instalações, do objecto ao contexto
Capítulo 2 O que é a ‘instalação’?
2.1 O aparecimento e uso do termo ‘instalação’
Embora o aparecimento e desenvolvimento das obras que podem ser incluídas na ca- tegoria da instalação seja um fenómeno geograficamente mais abrangente, o termo ‘instala- ção’, em si, parece ter sido criado e difundido por via anglo-saxónica. É pela mão de autores ingleses e norte-americanos que, na década de 1990, surgem os primeiros livros dedicados ao tema e utilizando essa designação: Installation Art,210 em 1994, e From Margin to Center: The Spaces of Installation Art,211em 1999.
Não obstante, o termo instalação era já utilizado no mundo artístico, embora com um propósito diferente daquele que mais tarde viria a predominar. De acordo com Claire Bishop, este começa a ser utilizado pelas revistas de arte na década de 1960, para descrever o arranjo das obras numa dada exposição. A documentação fotográfica deste arranjo recebia o nome de installation shot ou installation view.212
A pesquisa pelos termos ‘installation’ e ‘art’ nos arquivos do jornal The New York Times213é disto reveladora, demonstrando a predominância da utilização de ‘installation’, no sentido anteriormente descrito, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Sobretudo a partir da década de 1980 (embora a utilização anterior não desapareça) começam a surgir artigos nos quais esta denominação é utilizada como referência a determinadas obras e, de certa forma,
208 Ver nota 205.
209 Ver nota 55.
210 Nicolas de Oliveira et al., Installation Art (Londres: Thames & Hudson, 1994).
211 Julie Reiss, From Margins to Center: The Spaces of Installation Art. (Londres: MIT Press, 1999). 212 Claire Bishop, Installation Art: A Critical History (Londres: Tate Publishing, 2005).
como categoria. Disso é exemplo, entre outros, o artigo publicado por Roberta Smith, no qual utiliza o termo instalação para se referir às obras produzidas no âmbito da chamada Arte Po- vera, movimento desenvolvido em Itália, entre as décadas de 1960 e 1970.214
Isto remete para uma particularidade do termo ‘instalação’: o facto de a sua utilização não coincidir temporalmente com a época em que surge o tipo de obras que actualmente de- signa, sendo com frequência utilizado retroactivamente.215 Muitas das obras das décadas de 1960 e 1970 às quais actualmente chamamos instalações, teriam outra designação aquando da sua criação. Embora se verificasse uma certa liberdade e variedade na categorização das obras por parte dos artistas, a designação ‘environment’ (ambiente), herdada das experiências de Allan Kaprow, no final dos anos de 1950, seria predominante.216
Quando e porquê o termo ‘instalação’ substituiu ‘environment’ são questões pouco claras. Depois de um período de coexistência, parece ter sido na década de 1990 que a desig- nação ‘instalação’ se “oficializou” substituindo definitivamente a de ‘environment’. Isto se, tal como Julie Reiss, tivermos em consideração que o termo instalação surge pela primeira vez no The Oxford Dictionary of Art em 1988217 e que, no The Art Index, a expressão instala- ção remete para environment até ao volume 42 (Novembro 1993 - Outubro 1994) a partir do qual ‘environment’ desaparece e ‘instalação’ surge com uma lista de artigos própria.218
Este cenário de indefinição terminológica justifica o comentário de Nicolas de Olivei- ra que em entrevista declara: «In 1989, everyone was denying there was such a thing as ‘ins-
214 Nas palavras da autora: «Arte Povera, the unusually elegant and poetic installation art that emerged in Italy in the late 1960's and early 70's.». Roberta Smith, “Review/Art; Arte Povera Installations: Engineering and Alchemy,” The New York Times, 20 de Maio, 1988, http://www.nytimes.com/1988/05/20/arts/review-art-arte- povera-installations-engineering-and-alchemy.html.
215 Como referem Julie Reiss [From Margins to Center: The Spaces of Installation Art. (Londres: MIT Press, 1999)] e Marga van Mechelen [“Experience and Conceptualization of Installation Art,”].
216 Nicolas de Oliveira et al., Installation Art.
217 The Oxford Dictionary of Art, ed. Ian Chilvers and Harold Osborne, Oxford: Oxford University Press, 1988, 253.
tallation’».219
Em conjunto com Nicola Oxley e Michael Petry, Nicolas de Oliveira dirige o Mu- seum of Installation, em Londres, de 1990 a 2005.220 Apesar do seu nome, este espaço funci- onou como uma galeria (e não um museu) dedicada a projectos temporários no âmbito da instalação. Explicando a escolha do nome da institução, Oliveira afirma: «We wanted to le- gitimize and enshrine that name [installation] - and provide a kind of credibility by coupling it to the word ‘museum.’».221 Em 1994, Oliveira, Oxley e Petry publicam o livro Installation Art que, como vimos anteriormente, foi o primeiro dedicado exclusivamente a este assunto e utilizando esta designação.
