ESQUEMA 4 - Capital cultural como parametrização II
4 O CAPITAL CULTURAL E AS TRAJETÓRIAS DE SUCESSO
4.4 O APORTE DO CAPITAL CULTURAL E O SUCESSO ESCOLAR
As trajetórias de Steller, Falcão e Harpia têm uma característica comum: foram marcadas por uma ruptura, por um evento importante, a partir do qual se apresentou uma mudança em suas trajetórias. Fato que Bourdieu (2001) interpreta como um acontecimento que ao encontrar um habitus suscetível de ser afetado alcançou eficácia. Isto é, os acontecimentos que marcaram as trajetórias de Steller (sua emancipação), Falcão (acidente), Harpia (câncer) só tiveram a repercussão alcançada porque o habitus constituído desses agentes moldou neles a atribuição das causas e forjou ações apropriadas em resposta a essas experiências, podendo superá-las (BOURDIEU, 2001).
Nas trajetórias destes, que a força do habitus produziu superação, o processo de aculturação também revelou um volume aceitável para o ingresso na educação superior. De conformidade com os parâmetros construídos, podemos apontar as seguintes marcas do capital cultural:
Esquema 3 - Capital cultural conforme parametrização
Fonte: Elaboração da autora, 2017.
Na trajetória desses três sobreviventes, o capital cultural adquirido pelas vias da aculturação, chegou de forma mais lenta à trajetória de Harpia, desfavorecendo-a quanto à construção de valores individuais e sociais, e acesso a bens culturais de prestígio e bens tecnológicos para além do smartphone. Ocorrência que encontra respaldo na teoria bourdieusiana que afirma que a lentidão do processo de
STELLER Apresentação de crença em si mesmo para superação das condições objetivas Acesso a bens culturais de prestígio Acesso a bens técnológicos de ponta FALCÃO Apresentação de valores para superação das condições objetivas
Acesso a bens culturais de prestígio
Acesso a bens tecnológicos de ponta
HARPIA
Apresentação de crença para superação das condições objetivas Manifestação de crença religiosa Acesso a bens tecnológicos destinados a comunicação.
aculturação produz diferenças que separam indivíduos aparentemente iguais quanto ao êxito escolar (BOURDIEU, 2014).
As trajetórias de Marcial, Malaia e Cunha têm um ponto de partida similar. Tiveram que aprender na infância a conviver com suas limitações. Sofreram descriminações, rejeição; sofreram por ausência de acessibilidade e de sensibilidade às suas necessidades e demandas.
No entanto, as marcas do capital cultural, produzidas no processo de aculturação, identificadas em suas trajetórias, nos fazem perceber que os meandros de suas narrativas evidenciaram diferenças importantes na apropriação do capital cultural. Diferenças que se justificam se levarmos em conta fatores distintivos e a localização desses sujeitos em substratos de classe diferentes. Marcial tem, na atualidade, uma situação econômica de classe média, enquanto Malaia e Cunha estão localizados em um substrato de classe inferior quanto ao capital econômico.
Esquema 4- Capital cultural conforme parametrização II
Fonte: Elaboração da autora, 2017.
Ao observarmos o esquema acima, podemos identificar que na trajetória de Marcial todos os parâmetros foram identificados em sua completude, enquanto que nas trajetórias de Malaia e Cunha, nem todos foram localizados e alguns foram
MARCIAL
Apresentação de valores e crenças para
superação das condições objetivas Acesso a bens culturais de prestígio Manifestação de crença religiosa Posse de títulos Acesso a bens tecnológicos de ponta MALAIA Apresentação de crenças para superação das condições objetivas Manifetação de crença religiosa Posse de títulos Acesso a bens tecnológicos de ponta CUNHA Apresentação de crença para superação das condições objetivas Manifestação de crença religiosa e tradiçoes Posse de diplomas Acesso a bens tecnologicos destinados a comunicação.
visualizados em caráter parcial. A trajetória de Marcial foi beneficiada por um processo de aculturação mais rápido e por alguns elementos distintivos: nível cultural e escolar dos pais; local de residência; acesso a música; manejo da língua; entre outras experiências de cultura livre que o distingue dos demais pelo desempenho nitidamente superior quanto ao êxito escolar (BOURDIEU, 2014).
Embora Malaia e Cunha apresentem um capital cultural em expansão, e consequentemente uma trajetória escolar incomum e ascendente, o sucesso escolar de Marcial sem que lhe pese a deficiência visual, entre todos os sujeitos da pesquisa, é um sucesso previsto no universo dos possíveis.
