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5 AS LUTAS POLÍTICAS NO CAMPO POLÍTICO PARANAENSE NA

5.6 O ANTICOMUNISMO NA POLÍTICA PARANAENSE E SUAS

5.6 O ANTICOMUNISMO NA POLÍTICA PARANAENSE E SUAS

MANIFESTAÇÕES NOS SUBCAMPOS POLÍTICOS

O anticomunismo no campo político paranaense no contexto do golpe de 1964

manifesta-se principalmente através da rotulação das mobilizações populares

consideradas em sua maioria como “subversivas” e através das reformas de base

propostas pelo governo federal que ameaçavam os interesses do empresariado associado

ao capital multinacional e latifundiários, temerosos de uma democracia inclusiva que

levasse em consideração na sua política econômica a distribuição mais equitativa das

riquezas incluindo nos seus projetos as demandas das classes populares do campo e da

cidade.

O ideário anticomunista estava fortemente evidente na sociedade paranaense e

curitibana das décadas de 1950 e 1960. Beatriz Wosniak Gimenéz (2003) indica que a

sociedade curitibana vivia sobre o espectro da modernidade, mas tal processo não foi

imune das contradições sociais de pauperização, violência e exclusão. Os conflitos

sociais desse período como a Guerra do Pente, os levantes agrários do Norte e do

Sudoeste e reinvindicações populares nos campos e nas cidades foram negadas ou

invisibilizadas pelas elites dominantes, que eram produtoras da representação de que a

“ordem”, a “harmonia” e a “disciplina” prevaleciam na sociedade paranaense e

curitibana. Todas as manifestações que contradissessem a esse imaginário, como as

atuações de movimentos de trabalhadores urbanos, camponeses, estudantes, entre

outros, eram associadas às infiltrações comunistas (GIMENÉZ, 2003, p.108). O

anticomunismo, portanto, não tinha como alvo apenas o Partido Comunista, e atingia

múltiplos movimentos reivindicatórios.

Parcelas significativas da Igreja Católica, do empresariado e da classe política

disseminavam a indústria do medo em relação à essa ideologia “estranha” e inadequadas

aos valores “ocidentais-cristãos de sociedade” (GIMENÉZ, 2003, p.78). O imaginário

anticomunista foi intensificado pelos cursos da Escola Superior de Guerra, frequentados

por parcelas das elites econômicas curitibanas (GIMENÉZ, 2003, p.118).

Ney Braga e seu grupo político adotavam práticas modernas de governo, que

favoreciam a ação do capital transnacionalizado, ao desenvolvimento do capitalismo

local atrelado ao Estado, políticas de infraestrutura, etc. Para Ney Braga, assim como a

ideologia da Segurança Nacional, a promoção do desenvolvimento era a melhor forma

de combater ao comunismo e as possíveis rebeliões sociais, sendo que este modelo de

desenvolvimento não previa o espaço para as grandes mobilizações de massa, pois as

mesmas eram negadas. No Paraná, estado “ordeiro”, não havia a “desordem” e a

“subversão”. Todas as manifestações populares eram assim rotuladas por parcelas

significativas da elite política paranaense, muitas vezes negando-se a existência de

problemas sociais. A Doutrina da Segurança Nacional pregava que qualquer debate ou

manifestação colocaria em risco a “ordem” e a segurança da nação, seria necessária

combatê-las, pois as mesmas seriam exógenas ao próprio “bem comum”, que só previa

um caminho ao desenvolvimento, sendo as Forças Armadas as guardiãs desta “ordem”.

Várias lideranças civis que tiveram contato com estas doutrinas militares através das

escolas de formação ou cursos promovidos pela Escola Superior de Guerra, tiveram em

seus habitus políticos a grande influência da doutrina anticomunista, que marcou

parcelas significativas do Exército e se disseminou com a colaboração de importantes

setores da sociedade como o empresariado brasileiro, muitas vezes associado ao

capitalismo internacional, os grandes latifundiários, temerosos quanto uma política

efetiva de reforma agrária, parcelas da Igreja Católica, entre outros agentes e

instituições.

O apoio de Ney Braga ao governo federal durante o ano de 1963 foi

enfraquecendo, na medida em que os meses passavam e o presidente se aproximava

cada vez mais das demandas dos setores populares e sindicais. Ao mesmo tempo em

que era o presidente nacional de uma agremiação reformista e promovesse um projeto

de reformas no governo do estado, Ney Braga demonstrava a adesão de outro tipo de

reformismo que não estava necessariamente de acordo com o que vinha acontecendo no

Brasil. Seu reformismo é antes de tudo, anticomunista, e isto fará com que Ney Braga

lute politicamente com setores reformistas não anticomunistas dentro do PDC, como

veremos adiante. O anticomunismo está presente entre membros do grupo político de

Ney Braga e o próprio governador, sempre temeroso quanto ao “perigo” comunista. Ney

Braga estava na Escola Militar do Realengo na ocasião em que o Levante Comunista de

1935 foi desencadeado nos quartéis. Ele recebeu uma formação que repudiava tal

episódio, considerado como uma “afronta” devido a insubordinação dentro do próprio

Exército, conforme o visto no primeiro capítulo.