Quer a acção do grupo ligado ao Museum of Installation tenha contribuído significa- tivamente, ou não, para essa situação, certo é que a partir da década de 1990 o termo ‘instala- ção’ se vulgariza.
Esta é também a época que vários autores associam à ascensão da popularidade da instalação que passa de uma forma de produção artística marginal para um lugar de relevo no panorama artístico internacional.222 Roberta Smith chega mesmo a afirmar em 1993: «These days installation art seems to be everybody's favorite medium. (…) Big shows like Documen- ta and the Carnegie International are overrun with it. It is present in unprecedented quantities in museums…».223
Esta situação poderá justificar o crescimento do número de publicações sobre o tema a partir do final da década de 1990, com especial concentração a partir de 2000. Para além
219 R. J. Preece, “Museum of Installation, London,” Sculpture Magazine 20, no. 2 (2001): 10–11. 220 Para saber mais sobre o projecto ver Preece, ibid.
221 Ibid.
222 Entre os quais Julie Reiss [From Margins to Center] Oliveira, Oxley e Petry [Installation Art in the New
Millennium: The Empire of the Senses (Londres: Thames & Hudson, 2003)] ou Coulter-Smith [Deconstructing Installation Art. Southampton: CASIAD Publishing, 2006, http://www.installationart.net/, consultado a 30/1/2016.
223 Roberta Smith, “In Installation Art, a Bit of the Spoiled Brat,” New York Times, 3 de Janeiro, 1993, http://www.nytimes.com/1993/01/03/arts/art-view-in-installation-art-a-bit-of-the-spoiled-
das publicações já mencionadas surgem: Space, Site, Intervention - Situating Installation Art;224 Installation Art in the New Millennium: The Empire of the Senses;225 Understanding Installation Art: from Duchamp to Holzer;226 Ästhetik der Installation, editado em inglês em 2012;227 Installation Art: A Critical History;228 Deconstructing Installation Art; Installation Art in Close-Up;229 A History of Installation and the Development of New Art Forms230e Art Actuel et Installation.231 A estas publicações junta-se uma edição do Oxford Art Journal dedi- cada ao tema (nº24, 2001). A consistência e profundidade teórica deste conjunto varia signi- ficativamente.
Note-se ainda que o aparecimento destas publicações não significa que seja esta a primeira vez que se fala teoricamente de instalações. O que se verifica é sobretudo o desen- volvimento de um entendimento da instalação enquanto fenómeno em si, por oposição a um estudo mais compartimentalizado, no qual estas obras surgiam enquadradas no percurso de determinados artistas. Esta mudança de perspectiva poderá ter origem no próprio crescimento da popularidade da instalação nos anos de 1990. Como refere Graham Coulter-Smith: «The historical predecessors of contemporary installation are numerous, but not so concentrated as to constitute a ‘movement’ - as became the case in installationism of the 1990s».232 É possível que o aumento da popularidade da instalação tenha favorecido uma visão de conjunto e o seu
224 Erika Suderburg, ed., Space, Site, Intervention - Situating Installation Art (Minneapolis: University of Min- nesota Press, 2000).
225 Nicolas de Oliveira, Nicola Oxley, e Michael Petry, Installation Art in the New Millennium: The Empire of
the Senses (Londres: Thames & Hudson, 2003).
226 Mark Rosenthal, Understanding Installation Art: From Duchamp to Holzer (Munique: Prestel, 2003). 227 Juliane Rebentisch, Aesthetics of Installation Art (Nova Iorque: Sternberg Press, 2012). Primeira edição em alemão, publicada em 2003 pela Suhrkamp Verlag.
228 Claire Bishop, Installation Art: A Critical History (Londres: Tate Publishing, 2005). 229 William Malpas, Installation Art in Close-Up (Reino Unido: Crescent Moon, 2007).
230 Faye Ran, A History of Installation and the Development of New Art Forms: Technology and the Hermeneu-
tics of Time and Space in Modern and Postmodern Art from Cubism to Installation (Nova Iorque: Peter Lang, 2009).
231 Julie Bawin and Jean-Pierre Foulon, eds., Art actuel et Installation (Narmur: Presses Universitaires de Nar- mur, 2010).
232 Graham Coulter-Smith, Deconstructing Installation Art (Southampton: CASIAD Publishing, 2006), www.installationart.net.
entendimento enquanto fenómeno em si mesma. Por outro lado, motivou um esforço de legi- timação desta tipologia artística233 através da procura das suas raízes na História da Arte.