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2. Contextualização do Cinema Português

2.1. Breve História do Cinema Português

2.1.3. O Antes e o Depois do 25 de Abril de 1974

Nos anos 60 além do surgimento da exploração do cinema publicitário temos também o aparecimento de uma nova geração (José Fonseca e Costa, Alberto Seixas Santos, João César Monteiro e Manuel Costa e Silva) que se aventura na realização de curtas-metragens.

A “Semana de Cinema Português”, que em 1967 teve lugar no Porto, marca uma mudança no rumo do cinema português. Nesta semana além de se exibirem filmes fazem-se debates sobre o “estado das coisas” e perspectiva-se o futuro.

Em 1968 dá-se a morte política de Oliveira Salazar, à qual se segue um período de alguma “abertura”. Em 1972 e 1973 estreiam-se os primeiros filmes produzidos

6 in http://www.amordeperdicao.pt

apoiados pelo Centro Português de Cinema, entre os quais encontramos “Uma Abelha à Chuva”, de Fernando Lopes.

Nesta fase temos ainda dois acontecimentos que marcam o cinema português: a criação do Instituto Português do Cinema (IPC), a partir da lei 7 de 1971; e, a criação da Escola Piloto de Cinema do Conservatório Nacional, em Janeiro de 1973, que é dirigida por Alberto Seixas Santos.

Eis que se dá a “Revolução de Abril” e todo o processo até então verificado se altera. “Fazer uma revolução é virar tudo do avesso”, das instituições políticas às culturais, das formas de produção às formas de vida”.7

A revolução veio alterar o clima que o cinema português vivia, houve projectos que foram abandonados e mais uma vez o cinema veio trabalhar em favor do regime político que vigora, ou seja, passou a ser um cinema de “intervenção” e militante. Ao mesmo tempo surgem também os filmes portugueses que eram censurados pelo antigo regime.

Contudo este não deixa de ser um período de grande confusão nomeadamente no que toca à atribuição de segundos subsídios pelo IPC. Mais uma vez Manoel de Oliveira surge como uma excepção ao “caos” que reinava no país com o filme “Benilde, ou a Virgem Mãe”, talvez o mais radical do realizador. Os filmes mais radicais e esteticamente revolucionários surgem demarcados da produção que era feita na altura.

Em 1980 temos o “reencontro” entre o cinema e o que é o seu objectivo: contar histórias. O 9º Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz foi o palco deste

“reencontro” e aí foram exibidos, entre outros, “Kilas o Mau da Fita” de José Fonseca e Costa (primeiro grande sucesso de bilheteira do cinema português do pós 25 de Abril),

“Manhã Submersa” de Lauro António e “Oxalá” de António Pedro Vasconcelos.

Os filmes referidos têm algum sucesso na reconciliação do cinema português com o público, sucesso esse que é reforçado com “O Lugar do Morto” de António Pedro Vasconcelos (que ultrapassa a barreira dos 300 000 espectadores) e com a

“Balada da Praia dos Cães” de José Fonseca e Costa baseado no best-seller de José Cardoso Pires (nesta altura surge a moda de recorrer a best-sellers de sucesso na tentativa de conquistar o público). Outro exemplo de sucesso de bilheteira é “Duma Vez Por Todas” do jovem Joaquim de Leitão que aposta numa direcção diferente do

7 Ferreira, Manuel Cintra (2002), Cinema Português: as excepções e as regras, pág. 303

habitual, filme de “género”, que na década seguinte é muito imitado (em “A Sombra dos Abutres” de Leonel Vieira).

Figura 3:

“O Lugar do Morto” de António Pedro Vasconcelos (em

http://www.cinemaportugues.net/cinema/filmes )

Da mesma geração temos realizadores que optam por uma via mais pessoal, entre os quais se encontram João Botelho (“Tempos Difíceis”) e João Mário Grilo (“O Processo do Rei”). No limite, temos um realizador que envereda por um caminho ainda mais pessoal, João César Monteiro, que alcança um inesperado sucesso junto ao público com o seu filme “Recordações da Casa Amarela”, onde pela primeira vez surge o personagem por ele encarnado, João de Deus (que está presente em alguns dos seus mais importantes filmes, “A Comédia de Deus” e “As Bodas de Deus”) e mais recentemente entrou no desafio solipsista do ecrã negro em “Branca de Neve”.

