3. A LOUCURA, A BIOPOLÍTICA E A ORDEM DO DISCURSO PELO OLHAR DE
3.1. O aprisionamento do sujeito a partir do conceito de loucura
[...] nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que, no entanto, está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar. (FOUCAULT, 1989, p. 65)
Ao adotar o conceito de loucura em seus estudos, Michel Foucault propunha uma reflexão sobre o processo de exclusão dos corpos, ou seja, dos sujeitos loucos, de maneira a denunciar a lógica do afastamento que a sociedade da época tanto estranhava. O recorte temporal que Foucault (2007) se propôs a analisar partiu da Idade Média até a Idade Clássica, justificando o desaparecimento da lepra e a substituição pelo louco como fator de grande preocupação social.
Foucault (2007) não buscava criar um novo conceito para a loucura, mas utilizá- la como uma “ferramenta” para estruturar a compreensão do sujeito louco diante de uma sociedade que criava diferentes maneiras de exclusão. Em suas análises, o autor se concentrou em criticar as formas como a sociedade vivenciava a relação com a loucura e se recusou a relacioná-la com o conceito de patologia mental, uma vez que definia o processo de abandono dos sujeitos loucos em hospitais, casas de correção, como a perda do seu livre exercício de direito por não serem sujeitos racionais.
Tendo como recorte, portanto, da Idade Média (séculos V e XV) até a Idade Moderna (final do século XV até o no século XVIII), Foucault não se propôs a abordar sobre a loucura, mas situá-la nos diferentes momentos dos campos da literatura, da arte, do saber médico, sempre enfatizando os processos de exclusão dos sujeitos que apresentassem qualquer tipo de comportamento que causasse estranhamento aos padrões normais da sociedade. Em sua principal obra, que se dedica a tratar sobre o conceito, História da loucura na Idade Clássica (1961), o autor inicia o seu prefácio com um desejo:
[...] gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível. (FOUCAULT, 2007, p. 6).
Esse trecho, revela, portanto, que o autor não pretendia construir novos conceitos, mas estabelecer inquietações e problematizações entre a ciência e suas funções ideológicas sobre o saber e o poder. No livro Microfísica do Poder (1979), o autor é entrevistado e contextualiza ao leitor as proposições de suas principais obras. Quando questionado sobre o estudo da loucura, o autor revela que o motivo pelo qual o inquietou a iniciar as suas análises, entre os anos de 1950 a 1955, se justificava pela forma escandalosa que o assunto era tratado na época, de maneira que a loucura permanecia cuidadosamente escondida, levando em consideração as limitações epistemológicas da psiquiatria, conforme abordamos no primeiro capítulo relacionado à conceitualização pelo DSM.
Dentre as razões que justificavam Foucault (1989) a tratar sobre o conceito de loucura se relacionava a sua posição frente à ciência historiográfica com a necessidade de tratar o conhecimento científico de forma menos hierarquizada, revelando os efeitos
de poder que a psiquiatria e a medicina exerciam sobre a sociedade, motivo pelo qual o impulsionou, posteriormente, a analisar melhor as formas de penalidade e as instituições de poder. A razão principal, no entanto, que levou o autor a tratar sobre o conceito de loucura se relacionava mais a sua inquietação, frente aos demais intelectuais da segunda metade do século XX que se recusavam a problematizar a reclusão política adotada pela psiquiatria sobre o sujeito louco diante da consolidação da medicina enquanto ciência indagável.
Ao aprofundar os seus estudos sobre o conceito de loucura, Foucault (2007) reconheceu um número variado de significados que desencadeavam reflexões, dentre eles, o da razão. Em suas análises, a loucura desqualificava o homem de sua essência ou suas potencialidades, sendo apenas a razão ou a racionalidade a forma de detenção do poder, da autonomia do sujeito e do seu pleno exercício social.
Para Foucault (2007), a perda da razão, cuja qual está atrelada ao sujeito louco foi retratada pelas artes, tais como na pintura e na literatura, de maneira bastante expressiva, relacionando a razão ao sentimento humano de fugacidade, libertação de seus sentimentos mais profundos e controlados pela sociedade. No contexto literário, Foucault (2007) destacou as contribuições de Cervantes e Shakespeare enquanto disseminadores da relação entre a loucura e a morte, bem como a aproximação da perda da razão com uma paz interior. Com base nesta perda da razão, do reajustamento comportamental, da divisão entre os limites da verdade e da moral, é que o autor complementava a prática do internamento enquanto única fonte de salvação.