A grande maioria da Seção da UDN no Paraná também manifestava receios em

relação aos caminhos reformistas defendidos pelo governo federal, especialmente no

tocante à reforma agrária. O anticomunismo da UDN estava atrelado as suas críticas ao

reformismo promovido pelo governo de João Goulart. A legenda organizou comícios

contra a alteração na Constituição para a reforma agrária, com a presença do senador

Adolpho Oliveira Franco e dos deputados estaduais Justino Alves Pereira, Haroldo

Leon Peres e Paulo Poli. O primeiro deles foi em Maringá (DIÁRIO DO PARANÁ,

Polinotas- Comícios, 01 jun.1963, p.3). Estes comícios se estenderam pelas cidades de

Rio Negro, Lapa, Ponta Grossa. Os deputados estaduais com discursos mais inflamados

dessa legenda eram Haroldo Leon Peres e Rubens Requião. Juntamente com parcelas da

Igreja Católica, representadas pelo arcebispo de Curitiba Dom Manoel da Silveira

D‟Elboux, deputados como Rubens Requião se declaravam contrários à alteração da

Constituição de 1946 para a realização da reforma, rejeitando a emenda proposta pelo

deputado federal pedecista Plínio de Arruda Sampaio, de São Paulo (DIÁRIO DO

PARANÁ, Assembléia Legislativa: Plenário dá seu apoio à reforma agrária com

alteração da Constituição, 22 mai.1963, p.3).

Com a nomeação de Amaury de Oliveira e Silva para o Ministério do Trabalho,

medidas reformistas como a defesa da promoção da reforma agrária e da sindicalização

rural propostas pelo governo e Ministério do Trabalho foram constantemente criticadas

pela UDN. Estas críticas eram atreladas ao discurso anticomunista, não só no caso do

sindicalismo rural, como também urbano, conforme o visto na seção anterior. No

Paraná, verificou-se o alto número de sindicatos rurais reconhecidos pelo Ministério, a

maior parte deles comunistas, o que foi alvo de críticas por parte da oposição. O

udenista Haroldo Leon Peres, por exemplo, acusava a existência de “subversão” nos

sindicatos rurais do Paraná (DIÁRIO DO PARANÁ, “Assembléia Legislativa: Peres

acusa Ministério do Trabalho de proteger sindicatos comunistas” 30 mai. 1963, p.3).

Outro deputado estadual da UDN, Túlio Vargas, também criticava As práticas de

Amaury Silva a frente do Ministério. Na ocasião do aniversário da Frente Agrária no

Paraná, manifestando seu repúdio às supostas irregularidades praticadas pelo Ministério

do Trabalho no tocante ao reconhecimento dos sindicatos rurais, que discriminariam os

sindicatos fundados pela Frente Agrária (DIÁRIO DO PARANÁ, Assembléia

Legislativa- Líder da UDN anuncia CPI para apurar irregularidades no registro de

sindicatos, 14 ago.1963, p.3).

Não apenas a UDN criticava a gestão de Amaury Silva a frente do Ministério do

Trabalho. A Igreja Católica de Maringá, tendo como seu porta-voz o seu bispo, Dom

Jayme Luiz Coelho também repudiava a “infiltração comunista” nos sindicatos, sendo

apoiada por deputados como Edgard Távora, do PRP (DIÁRIO DO PARANÁ,

Assembléia Legislativa, Sindicatos: Interpelada a DRT sôbre “discriminações” nos seus

reconhecimentos, 20 ago. 1963, p.3).

A unidade partidária do PSD repousava na sua ideologia anti-reformista,

especialmente no tocante às mudanças constitucionais em prol da reforma agrária

(DIÁRIO DO PARANÁ, Divisionismo no PSD paranaense não afeta concordância

contra reforma constitucional, 12 mai.1963, p.3).

Em síntese, o anticomunismo era atrelado a algumas reformas de base propostas

por João Goulart, que sofreram pesadas críticas da oposição, inclusive no Paraná. Havia

diferentes projetos de reformas em disputa, cada um com interesses de classe

envolvidos no interior das propostas. Este intenso debate proporcionou a ascensão de

grupos que foram incluídos na arena de lutas políticas, como as organizações dos

trabalhadores urbanos e rurais, que desagradaram as classes dominantes (latifundiários,

burguesia nacional e associada) e seus representantes, que queriam manter a sua

dominação exclusiva, e também se sentiam incomodadas com a suposta “desordem” que

as reinvindicações populares promoviam.

Todo esse acirramento ideológico e de classe que ocorreu no Brasil e no Paraná

terão como consequência a instalação da ditadura militar a partir de abril de 1964. Esta

mudança influenciará decisivamente os rumos da política nacional e paranaense,

conforme veremos nos próximos capítulos.

6 AS LUTAS ENTRE OS AGENTES E SUBCAMPOS DA POLÍTICA