Manoel de Oliveira permanece na vanguarda com “Le Soulier de Satin”, um film fleuve. Reina uma paz e rotina que se assemelha à vivida nos anos 40, mas esta fase tem uma duração curta.

2.1.4 – Cinema e as Mudanças Tecnológicas

Os anos 90 são caracterizados por grandes transformações no audiovisual, que conduziram a mudanças quer no nível do estilo dos realizadores mais modernos para chegarem ao público através de modelos de televisão (“Corte de Cabelo” de Joaquim Sapinho), quer ao nível da utilização dos suportes materiais e alianças entre câmaras de vídeo, de cinema e digitais. As transformações que ocorrem vão ter também impacto na produção, que é apoiada, em grande parte, por subsídios estatais.

Figura 4:

“Corte de Cabelo” de Joaquim Sapinho (em http://www.cinemaportugues.net/cinema/filmes)

É aqui que surgem opiniões divergentes: uns defendem que se deve ter em atenção às “especificidades” do cinema português enquanto que outros defendem um cinema numa vertente mais comercial. Esta divergência deve-se, em parte, às transformações ocorridas com o aparecimento das televisões privadas e o seu apoio a filmes abertamente comerciais (“Adão e Eva” de Joaquim Leitão, “Zona J” de Leonel Vieira e “Jaime” de António Pedro Vasconcelos).

Esta diferença é também visível ao nível da produção. Tino Navarro representa uma “corrente” comercial com Joaquim Leitão (“Inferno”) e Luís Filipe Rocha (“Camarate”) enquanto que Paulo Branco representa uma “corrente” mais pessoal e intelectual com Manoel de Oliveira (“Vale Abraão” e “Viagem ao Princípio do Mundo”).

Dentro, ou fora, destas “correntes” surge uma nova geração proveniente da Escola de Cinema, que já conta com reconhecimento internacional como é o caso de Teresa Villaverde (“Os Mutantes”) ou Pedro Costa (“Ossos”).

Podemos dizer que Portugal foi um dos países pioneiros no que toca a cinema.

No entanto a situação foi-se alterando com o passar do tempo sendo vários os factores que contribuíram para tal. O regime que vigorou em Portugal até 1974 condicionou fortemente a evolução do cinema português, sendo as suas marcas ainda visíveis nos dias de hoje “nomeadamente na ansiedade de tentar criar uma indústria de cinema”8 num país onde ela praticamente nunca existiu.

8 in http://www.amordeperdicao.pt

2.2 – O Cinema e a Sociedade Portuguesa

Durante o século XIX, Portugal atrasa-se em relação às economias do Norte e Centro da Europa, onde decorreu a Revolução Industrial. Ao longo da primeira metade do século XX não se constatou uma significativa recuperação do atraso acumulado com o passar dos anos. Com a II Guerra Mundial, o panorama alterou-se e de 1950 a 1973, entrou-se pela primeira vez desde o começo da Revolução Industrial, numa fase de crescimento económico rápido e sustentado, sendo considerados os “anos gloriosos”.

Quadro 1 – Taxas de crescimento médio anual do PIB, da população e do PIB per capita (%) em Portugal

PIB População PIBpc

1900-1913 0.5 0.7 -0.3

1913-1919 -1.7 0.2 -1.9

1919-1929 4.6 1 3.5

1929-1939 2.3 1.3 0.9

1939-1946 2 0.9 1

1946-1950 3.4 1 2.4

1950-1960 3.7 0.4 3.3

1960-1973 6.4 -0.2 6.7

1973-1980 3.4 1.8 1.6

1980-1990 3.6 0.1 3.5

1990-2000 2.7 0.1 2.7

Fonte: PIB; População: Madisson (1995) e European Economy, nº699

A partir de 1974, verificou-se um abrandamento do crescimento económico tanto em Portugal como em toda a Europa passando, a partir dai, a ser irregular.

9 in Lopes, José da Silva , Panorama da cultura portuguesa do século XX, pág. 276

O crescimento económico conduziu a profundas alterações na estrutura sectorial da produção e do emprego: à medida que o PIBpc aumenta o sector primário perde peso relativo; o sector secundário aumenta nas fases iniciais do desenvolvimento, estabiliza nas fases intermédias e decai quando se atingem elevados níveis de rendimento per capita; por último, o sector terceário vê o seu peso aumentar tanto a nível de produção como de emprego.

