4.1 The Sopranos (1999–2007)
4.1.1 O anti-herói Tony Soprano
Em The Sopranos, Tony é um chefe mafioso que organiza e gerencia o crime organizado de sua região (tráfico de drogas, contrabando de mercadorias, agiotagem, extorsão, etc.), o que impacta em seu meio social, promovendo mudanças — geralmente em proveito próprio e da família. Seus dilemas e contradições oscilam entre a busca por controlar sua raiva e ímpetos imorais e ser um bom pai de família e amigo. Ao passo que pode ser um homem afetuoso, protetor e que demonstra compaixão, pode também ser um ferino chefe e ardiloso negociante que faz de tudo para ser bem-sucedido nos negócios e conquistar o que deseja. Tony não demonstra culpa em relação a suas atitudes criminosas. Para ele, os fins justificam os meios. É necessário ser rico e bem-sucedido nos negócios e conquistar admiração para obter satisfação e felicidade, mesmo que momentâneas, acredita.
Ele é um visionário em sua área, que enxerga além dos outros e prospera nos negócios. É também um bom líder, que não se importa de “meter a mão na massa” quando necessário. Sua autenticidade e modo de vida o levam a transgredir leis e ordens éticas, e isso incita questionamentos e reflexões entre ele e sua terapeuta e na sua relação com o outro, com o mundo.
Tony tem sua primeira aparição no seriado em uma sessão de psicanálise. Homem de meia idade, bem vestido, de calça e camisa com cores sóbrias, está ali a contragosto. De origem italiana e família conservadora, considera que pedir ajuda ou fazer análise é algo criticável, “digno de loucos, fracos ou mulheres”. Pouco a pouco ele começa a falar de si, de seus sentimentos, de suas relações sociais e preocupações. Seu semblante demonstra força, potência, domínio, segurança, certeza, nostalgia e, ao mesmo
tempo, tristeza, desânimo, desgosto. É um homem poderoso, que domina a máfia em Nova Jersey. Seu modo de ser e de vestir, discreto, elegante, silencioso, condiz com suas práticas.
Figura 2: Tony Soprano, homem de negócios.
Fonte: <independent.ie>.
Esse Tony imperioso e potente na análise, nos negócios e na rua, contrasta com o Tony patriarca preocupado com familiares e amigos. Sai de sua mansão todos os dias, de roupão branco felpudo, para coletar o jornal e ter o seu ritual matinal: tomar café com esposa e filhos, dar conselhos e broncas, bajular ou discutir. No ambiente familiar, Tony se veste de forma mais desleixada e casual.
Figura 3: Tony Soprano, patriarca.
Seu modo de ser e até de se vestir revela um homem cindido em dois: o patriarca afetuoso e preocupado, de roupão felpudo e roupas casuais e o homem poderoso, de terno e bem vestido, que, sem escrúpulos e com violência, comanda o crime organizado em Nova Jersey.
Apesar de nunca ter ido à Itália, quando nos é apresentado, Tony é extremamente bairrista: preocupa-se com a “sua gente”, os italianos e ítalo- estadunidenses que habitam a vizinhança. É orgulhoso e solidário com “seu povo”. É preconceituoso com negros, homossexuais e mulheres. Representa o típico homem heterossexual branco e provedor da família. Reproduz estereótipos sem refletir sobre estes.
Entra em conflito com a filha, Meadow, ao descobrir que seu namorado é negro, chegando a ofender pessoalmente o rapaz, pedindo que se afaste dela. Ao descobrir que Vito, um importante capitão, foi pego em um clube gay e abandonou sua esposa, a primeira atitude demonstrada por Tony é a de dar cabo à vida de Vito. No entanto, ao reencontrá-lo, Tony se mostra compreensivo à situação, afirma que “até o perdoaria” por ser gay e ter traído sua esposa, mas que essa decisão não dependia só dele, mas da família. Obviamente, Tony estava mais preocupado com os negócios, pois Vito era um capitão que rendia muitos lucros à família.
Tony é extremamente machista e dominador, querendo sustentar e controlar todas as “suas” mulheres: esposa, filha, mãe, irmã, amantes e mulheres de amigos mafiosos que ficaram viúvas. Preocupa-se com elas e sente-se na obrigação de prover tudo o que necessitam, pois, na sua perspectiva, julga-as fracas e dependentes dele.
Sua trajetória no seriado é marcada pelos contrastes de um ser cindido em dois, com posicionamentos morais diversos. O Tony pai, marido, amigo, carinhoso, afetuoso e preocupado com o bem-estar dos “seus”, um patriarca;
versus o Tony chefe do crime organizado, um homem capaz de tudo pelos seus
negócios e pelo lucro, que provém sustento e luxo a todos que ama, mas que também pode ferir e matar quem ama, caso interfira negativamente nos negócios da família ou o traia.
No momento da trama em que fica em coma, após ser baleado pelo próprio tio (Junior), Tony tem sonhos levando outra vida, como um homem
normal, com família para sustentar e tentando ganhar a vida como vendedor. Ao acordar e em recuperação, ele parece diferente, arrependido da vida que levara até então, e grato a todos que o apoiaram. No entanto, pouco a pouco ele vai cedendo novamente a seus impulsos imorais: assassina o seu amigo e braço direito (Chris), já cansado das crises dele com drogas e de seus deslizes nos negócios.
Em recuperação após o coma, enfraquecido e sendo preservado e cuidado pela família, Tony começa a se sentir fraco perante seus parceiros e tem a sensação de estar perdendo o seu poder de controle. Diante disso, ele provoca uma briga com seu segurança, na frente de todos os seus capitães, e o espanca, para demonstrar que, mesmo em recuperação após o coma, ele ainda possui força e poder.
Muitas vezes Tony percebe suas atitudes e posicionamentos imorais, questiona-se e parece tentar mudar. Contudo, sua busca por poder e dinheiro acaba imperando: ter o controle dos outros, das situações e ter muito dinheiro significam para ele sucesso e garantia de uma vida boa.