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A fé desenvolvida no AA, funciona, gerando a recuperação do alcoólatra e o livramento de seu mal. Uma das maneiras de expressão desta experiência é a construção da marca temporal “antes” e “depois”; um tempo de infelicidade, e outro de felicidade; um

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fora da Irmandade, outro como membro desta comunidade, onde veríamos a expressão da espiritualidade em ação. Durante as reuniões de recuperação, por exemplo, isto é marcado pela expressão inicial de que se está agora feliz, através do agradecimento ao Poder

Superior, porque agora se trabalharia, se teria família, sempre contrapondo este momento com o de suas experiências como alcoólatras, invariavelmente infelizes e sem realizações a apresentar.

“[...] Hoje sou um homem mais feliz, tenho problemas, mas são problemas de saúde. Ainda há pouco, uns dois meses atrás, eu tive problemas com a minha saúde, na forma de uma hérnia, mas também a minha mãe que estava doente, apareceu nela um nódulo que podia ser maligno. Eu fiquei desesperado e por muito pouco não procurei o álcool pra tentar esquecer essa desgraça, porque a minha mãe é o único tesouro que me restou nesta vida. Meu pai já faleceu de uma doença parecida, o médico disse: olhe, leve ele. Dê os remédios, mas ele só tem dois meses de vida. Eu não disse prá meu pai o quê o médico tinha dito, quarenta e cinco dias depois o meu pai morreu. Então eu já havia decidido que se fosse o mesmo caso, eu faria a mesma coisa. Não contaria prá minha mãe, mas graças ao Poder Superior, não foi assim e ela está em tratamento. E graças ao AA por estar do meu lado, pois senão, não teria forças pra enfrentar tudo isso, porque por outros motivos já não estou mais com minha família. Então minha mãe foi o único tesouro que me restou.”88

Ele agora já como membro dos Alcoólicos Anônimos é, portanto, um homem mais feliz, isto graças ao Poder Superior, graças ao AA. Aqui a identificação entre AA e Poder

Superior é forte, podendo um substituir o outro, ou como no caso, vir junto. Se antes uma situação como esta, de desespero e insegurança, o levaria a procurar a bebida alcoólica, detentora que é de sua própria rede de suporte, o apoio hoje virá através da participação na Irmandade e em seu poder superior em atender aos apelos de seus adeptos.

“[...] Antes eu era de confusão, ainda há pouco eu passei por uma. Eu estava trabalhando, aí nesse parque89 e um coroa assim me deu um tapão nas costas que eu até voei. Um cara enorme parecia um armário, o braço quase da minha grossura, que sou magro, né? Um companheiro disse: cara não vai fazer nada. Eu disse: não se preocupa que não bateu na

88 João, reunião de recuperação, em 28/10/2004.

89 Nesta data havia um parque de diversões, um arraial no pátio da igreja onde se localiza o grupo, naquela

noite. É época do Círio de Nazaré, realizado em outubro aqui em Belém (PA). O Círio corresponde à procissão de maneira estrita, porém acontecem na cidade diversos outros eventos relacionados e por certo período, nas paróquias católicas, a promoção de atividades ligadas a esta festa, tais como parques de diversões, “arraiais”, onde há jogos, brinquedos, comidas típicas e muitas vezes bebidas alcoólicas. Sobre o assunto, consultar: ALVES, Isidoro. O Carnaval Devoto: um estudo sobre a festa de Nazaré, em Belém. Petrópolis, Editora Vozes, 1980.

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minha face, por aí. Ele ia estar se costurando até agora, porque eu ia cortar ele todinho. Mas graças a Deus estou no AA, e o Poder Superior está. [...].”90

Se antes o sujeito tinha como características a considerada valentia e a coragem para desafiar seus agressores ou inimigos, agora será portador de espiritualidade e não mais agiria com o quê é repassado na Irmandade como beligerância e violência, típicas que seriam do alcoólatra seu status anterior, porém note-se, não sem antes deixar claro que o potencial de ação permanece, mas não será utilizado. Considerado, agora como controle e não covardia, permite a manutenção dos padrões de masculinidade nos demais grupos e espaços onde circula.

A ameaça de “recair” e apresentar as características anteriores à participação e aprendizado na Irmandade é presença constante e seu controle será então valorizado enquanto manifestação de espiritualidade, oposta à insanidade do “antes”.

“[...] Eu era muito beligerante, mas até hoje com vinte anos de sobriedade e recuperação, ainda recaí na insanidade, nos problemas de caráter. Trabalho na feira e um caboclo chegou e me vendeu dez sacos de macaxeira. Dois dias depois eu tava jogando fora macaxeira podre, a minha velha me dizia: não se esquenta! Deixa pra lá! E eu respondia: tudo bem, não vou fazer nada, só não quero ver ele na minha frente [...].”91

E continua:

“[...] já na feira eu estava trabalhando e o tal apareceu. Eu então fui lá cumprimentei o dito cujo com um aperto de mãos e disse: muito obrigado pela safadeza. E o tal: não, eu estou mal que aconteceu isso. E eu estou mais pelo meu prejuízo. Daí ele disse que não sabia, que não sabia. Mas daí, se ele mesmo quebrou uma macaxeira na minha frente pra mostrar que estava boa, aquelas que ele quebrou estavam e ele sabia, mas o resto [...] Queria então devolver o dinheiro, dar um dinheiro pra mim e eu recusei. Recusei, ficou pra lá, mas se fosse antes. Será que comecei a aprender a espiritualidade de AA? Pode ser [...].”92

Se fosse “antes” seria diferente, pois este não seria espiritual como agora, por isso a pergunta voltada para si e para os companheiros na reunião: “será que comecei a aprender a

90 João, reunião de recuperação, em 28/10/2004. 91 Zacarias, reunião de recuperação, em 28/10/2004. 92 Idem.

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espiritualidade do AA?” A reposta seria sim, pois antes manifestaria um comportamento considerado como agressivo e insano, agora que é parte da Irmandade, considera-se sua recusa em reivindicar a reparação pela ação prejudicial do fornecedor, considerada como atributo do aprendizado da espiritualidade, descrita através do “antes” (insanidade, agressividade, por exemplo) e do “depois” (espiritualidade, serenidade93 e sabedoria), agente de manifestação do Poder Superior.