A nível da indústria verifica-se uma elevada percentagem de produção e emprego em indústrias pouco sofisticadas (vestuário, calçado), cuja competitividade assenta em baixos salários. A modernização da estrutura industrial dependeu essencialmente de investimentos estrangeiros.

No início dos anos 80 os serviços já dominavam grande parte da produção e de emprego, caminhando para uma crescente tercearização. O crescimento económico e progresso tecnológico contribuíram para transformações profundas nos modos de vida e nas estruturas sociais, verificou-se um forte alargamento da classe média e conduziu a uma melhoria das condições de vida:

Aumento da duração média de vida Gráfico 1 – Evolução da esperança de

vida à nascença

O aumento da esperança média de vida resulta essencialmente da redução da taxa de mortalidade infantil, que é um reflexo da melhoria das condições de higiene, educação e acessos a cuidados de saúde.

Alteração da estrutura familiar

Durante o século XX, verificou-se um progressivo aumento da população envelhecida e as famílias tornaram-se mais pequenas, uma vez que os filhos deixaram de representar ganhos económicos, e passam a representar encargos ao nível de educação e subsistência. Constata-se também um aumento das mulheres na vida activa que em combinação com os métodos anticoncepcionais conduz a uma redução da taxa de natalidade.

Maior aposta na educação

No século XIX, Portugal apresentava um grande atraso ao nível da educação, grande parte da população era analfabeta. “A reconhecida importância que se atribui ao capital humano, como factor do crescimento económico, leva a concluir que as melhorias educacionais contribuíram significativamente para o aumento da produtividade e para e subida da produção” 10.

No entanto todo o esforço ao nível educacional, desenvolvido ao longo do século XX, revelou-se insuficiente, colocando Portugal muito aquém da Europa, no que respeita a educação.

Evolução do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

O IDH é uma medida resumo do desenvolvimento humano. Mede a realização média de um país em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, medida pela esperança de vida à nascença; conhecimento, medido pela taxa de alfabetização de adultos (com ponderação de dois terços) e pela taxa de escolarização bruta combinada do primário, secundário e superior (com ponderação de um terço); um nível de vida digno, medido pelo PIBpc (dólares PPC).

10 Lopes, José da Silva, Panorama da cultura portuguesa do século XX, pág. 298

Gráfico 3 – Evolução do Índice de Desenvolvimento Humano Português

1975 1980 1985 1990 1995 2000

IDH

Fonte: Adaptado de Relatório do Desenvolvimento Humano 2002

A relação directa que existe entre o IDH e a satisfação das necessidades fundamentais da população permite-nos verificar que, ao longo da segunda metade do século XX, o IDH português tentou aproximar-se da média europeia, no entanto os resultados ainda ficam aquém do desejável.

Crescente urbanização

Este fenómeno resulta fundamentalmente do aumento do peso da indústria e serviços na actividade económica, em detrimento da agricultura. A urbanização foi acompanhada por múltiplas vantagens (maior oferta de bens e serviços, facilidade no acesso à educação e cuidados de saúde), mas existe também o “reverso da medalha”

(poluição, congestionamentos e stress).

Alteração da estrutura de consumo

Ao longo do século XX verifica-se uma alteração da estrutura de consumo, reduzindo-se a despesa em necessidades básica e aumentando a despesa em conforto do lar, cuidados de saúde e educação, divertimentos ou cultura.

Só a alteração das condições de vida da população portuguesa, resultante do crescimento económico e progresso tecnológico verificado ao longo do último século, permitiu a evolução da sociedade portuguesa abrindo-lhe novos horizontes.

O cinema é um exemplo bem claro disso. Em 1896 um ano após a primeira sessão dos irmãos Lumière, Aurélio da Paz dos Reis apresenta no Porto os primeiros filmes nacionais, mas é apenas a partir de 1920-1930 que as “gentes” da cultura começam a dar ao cinema alguma atenção.

O cinema Português foi evoluindo gradualmente ao longo dos tempos, no entanto o regime salazarista acabaria por condicionar a criatividade e o gosto, premiando aqueles que davam mais garantias de fidelidade ideológica aos valores do regime. Em 1974 volta-se a verificar um grande interesse pelo cinema, apesar de se constatar nesses mesmos anos uma difusão maciça da televisão (que entrara em funcionamento em 1957). Tal fenómeno resulta de uma vontade grande de ver o que havia sido silenciado pelo regime, traduzindo-se numa alteração significativa do número de espectadores que evoluíram de 27 971 milhares em 1970 para 41 593 milhares em 1975.

