Capítulo II O pivô de informação
2.1. O aparecimento e a influência da televisão
Antes da televisão, a rádio. Antes do pivô, o locutor. No que toca à informação, e tal como no resto do mundo, até ao aparecimento dos noticiários televisivos, as notícias eram ouvidas na rádio e lidas nos jornais. Antes de uma definição e concretização da função do pivô, é preciso explicar e demonstrar qual o percurso do meio televisivo até ao nascimento do anchor. Os desenvolvimentos tecnológicos começaram no século XIX, com a descoberta e aperfeiçoamento do cabo catódico, mas só a partir das décadas 20 e 30 é que se começaram a dar os primeiros passos para aquela que viria a ser conhecida como a “caixa que mudou o mundo” (Wolton, 2000, p. 5). Nos Estados Unidos, a CBS – Columbia Broadcast System – é fundada em 1927 e, em Inglaterra, a BBC – British Broadcasting Corporation – é fundada em 1932, tornando-se na primeira televisão europeia. Em Portugal, a RTP nasce em 1957.
As pessoas, que ainda não sabiam o que era o ato de ver televisão – tal realidade ainda não existia – começam a habituar-se a essa ideia. De ter um televisor, um objeto ao qual passam dar atenção, estando numa posição de destaque na casa das pessoas. Começa a surgir uma nova forma de olhar e ver o mundo, através de um ecrã. A televisão convida-nos a entrar no seu mundo; através da imagem, somos interpelados de uma forma nunca antes vista, fazendo-nos viajar (Mateus, 2012) e criando, ainda, uma espécie de barulho mediático. Umberto Eco (1985, p. 34 apud Mateus, 2012, p. 236) vai ao encontro desta ideia da mediatização, referindo que a nova forma de ver televisão “é o sinal triunfante do acesso direto, egocêntrico e mágico. Vós sois nós, vós podeis fazer parte do espetáculo. O mundo de que a televisão é a relação entre nós e vós. O resto é silêncio”. Na verdade, a televisão conseguiu essa capacidade de chegar a tudo e todos.
Foi nos Estados Unidos que assistimos ao surgimento dos primeiros talk-shows22
e noticiários23. Não será arriscado afirmar que a cultura da televisão começou na
América. É claro, portanto, que o resto do mundo seguiu o exemplo das big three (CBS,
22 O The Tonight Show, que ainda hoje é transmitido, muitas vezes líder de audiências no seu segmento,
surge na NBC, em 1954.
23 O primeiro noticiário é criado pela NBC, em 1938, e transmitido em direto. Contudo, a primeira
emissão regular de um noticiário dá-se em 1948, na CBS, CBS Television News, apresentado por Douglas Edwards. O noticiário mudou para o atual nome, CBS Evening News, em 1962, com a entrada do mais reconhecido pivô: Walter Cronkite, que lá permaneceu até à sua reforma, em 1988 (26 anos). (Meltzer, 2010).
32 Columbia Broadcast System; NBC, National Broadcasting Company; e ABC, American Broadcasting Company), não só no entretenimento, como no jornalismo televisivo. É importante, também, realçar o ano de 1980, quando o primeiro canal de notícias 24 horas por dia surge pelas mãos de Ted Turner, a CNN – Cable News Network. Apesar de mais à frente se abordar a questão, não convém esquecer que foram os americanos os inventores do pivô, através do surgimento do anchorman.24
Em Portugal, a RTP começou a dar os primeiros passos em setembro de 1956, com a primeira emissão regular e oficial a ter início a 7 de Março de 1957 (Teves, 2007), num contexto de ditadura. Por esse motivo, e até à transição democrática, a RTP não era mais do que “o principal porta-voz da política totalitária dos dois ditadores do Estado Novo” (Cádima, 1999, p. 31) ou, nas palavras de Eduardo Cintra Torres (2011, pp. 48-49) um “megafone do regime salazarista-marcelista” com uma “visão pastoral”. Apesar da data de 1957, só em 1968 é que a emissão se dá a para todo o país 25. Também nos finais
dos anos 60, concretamente em 1969, surge o Zip-Zip, um programa apresentado por três ícones da comunicação: Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado. Este talk-show de variedades era em direto. Por isso, mas não só, Eduardo Cintra Torres (2011, p. 50) considera-o “uma pequena revolução comunicacional”. A seguir ao 25 de abril de 1974, e consequente nacionalização, observa-se uma acentuação do entretenimento. Seguindo a ordem lógica de décadas, também proposta por Vasco Hogan Teves em RTP
50 anos de história: 1957-2007, chegamos aos anos 70 e ao vigésimo aniversário, em
1977, com dois marcos: a primeira emissão de uma telenovela e o primeiro concurso televisivo. Respetivamente, a brasileira Gabriela, de Jorge Amado, e A Visita da Cornélia. Em 1980, assiste-se à estreia da primeira telenovela portuguesa, Vila Faia, e, talvez mais importante, começa a emissão a cores. No que toca à telenovela, estamos perante a primeira incursão na ficção nacional, a seguir ao monopólio das telenovelas brasileiras26.
24 De acordo com Mike Conway, em The Origins of Televison News in America: the Visualizers of CBS in
the 1940’s, a primeira vez que foi usado o termo anchor man, terá sido para descrever John Cameron
Swayze, o apresentador de um concurso televisivo, Who Said That?, em 1948. Artigo da autoria de Mike Conway, professor na Universidade do Indiana, nos EUA. Investigação disponível em:
http://newsinfo.iu.edu/news-archive/23212.html [Acedido a 15-07-2017].
25 Também em 1968 surge a RTP2.
26 A SIC apostou em novelas brasileiras durante quase toda a sua existência. Nasce em 1992, mas só em
2001, para fazer frente à TVI, é que aposta na ficção nacional com Ganância, ainda que de forma tímida. Na verdade, e apesar da SIC ter investido gradualmente ao longo do tempo na ficção nacional, só 10 anos mais tarde é que consegue fazer frente à TVI nas audiências com a estreia de Laços de Sangue, em
33 Podemos afirmar que o gosto e a cultura de ver e acompanhar uma novela surgem aqui, mas que a TVI, a partir de 2000, veio acentuar de forma estrondosa. À parte o sucesso da ficção nacional, no tempo em que a RTP detinha a hegemonia televisiva, e depois do sucesso da primeira telenovela brasileira, “o serviço público de televisão da RTP foi aumentando a exibição anual de telenovelas nos seus dois canais, à média de três a quatro telenovelas por ano” (Costa, 2003, p. 32).
Nos anos 80, o panorama audiovisual português, mas também europeu, ameaça mudar com os primeiros rascunhos para os canais privados. “Foi o tempo de abertura a canais privados”, sublinha Eduardo Cintra Torres (Torres, 2011, p. 52). Francisco Rui Cádima vai ao encontro do crítico e professor universitário, ao referir a segunda revisão constitucional de 1989, que abre caminho ao fim do domínio estatal e à abertura ao privado do setor televisivo (1999, p. 32). Com efeito, a 6 de outubro de 1992 surge a SIC – Sociedade Independente de Comunicação; e, a 20 de fevereiro de 1993, a TVI – Televisão Independente.
2010 e Rosa Fogo, em 2011. Laços de Sangue venceu o segundo Emmy Internacional na categoria de melhor telenovela para Portugal em 2011. O primeiro Emmy para uma novela portuguesa foi atribuído um ano antes à novela Meu Amor, da TVI.
34