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O anticlericalismo finissecular e os seus protagonistas

2. A Questão Religiosa: temporalidade inesgotável

2.10 O anticlericalismo finissecular e os seus protagonistas

O possível diálogo entre a militância laica e católica deteriorava-se com a ligação progressiva dos opositores ao laicismo a sectores mais conservadores da sociedade, que culminaria na rutura em 1911 (Catroga, 1988: 147). O retrato nacional, na viragem do século, era de um país “falhado, reme- tido para uma periferia cada vez mais acentuada, potência colonial menor, tolerada pelas concorrentes exatamente devido à sua relativa irrelevância e incapacidade” (Guinote, 2014: 25). Parte da geração que acredita nessa realidade de falhanço interno e de mediocridade exterior pretende reverter o quadro nacional através de políticas pragmáticas que passam por uma promessa republicana que utilizará a crise finissecular para concretização e implantação do seu movimento, tornando um acontecimento da esfera externa para o cenário de colapso da política interna. Parte da opinião pública acreditava que para os “monárquicos os interesses partidários sobrepunham-se amiúde ao interesse nacional” (Teixeira, 1990: 85). Para Guinote (2014), a agitação política e social arrastar-se-ia desde Ultimatum de 1890 até aos confrontos bélicos da 2.ª Grande Guerra. A luta antimonárquica, incrementada com o conflito diplomático com os britânicos, acabou criando uma narrativa republicana que associava o rei e os partidos a ameaça estrangeira ao território nacional, incrementado pela degradação do sistema político. O incidente foi o “acontecimento mais considerável desde as invasões napoleónicas” (Teles, 1968: 81) e acabaram por intensificar a apetência dos católicos sobre a problemática social com obje- tivo de intervirem, mais ativamente, nas questões sociais. Enquanto a imprensa católica alegava que os danos aos interesses coletivos do país seriam prejudicados pela propaganda protestante nas coló- nias, que comprometia a coesão do reino (Ferreira, 1994: 39), destacava-se a necessidade da força missionária, de matriz congregacionista, para essa ação unificadora.

Segundo Oliveira Marques (1978), defender a república no final do século era, em muitas situações, assumir uma posição “contra a monarquia, contra a Igreja e os jesuítas” (p. 128). A socie- dade fragmentada e bipolarizada, que emergia com o novo século, espelhava um divórcio entre os setores “progressita, republicano, laico e pequeno burguês e mesmo socialista” e um lado “conserva- dor, monárquico, clerical e protocapitalista” (Guinote, 2014: 36), sem que essas fações fossem de constituição uniforme. Se a ciência foi um dos principais pilares de apoio da construção da ideologia laicista, o cientismo constituiu-se como o seu motor nas últimas décadas do século (Catroga, 1988:

227 Em 1917, acabará por originar, a partir do movimento juvenil desencadeado, o Centro Católico Português, constitu- indo-se como a primeira força com assento no parlamento português. Em 1928, Salazar chegaria ao poder através dele (CRUZ, 1980: 269).

35).

A instrução escolar foi outro campo de ataque anticlerical, face ao poder que a Igreja detinha no ensino. A perceção republicana, que ligava o atraso educacional228 ao elo entre a Igreja e o Estado,

passava por anular a influência clerical “(e dos valores que ela representava) [que] só seria eliminada com a imposição da escola gratuita, obrigatória e laica” (Catroga, 1988: 207). O contributo, direto ou indireto, de cursos com carácter técnico nas Escolas Médico Cirúrgicas e nas Escolas Politécnicas, sem desconsiderar o papel da Faculdade de Direito e de Letras na disseminação do ideário laicista, serviu para aguçar a efervescência de uma cultura que acaba por reivindicar a positividade e a ciência (Catroga, 1988: 149-150).

A Universidade de Coimbra continuava a ser uma instituição com vários ritos ligados ao ca- tolicismo, alguns reforçados com a reforma pombalina e outros pressionados pelos franciscanos: era realizado um juramento religioso no ato de matrícula; os exames eram precedidos de uma oração; existia uma capela católica, onde era conferido o grau de licenciado; os doutoramentos eram prece- didos de uma missa; a indumentária dos lentes e dos estudantes tinha génese eclesiástica e a padroeira da Universidade, desde 1646, era N. S. da Conceição229. Essa ligação, entre a universidade e a Igreja,

acabou provocando alguns atritos com os estudantes e lentes que almejavam uma instituição laica230.

Outra ameaça ao poder da Igreja era a franco-maçonaria. Nessa sociedade os objetivos, o obscurantismo e o secretismo eram considerados, pela Igreja, incompatíveis com a fé católica, mesmo existindo elementos do clero que eram mações, mas cujos membros mais radicais incitam à persegui- ção. No cenário pós-guerra civil, as estruturas maçónicas assumem o encargo de “maturação do sis- tema que se pode visualizar, mais tarde, na estruturação das formações partidárias” (Oliveira, 2009: 68). Essa organização, que operava como a “principal organização que se opunha à Igreja” (Marques, 1991: 491), liderou a maioria das manifestações de carácter anticlerical e de livres-pensadores do período finissecular. Segundo Catroga (2010), o Grande Oriente Lusitano Unido, fundado em 1869, distanciou-se das “sequelas dos acontecimentos ligados ao Ultimatum”, mas registando “uma politi- zação crescente” após a formação do governo Hintze-Franco231 (pp. 98-99). O grande confronto entre

228“Em 1900 existiam 74%, em Portugal, de analfabetos com idade superior a 7 anos” (GUINOTE, 2014: 40). Marques (2014), refere que a população continental possuía 78% de analfabetos, enquanto que as ilhas adjacentes apresentavam uma percentagem de 85,2% (p. 904). Na sessão parlamentar de 8 de agosto de 1908, o visconde de Vila Mora denunciava: “que seja de 70 ou 63 a percentagem dos analfabetos, é patente sempre a vergonha da instrução portuguesa, pelo desca- labro que inculca” (p. 7). Cf. Diário da Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa, n.º 60 de 8 de agosto de 1908).