Quadro 7 - Disposições constitutivas do habitus
SUJEITO REFERENTE Disposição para o cumprimento de regras e deveres; disposição
para a valorização da escola; disposição de resiliência; disposição de crença positiva na ascensão social; disposição para o exercício de fé e espiritualidade.
HARPIA Disposição para a fluência verbal; disposição para apreciação
dos bens culturais de prestígio; disposição para apreciação literária; disposição para valorização da educação; disposição para utilização de mídias digitais.
FALCÃO Disposição para a fluência verbal; disposição para apreciação e
execução de instrumentos musicais; disposição para desenvolvimento de argumentação crítica e política; disposição para o exercício da fé e espiritualidade; disposição para o comprometimento ético e para solidariedade; disposição para liderança; disposição para utilização competente de instrumentos tecnológicos de comunicação;
MARCIAL
Disposição para adaptação a novos contextos; disposição para emancipação e autonomia; disposição para a liderança, disposição de resiliência; disposição para o investimento no processo acadêmico; disposição para crença em futuro promissor.
STELLER
Disposição para atualização contínua de suas potencialidades; disposição para incremento de estratégias individuais de enfrentamento da realidade objetiva; disposição para investimento no processo educativo; disposição para o exercício da fé e espiritualidade; disposição para a autonomia; disposição para liderança.
MALAIA
Disposição para a aprendizagem; disposição para a resiliência; disposição para a autonomia; disposição para a solidariedade; disposição para valorização da escola; disposição para o trabalho acadêmico; disposição para a vivência de tradições e costumes aprendidos na família; disposição para o exercício da fé e espiritualidade.
CUNHA
Quadro 8 - Identificação e apropriação do capital cultural SUJEITOS APRESENTAÇÃO DE VALORES E CRENÇAS PARA SUPERAÇÃO/ CONFORMAÇÃO DAS CONDIÇÕES OBJETIVAS ACESSO A BENS CULTURAIS DE PRESTÍGIO MANIFESTAÇÕES DE TRADIÇÕES E CRENÇAS RELIGIOSAS POSSE DE DIPLOMAS, CERTIFICADOS, TÍTULOS ACESSO A BENS TECNOLÓGICOS DE PONTA HARPIA PARCIAL NÃO
IDENTIFICADO TOTAL PARCIAL PARCIAL
FALCÃO PARCIAL TOTAL
NÃO
IDENTIFICADO PARCIAL TOTAL
MARCIAL TOTAL TOTAL TOTAL TOTAL TOTAL
STELLER PARCIAL TOTAL
NÃO
IDENTIFICADO PARCIAL TOTAL
MALAIA TOTAL
NÃO
IDENTIFICADO TOTAL PARCIAL PARCIAL
CUNHA TOTAL PARCIAL TOTAL TOTAL PARCIAL
CONSIDERAÇÕES FINAIS
UM BALANÇO DOS APRENDIZADOS GESTADOS NO PERCUSSO INVESTIGATIVO: UM RETORNO AOS OBJETIVOS
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Karl Marx, 2003, p 7.
Bourdieu (2007), ao se referir à trajetória, isto é, a sucessão de posições que um agente vai ocupando no espaço social, diz que “não é ao acaso que os indivíduos se deslocam no espaço social” (BOURDIEU, 2007, p.104). O deslocamento de uma posição a outra, ocorre por força do volume global de capital que esse agente pode contabilizar: capital social, capital cultural, capital simbólico, etc.
A acumulação desses capitais começa a ser favorecida na trajetória de cada agente, desde o nascimento, no processo de socialização primária efetuado pela família. É nele que a criança assimila a sociedade, a realidade objetiva e a identidade, fazendo-se um membro efetivo da sociedade em que está inserido (BERGER e LUCKMANN, 1985). Bem como constrói as habilidades sociais, que a faz apta a formar uma rede de relações sociais desde a infância. Essa rede de relações, quanto mais ampla for, maior será a possibilidade de propiciar o estabelecimento de troca de bens, serviços, apoios e estímulos, puro capital social.
A apuração dos dados de análise das trajetórias revela que o capital social construído por esses agentes tem relação direta com o processo de socialização primária instaurado no âmbito familiar. É nesse processo de socialização que se faz florescer, ou que se recalca um habitus. Marcial e Steller, que tiveram acesso a tratamento especializado, estimulação correta no ambiente familiar e atendimento educacional adequado, desenvolveram um alicerce equivalente ao construído por Falcão e superior ao de Harpia, quando ambos ainda não apresentavam deficiência.
Ao passo que as potencialidades de Malaia e Cunha, recalcadas pela ausência de diagnóstico preciso, de tratamento especializado, de estímulos adequados, promoveram um fechamento dos caminhos das interações sociais desses sujeitos, impedindo que estabelecessem redes relacionais para além da família, que