4.1 Os encontros casuísticos do aprender de professores
4.1.1 O aprender em meio a pessoas e/ou em lugares outros
1- Foi maravilhoso, porque foi fora da escola21
“Eu não tinha idade para ir para o 1º ano e a lei estava muito rígida naquele período.
Eram 7 anos exatos. Eu incomodei muito em casa. Eu queria ir para a escola. Nós formamos um grupo para ser alfabetizado na casa de uma professora e a gente era alfabetizado no jardim. Ela tinha gato, cachorro, flores, então a gente estudava e daqui a pouco estava brincando. Então foi uma coisa assim, eram duas horas de aula por dia e o meu 1º ano foi maravilhoso, porque foi fora da escola. Depois a gente fazia uma avaliação e entrava direto no 2º ano com 7 anos” (Professora 3, Escola D, gravações em áudio).
2- Minha mãe
“Para aprender a tabuada, a minha mãe foi a que mais sofreu para me ensinar, porque eu tinha muita dificuldade. Hoje não mais, pelo jeito que ela ensinou, eles não esquecem mais.
Então ela pegava tudo quanto é coisa. Ela dizia: 3x5. E eu contava nos dedos: 15. Agora 5x3.
E eu não sabia. Ela tinha uma paciência muito grande comigo que fez eu memorizar isso. Até
21 Algumas expressões, para compor os títulos, foram retiradas dos excertos que compõem as memórias dos professores.
hoje, eu posso não saber muita coisa da Matemática, mas a tabuada é uma coisa que eu nunca mais esqueci, da forma com a qual ela explicava para mim” (Professora 1, Escola A, gravações em áudio).
3- Aquele violão
“Então, um dia, quando eu ganhei aquele violão, ele tinha a assinatura do ‘Nosso Amiguinho’. No fundo do livro tinha as notas musicais, e eu pensei: como eu posso aprender sozinha a tocar violão? Simplesmente mostrava como eu podia fazer sozinha. Com muito, muito, muito esforço, eu consegui fazer o Lá, o Ré e o Lá e trocar rápido a posição e o sentido do ritmo. Um dia saiu. Eu consegui tocar a música e eu pensei, mas como? Tinha os pontinhos que mostravam onde eu tinha que colocar o dedo. Eu lia também que iria demorar muito eu trocar o Lá pelo Ré e que aprender duas posições já daria uma melodia. Quando eu aprendi duas, foi muito tempo, eu fui treinando e treinando e consegui. E no outro mês, veio uma música com somente três, com o Lá, Ré, Mi. Eu consegui cantar a música, ‘A Pulga e o Percevejo’, e deu certo. Então, isso, para mim, foi algo que, tocar violão com a leitura e o incentivo, para mim, e aprender sozinha com o tom, deu certo!” (Professora 5, Escola B, gravações em áudio).
4- Na varanda da casa
“Lembro quando estava na primeira série na fase de alfabetização, quando meus pais sentavam diariamente comigo na varanda da casa para me ajudar a ler e a escrever. Foi gratificante o início da alfabetização. Meus pais foram fundamentais neste ciclo inicial. Além disso, recordo que, quando recebia tema de casa, meus pais sempre me incentivaram e me ajudaram” (Professora 9, Escola B, diário de bordo da professora).
5- De um jeito diferente
“Lembro de uma situação em matemática que pedi ajuda a uma colega que tinha facilidade e ela me disse, após uma tarde de estudos, que eu fazia tudo de um jeito diferente, mas sempre alcançava o resultado. Então, que eu sabia, mas o processo era diferente”
(Professora 4, Escola B, diário de bordo da professora).
6- De repente “pufft” eu entendi
“Eu me lembro, quando eu estava na 2ª série, que tinha muita dificuldade na
subtração. Eu lembro que era muito difícil, as contas de mais eram tranquilas. As de menos eu lembro que até descobrir que o zero não valia nada, eu lembro disso, da professora. E eu me lembro de não entender. Uma colega me explicou e aí eu entendi. Eu lembro direitinho disso.
Eu acho que eu passei um tempo, não sei quanto. Agora eu não consigo me lembrar, mas acho que foi assim, uns dias não entendendo a subtração e de repente ‘pufft’ eu entendi”
(Professora 5, Escola B, gravações em áudio).
7- As que menos sabiam
“Atividade com os alunos da memorização das leis na Matemática. Eu deixei eles sentarem em duplas e escolherem as duplas. Para minha surpresa sentou uma que sabia pouco com uma que sabia pouco. As duas que menos sabiam sentaram juntas e o meu objetivo era que eles pudessem se ajudar. Como eu os deixei escolherem as duplas, eu não quis interferir.
Foi um dia que eu acabei vendo o quanto os pares conseguem passar um pouquinho do que eles sabem. Eu já tinha tentado de todas as maneiras com essas duas e não tinha conseguido.
Foi um momento que elas descobriram como funcionavam as leis da multiplicação. Elas escreveram tabelas, a soma de parcelas iguais que eu já tinha trabalhado. Elas não tinham entendido da maneira como eu expliquei. Naquele dia elas descobriram como se fosse algo que tinha caído do céu. Uma coisa que a gente não pensa. Eu acho que foi um dia de muito aprendizado para mim também, porque essa comunicação entre eles é mais rápida do que entre nós. Entre elas foi uma descoberta muito grande. Isso me chamou atenção nesses anos que eu estava com os pequenos em sala de aula, que eu não tinha percebido essa conquista deles” (Professora 5, Escola D, gravações em áudio).
8- Entre raios e trovões
“Aula de filosofia com ‘raios e trovões’. Eu, enquanto professora, ouvi de um aluno, após um grande clarão de um raio: ‘Este é o exemplo mais claro de que a velocidade da luz excede a velocidade do som’. Ao longo de toda a minha vida escolar, especialmente no Ensino Médio, nunca ouvi de um aluno, um exemplo tão vívido para explicar a teoria”
(Professora 8, Escola D, diário de bordo da professora).