Quadro 2 – Evolução quantitativa de alguns indicadores do cinema em Portugal

Ano Recintos Sessões Espectadores (milhares)

Receitas (106 contos)

1935 47 2 064 558 ND

1940 208 35 948 11 236 ND

1945 354 56 202 20 437 ND

1950 448 64 871 20 567 ND

1955 435 74 965 25 850 ND

1960 437 79 606 26 588 ND

1965 449 83 247 25 123 0.22

1970 540 101 933 27 971 0.3

1975 537 135 858 41 593 0.71

1980 423 170 965 30 761 1.59

1985 379 185 092 18 984 3.05

1990 276 171 687 10 273 3.89

1995 241 145 846 7 397 3.708

2000 226 419 695 17 915 60 251(1) (1) em 103 euros

Fonte: INE

Apesar da frequência de espectadores às salas de cinema ter evoluído ao longo dos anos esta encontra-se fortemente pelo facto dos espectadores saberem ler, note-se que em 1960 um terço da população11 portuguesa era analfabeta. Desta forma, a proibição das dobragens dos filmes, impede muitas pessoas de verem filmes estrangeiros e, além disso, leva a que quando se ouvisse português num filme nacional, este se revele estranho para o público. Deste modo, dado o baixo nível de instrução da população portuguesa, a obrigatoriedade de legendagem influencia negativamente tanto os filmes estrangeiros como os nacionais.

Convém denotar que o aumento do rendimento da população foi o grande responsável pela evolução da frequência de cinema, uma vez que só a partir do momento em que a população vê satisfeitas as suas necessidades básicas é que esta se preocupa com satisfação de outras necessidades (cultura, lazer,...).

A redução número de filhos, provocada pela entrada da mulher na vida activa e crescente preocupação com a satisfação de (quase) todas as necessidades dos filhos, e o aumento do período de vida, associado a um aumento do rendimento, “criam” as condições necessárias para que as crianças/jovens e idosos sejam o público do cinema de amanhã.

A crescente urbanização, conduzindo a grandes aglomerados de pessoas, permitiu que surgissem complexos comerciais junto ás grandes metrópoles que tem como um dos grandes atractivos novas salas-estúdio de cinema – as chamadas

“multiplex”, onde se tem vindo a verificar um aumento dos espectadores de cinema em geral.

11 in http://www.amordeperdicao.pt

2.3 – O Cinema Português e o Cinema no Mundo

O sector do cinema, em Portugal, encontra-se subdesenvolvido quando comparado com os parceiros europeus, além disso, sofre de significativas restrições.

Portugal tem um menor número de ecrãs e a mais baixa taxa de espectadores per capita na União Europeia assim como as mais baixas receitas de bilheteira para filmes nacionais.

Quadro 3 – Total de espectadores, em milhões, na União Europeia (1997-2002).

País 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2002/2001

AT – Austria 13,7 15,2 15,0 16,3 18,8 19,3 2,6%

BE – Bélgica 22,1 25,4 21,9 23,5 23,5 22,8 -3,0%

DE – Alemanha 143,1 148,9 149,0 152,5 177,9 163,9 -7,9%

DK – Dinamarca 10,8 11,0 10,9 10,7 11,9 12,9 8,3%

ES – Espanha 107,1 119,9 131,3 135,4 146,8 140,7 -4,1%

FI – Finlândia 5,9 6,4 7,0 7,1 6,5 7,7 18,5%

FR – França 148,9 170,1 153,6 165,5 185,8 185,1 -0,4%

GB – Reino Unido 139,3 135,4 139,5 142,5 155,9 176,0 12,9%

GR – Grécia 11,6 12,4 13,0 13,5 13,5 _ _

IE – Irlanda 11,5 12,4 12,4 14,9 15,9 17,3 8,8%

IT – Itália 102,8 118,4 103,5 103,4 110,0 112,0 1,8%

LU – Luxemburgo 1,2 1,4 1,3 1,4 1,4 1,4 1,6%

NL – Países baixos 18,9 20,1 18,6 21,6 23,9 24,0 0,4%

PT – Portugal 13,5 14,5 15,2 19.00 _ _ _

SE – Suécia 15,2 15,8 16,0 17,0 18,1 18,3 1,1%

EUR15 766 827 808 844 929 933 0,5%

Os dados em itálico são estimativas.

