das escrituras hebraicas.
Duas ideias guiaram essa transformação do amor no ocidente: 1)“amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças” e 2) “amarás teu próximo como a ti mesmo”. A primeira concentra toda a ideia de devoção, confiança absoluta, temor do poder de Deus e absorção total de suas vontades e exigências. A segunda tornou-se o preceito central da moral ocidental, baseada no respeito e zelo pela vida em comunidade. Esses dois tipos de amor estão relacionados através da ideia de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o que nos forçaria a imitá-lo.
O amor a Deus contempla uma vida em que todos os outros objetos amorosos ficam em segundo plano, subordinados à vontade divina. Segundo May (2012), esse amor é um desejo exaltado pela fonte de todo o bem e valor, e é expresso por rituais e adoração incessantes.
O amor ao próximo já não exprime esse mesmo enlevo, o que se exige de cada um é uma escrupulosa atenção aos interesses dos outros, defendendo-os com o mesmo ímpeto como quanto a si mesmo. Com a prática do amor ao próximo, teríamos o tipo de imparcialidade que Deus teria com a humanidade como um todo.
O rigor do mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas pode ser exemplificado por passagens bíblicas bastante significativas, como a que relata a obediência de Abraão a seu deus quando ouve dele a ordem para sacrificar seu único filho, Isaque. Impedido por um anjo, Abraão, por pouco, não termina por completar a tarefa, mas fica evidente que Deus estava acima do amor que sentia por seu filho3.
O sofrimento relacionado ao amor também tem suas origens no amor a Deus, como demonstrado pela passagem de Jó, que perde seus dez filhos, toda sua riqueza e adoece pela vontade divina. Jó aceita todos os males, porque Deus assim quis.
Depois de sofrer por muito tempo, Jó recebe de Deus, novamente, dez filhos e toda sua fortuna em dobro, vivendo por mais 140 anos uma vida próspera. 4
Esse amor, que exige submissão às leis incontestáveis do amado e que aceita de bom grado o sofrimento, pressupõe uma entrega da forma mais intensa possível da parte de quem ama. Essa essência de devoção está presente na história milenar do amor no ocidente, altamente percebida no romantismo do século XIX.
O pensamento de Agostinho (354-430 d.C.), bispo de Hipona, porto da África, influenciou a Europa e toda a cristandade. A consciência e o rigor ascéticos impostos por suas ideias ajudaram a propagar a culpa pelo prazer sexual, que passou a ser visto como um ato de transgressão contra Deus. A partir disso, inicia-se uma história não somente de castidade, mas, também, de auto-flagelação, mutilações e castigos.
O casamento ideal passa a ser continente – sem relação sexual alguma. O sentimento amoroso não envolvia mais um homem e uma mulher, reciprocamente, que, enquanto cônjuges, deveriam apenas querer bem um ao outro, desde que no âmbito da caridade – o amor não pertencia ao casamento.
Na antiguidade tardia, período compreendido entre o século III e IV, a ideia do amor ser destinado a Deus, faz do corpo um estorvo e um vilão, no qual toda e qualquer realização de prazer é vista como uma afronta. Parte daí a ideia da ligação entre a carne e o pecado. O sexo passa a ser considerado algo imundo, indigno. Nessa direção, a virgindade é glorificada.
A visão que se cria da mulher é baseada na crença no pecado original, em que Eva, por ser criada depois de Adão, é considerada inferior e teria sido a responsável pela desgraça humana, induzindo Adão ao pecado e, com isso, toda a humanidade. É nutrida pela mulher uma profunda associação à maldade, e essa inferioridade faz com que seja vista como fraca, instável, falsa e de “raciocínio lerdo” (LINS, 2012). O homem, embora tenha motivos para ter rancor, deve sentir apenas pena da mulher e cuidar dela.
A Idade Média, período transcorrido entre os séculos V e XV, ampliou essa concepção do amor, condenando o corpo em todos os sentidos. O amor entre um casal não existia, pois era considerado como uma paixão sexual destrutiva. O sexo é
totalmente dissociado do amor, configurando-se no próprio demônio, em oposição ao amor.
A mulher, que havia conquistado algum avanço social na Roma Antiga, retornou ao lugar de subserviência e domesticação, tal qual um animal ou escravo. O único tipo de casamento que deveria almejar seria com Deus, numa vida religiosa. O homem, também, deveria opor-se à ideia de casar-se, e todo o apelo da carne deveria ser combatido, buscando o recolhimento e a penitência.