Foucault (1970) deixava claro que as análises sobre o conceito de loucura não se justificavam para acrescentar ao saber a origem das doenças, mas como uma forma de revelar a verdade histórica aprisionada na ciência. O autor completa que seus estudos focavam a loucura como um fato social, uma vez que cada cultura atribui o seu juízo de valor ao comportamento dos sujeitos, relacionando o entendimento de normalidade ou razão aos seus padrões históricos.
O conceito de aprisionamento foi incorporado por Foucault (2007) junto ao da loucura para denunciar a condição dos internos de manicômios ou hospitais gerais da Europa Ocidental, dentro do período estudado. Para o autor, o conceito de aprisionamento reforçava a condição dos sujeitos loucos não serem ouvidos ou terem os seus direitos anulados, a partir da exclusão social e da desqualificação entre os jogos de
forças de poder, da razão e dos regimes de verdade da sociedade ocidental. Nesse aspecto, refletimos sobre o conceito de inclusão, abordado no capítulo anterior. O aprisionamento em hospitais seria a forma pela qual as instituições de poder garantiriam o controle total da vida dos sujeitos loucos. Assim como as políticas inclusivistas seriam uma forma de garantir poder total sobre a educação das pessoas com deficiência.
Foucault (2007) destacou que a prática da hospitalização, no período estudado, não revelava uma verdadeira forma institucional de correção dos sujeitos loucos, mas de reduzir a percepção social sobre a loucura enquanto um problema crônico, uma tentativa de censura em busca do equilíbrio.
O estudo do conceito de loucura, em Foucault (1970), ultrapassou o período Renascentista, revelando a desqualificação da linguagem do sujeito, uma vez que a razão se tornava o ponto alto do regime de verdade nas sociedades ocidentais. O autor esclarece que toda sociedade possui um conceito político geral, denominado regime de verdade, produzindo uma regulamentação de poder sobre as pessoas, as formas de convívio, as regras, a partir de um discurso único condicionado como verdadeiro para todos. O autor complementa que este regime de poder é sancionado pelos encarregados na disseminação das verdades e na sanção do que é correto ou não é normal ou anormal. Exemplificamos as instituições políticas, responsáveis pela regulação da ordem social; e as escolas, que pregam o discurso de comportamento e desenvolvimento baseado na produção e força da economia de um país.
Vitimado pelo processo de exclusão, tal como os leprosos e os heréticos, Foucault (2007) revelou que o louco passou, pelas etapas estudadas em suas análises, como um sujeito incapaz de falar verdade, um sujeito comparado às bruxas, aos alquimistas, como na Idade Média. O autor completa que o conceito de loucura, possuía um significado vazio, identificado do final do século XVIII até o início do século XX quando passou a se tornar um quebra-cabeça na sua relação com a doença mental e um desafio na resolução deste universo em que o hospital psiquiátrico era o local de análise do primeiros diagnósticos e classificações do sujeito louco. (FOUCAULT, 1970).
De um lado a ciência que delega ao médico o desafio de entender a loucura, de tentar relacionar com o universo abstrato da doença e do outro lado, o sujeito louco que está aprisionado em sua linguagem, que não se comunica, porque a sua verdade não é a mesma que a dos regimes de poder, portanto, está coagido a conviver sem perspectiva
em condições físicas e morais bem aquém do seu grupo social. Foucault (2007) vai mais além, destaca que a condição da loucura enquanto doença mental, no final do século XVIII, rompia a possibilidade de diálogo do sujeito louco com a sociedade e consequentemente com o médico, restando apenas a arte como válvula de escape para a expressão de sentimentos, desejos, anseios, seja ela na pintura, na escultura ou na literatura.
A tragicidade vivenciada na loucura pelas artes era estabelecida de tal forma que a linguagem era permitida, incentivando o imaginário criativo, desafiando o discurso de verdade da sociedade ocidental. Para Foucault (2007), a loucura encontrava no sujeito uma forma de designar uma verdade que os regimes de poder buscavam apagar. Em resumo, a loucura, para o autor, passou de um estado selvagem, em que a sociedade capturou e a excluiu, de forma a repudiar qualquer comportamento que transgredisse padrões até a Idade Média, para uma loucura presente como fato estético no Renascimento, atravessando até a internação no século XVII e chegando ao século XX enquanto objeto de pesquisa para a ciência. (FOUCAULT, 2014).