Fonte : Observatório Europeu de Audiovisual

No que respeita a Portugal, e de acordo com os dados disponíveis no quadro, podemos dizer que segue a tendência europeia de crescimento. Apesar de continuar a ter os níveis mais baixos, verificou um acréscimo de espectadores de 1997 a 2000, não se encontrando disponíveis dados para os anos seguintes. No entanto, de acordo com os dados previsionais para 2002 deparamo-nos com um decréscimo de espectadores nomeadamente na Bélgica, Alemanha, Espanha e França.

Dados os factos, a União Europeia considera que “a indústria global é dominada pelos estúdios norte-americanos” e que “nenhum mercado nacional europeu tem dimensão suficiente para fornecer a si mesmo uma única produção, diversificada e de qualidade”12. Por essa, entre outras razões, os responsáveis pelos institutos de cinema dos estados membros decidiram manter o actual sistema de subsídios ao cinema e audiovisual, criado em 2001, até ao final do ano de 2009. Deste modo assiste-se a uma tentativa de atenuar o domínio do cinema norte-americano e potenciar a visibilidade do cinema europeu.

Esta foi a forma encontrada para “combater” o crescimento da quota de mercado dos filmes com origem nos EUA que são exibidos nas salas europeias.

Gráfico 4 – Origem dos filmes exibidos na União Europeia (2002)

Resto do Mundo Alemanha França Reino Unido Itália Resto Europa EUA

Fonte: Adaptado do Observatório Europeu de Audiovisual

12 in http://www.amordeperdicao.pt

De acordo com os dados provisórios do Observatório Europeu Audiovisual 2002, a quota de mercado de filmes com origem norte-americana na Europa atingiu em 2002 os 71,2% o que representa um aumento significativo face aos 65,4% de 2001.13 Um peso cada vez mais dominante, bem reflectido nas tabelas dos 10 maiores sucessos de bilheteiras.

Na lista dos 10 filmes mais vistos na Europa, apenas os dois últimos lugares da tabela são de origem europeia ou participada. Com origem francesa, “Astérix e Obélix, missão Cleópatra” foi o filme europeu mais visto com 19.6 milhões de espectadores, deixando para último lugar o mais recente episódio de 007, “Die Another Day” – produção britânica, mas participada também pelos EUA – com apenas 18.6 milhões.

O mais visto foi “Harry Potter e a Câmara dos Segredos” com mais de 39 milhões de espectadores, seguido de “Spriderman”, com 29.8 milhões e a primeira parte da saga de “O Senhor dos Anéis”, com 28.7 milhões. 14

“No que diz respeito à penetração de filmes europeus nos EUA, a quota também sofreu uma descida. Em 2001, «um ano extraordinariamente positivo», esta foi de 5,7%, para cair para os 4,7% em 2002”. 15

As estimativas da consultora Informa Media Group divulgadas pelo OBERCOM (Observatório da Comunicação), mostram que a frequência de cinema diminuiu 3,8%

em 2003. Prevê-se que este decréscimo tenha por consequência uma diminuição de 2,6% nas receitas de bilheteira, que corresponde a um montante de 20.084 milhões de euros.

Quadro 4 – Espectadores na União Europeia (1999-2003), em milhões.

1999 2000 2001 2002 2003 2003/2002 Fonte

Dinamarca 10,92 10,69 11,92 12,91 12,50 -3,2% DFI

13 no quadro A (anexo I), onde consta a quota de mercado dos filmes distribuídos na União Europeia (1996-2002)

14 no quadro B (anexo I), que respeita aos espectadores de filmes distribuídos na União Europeia em 2002

15 in http://www.amordeperdicao.pt

França 153,57 165,53 187,06 184,46 174,19 -5,6% CNC

Alemanha 149,00 152,50 177,90 163,90 149,00 -9,1% FFA

Irlanda 12,45 14,89 15,94 17,30 17,40 0,6% CSA

Itália 103,48 103,37 109,97 111,49 109,33 -1,9% SIAE/ANICA

Espanha 131,35 135,39 146,81 140,72 136,55 -3,0% ICAA

Suécia 15,98 16,98 18,10 18,30 18,18 -0,7% SFI

Reino

Unido 139,06 142,51 155,91 175,90 167,30 -4,9% CAA

Total EU15 809,7 843,2 931,1 936,4 890,5 -4,9% OBS Os dados em itálico são estimativas.