229 O decreto de 24 de dezembro de 1901, que reformou os estatutos da Universidade, reafirmou a devoção (Collecção Official da Legislação Portuguesa… 1902: 1156-1178).

230 Nas vésperas da república, em 1909, um estudante que se recusou a proferir a oração antes do exame acabou expulso da avaliação (CATROGA, 1988: 571-572). Segundo Rodrigues (1993), a universidade, na atualidade, continua a celebrar a solenidade da Imaculada Conceição e, diariamente, o capelão universitário reza missa na capela (p. 160).

a maçonaria e a Igreja foi iniciado durante o papado de Pio IX. A cúria romana acusava os mações pelos prejuízos impostos como consequência da questão romana, acabando por gerar um contra-ata- que (Franco, 2014: 508-509).

Em 1891, os republicanos tinham executado as linhas programáticas que davam destaque a

questão religiosa e incluíam a defesa da separação entre um Estado laico e as confissões, num con- texto internacional em que as políticas secularizadoras e laicistas contribuíam para alimentar o debate nacional. Parte do seu programa oficial, em 1891 e que vigoraria ainda em 1910, incluía a seculari- zação da vida pública (Ramos, 2001: 356). O cenário português estava agravado pela luta crescente da militância laica, protagonizada por vários atores, mas um republicano, lente de direito aos 25 anos, demonstrou grande força e protagonismo, sendo recordado como um dos políticos portugueses que “mais paixões e ódios despertou de forma duradoura” (Guinote, 2014: 11). Detentor de uma ascensão política meteórica, fazendo uma carreira política rápida e brilhante (Ferreira, 2002, v. 2: 207), Afonso Augusto da Costa, ingressou no parlamento português em 1900 e no dia 19 de junho já tinha sugerido a substituição da Monarquia pela República: “o povo português carece [de] substituir, sem demora, as atuais instituições políticas por outras diversas, de feição republicana”232. A sua obra era um reflexo

da progressão crítica do anticlericalismo (Catroga, 1988: 499).

As propostas republicanas baseavam-se na narrativa caracterizada pela ameaça congregacio- nista, e sobretudo jesuíta, ao ideal de uma nação forte e moderna. Na última década do século a intolerância congregacionista cresceu com a morte da jovem Sara Pereira Pinto de Matos233, noviça

no mosteiro das Trinas, a 23 de julho de 1891. O debate tornava-se virulento pelas suspeitas de abuso de um padre jesuíta e do posterior envenenamento da jovem, induzido por uma religiosa da sua con- gregação, que acabou condenada por homicídio involuntário. A campanha da imprensa em torno do incidente acabou despertando grande comoção, o que soube ser aproveitado por estruturas laicistas como a Associação Promotora do Registo Civil e a Associação do Livre-Pensamento, que ganham pujança com o estouro da bolha anticlerical234. As romarias anuais ao seu túmulo incentivavam um

culto à memória de luta contra a opressão clerical que a sua morte representava e despertando o debate sobre as congregações235, eram organizadas pelos Círios Civis. Para reforçar a contestação, vários

exonerado em 1897. A 25 de junho de 1900 tomou posse novamente, na liderança do governo que esteve em funções até outubro de 1904. A 20 de março de 1906, pela terceira vez, tomou posse num curto que governo que antecedeu o governo de João Franco, iniciado a 19 de maio.

232 Diário da Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa, n.º 91 de 19 de junho de 1900: 8. 233 Cf. o artigo de Reis (2014: 531-538).

234 Regista-se, igualmente, a atuação maçónica no “incremento do culto socialista à jovem Sara Matos” (CATROGA, 2010: 99).

235 Silva (2014) indica que, em 1890, registavam-se 200 religiosas doroteias e 400 hospitaleiras, de acordo com os núme- ros registados por GRAINHA, M. Borges (1891), A propósito do Caso das Trinas. Os jesuítas e as congregações religi- osas em Portugal nos últimos trinta anos, Porto, Typographia da Empresa Literária e Typográfica, pp. 25-26.

congressos anticlericais236 também se incluíam na batalha ideológica.

Seguindo a política de execução de teatros comemorativos, 1892 serviu para assinalar home- nagens ao centenário do nascimento de Joaquim António de Aguiar, tido como um dos estadistas representativos e ovacionados pela militância laica. Outra temática anticlerical finissecular foram as confissões e o celibato eclesiástico, uma questão recorrente na literatura oitocentista237. Muitas obras

literárias e peças vão ser utilizadas, e farão uso, por escritores que lançavam críticas aos hábitos cle- ricais e ao carácter anacrónico da instituição religiosa, indicando que os setores citadinos mais cultos tinham sido contaminados por um perfil anticlerical mais humorístico238.