Fonte: Observatório Europeu de Audiovisual

Relativamente ao número de bilhetes vendidos, as quebras mais acentuadas registaram-se na Europa (-5,4%) e na América do Norte (-5%). No entanto a variação nas receitas de bilheteira não acompanha esses valores: na América do Norte, a quebra foi apenas de 4,1%, o que significa que um aumento no preço médio mais acentuado na primeira região.

Este estudo, com projecções a sete anos, prevê um aumento ligeiro na frequência de cinema entre 2003 e 2010 que conduzirá a um aumento bastante significativo (14,2%) nas receitas de bilheteira. Esta disparidade prende-se com a expansão dos multiplexes e com o valor mais elevado cobrado nestes recintos pelo bilhete de cinema, comparativamente com os recintos tradicionais. 16

16 in http://www.amordeperdicao.pt

Todos os cenários deixam transparecer o domínio do cinema americano. Tal tendência é também verificada em Portugal, uma vez que o cinema americano detém uma quota significativa no total de filmes exibidos.

Quadro 5 – Número de exibições por países de origem

1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002

Países Europeus 407 033 16 123 22 860 20 452 57 877 42 477 31 152 41 798

Portugal 2 313 5 877 4 946 8 029 14 920 9 812 5 005 7 460

Reino Unido 9 885 3 912 10 050 6 647 14 942 14 474 4 805 6 345

França 4 397 2 141 3 610 2 323 11 867 6 577 12 098 17 598

Itália 1 913 3 494 2 685 2 355 8 848 2 444 1 637 2 150

Outros 1 125 699 1 569 1 098 7 300 9 170 7 607 8 245

Co-Produções n.d. n.d. n.d. n.d. 4 264 2 632 3 121 5 972 Portugal/Países Europeus n.d. n.d. n.d. n.d. 615 710 682 659

Portugal/Países Lusófonos n.d. n.d. n.d. n.d. 1 244 77 141 77

Outras Co-Produções n.d. n.d. n.d. n.d. 2 405 1 854 2 298 5 236

Estados Unidos da América 121 366 174 923 249 020 287 946 95 571 370 720 404 714 434 606

Outros Países 4 013 3 125 4 476 2 983 6 377 4 204 11 362 22 392

TOTAL 145 012 194 171 276 356 311 381 464 089 420 033 450 349 504 768 Fonte: Adaptado INE

Por outro lado verifica-se um esforço crescente em desenvolver e dar a conhecer o cinema português ao mundo. Tal facto está patente no acréscimo de filmes de produção nacional e co-produção minoritários estreados nas salas portuguesas de 1993 a 2003.

Gráfico 5 – Estreia Comercial de Filmes Nacionais

0 5 10 15 20

1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003

Longas Metragens de Ficção Curtas Metragens de Ficção Documentários Animação Fonte: Adaptado do ICAM e INE

No sentido de acompanhar o ritmo do cinema mundial, o Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), enviou para a Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas a candidatura portuguesa para o melhor filme em língua estrangeira.

De acordo com os regulamentos da Academia Americana, foi escolhida no conjunto das longas metragens portuguesas entre 1 de Novembro de 2002 e 30 de Setembro de 2003, a longa metragem de ficção “Um Filme Falado”, realizado por Manoel de Oliveira.

3 – O Estado do Cinema Português

3.1 – A actual indústria cinematográfica

3.1.1 – Produção

Portugal é um pequeno país no qual dificilmente se pode falar de um mercado, especialmente no que respeita ao cinema. É praticamente impossível que um produtor e/ou investidor obtenha retorno do seu investimento tendo disponível apenas o mercado nacional. É aí que o governo assume um papel importante, estimulando o desenvolvimento, através da concessão de subsídios.17

Portugal é um pequeno país no qual dificilmente se pode falar de um mercado, especialmente no que respeita ao cinema. É praticamente impossível que um produtor e/ou investidor obtenha retorno do seu investimento tendo disponível apenas o mercado nacional. É aí que o governo assume um papel importante, estimulando o desenvolvimento, através da concessão de subsídios.17