1 A VELHA NOVA RETÓRICA
3.1 A invenção dos argumentos
3.1.4 O argumento pelo exemplo e os entimemas
Aristóteles considerava que havia dois tipos de argumento que eram próprios da arte retórica: o argumento pelo exemplo e o entimema. O argumento pelo exemplo seria o equivalente retórico da indução, ao passo que o entimema corresponderia ao silogismo dedutivo. No caso da argumentação às vezes, os exemplos são reais, e outras vezes são fictícios como no caso das alegorias e as fábulas.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) consideram o argumento pelo exemplo como fazendo parte de ligações que fundamentem a estrutura do real. São elas
2 STYRON,William. Referência ao livro: Escolha de Sofia , que conta a história de uma mãe polonesa, filha de pai anti-semita, presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial , forçada por um soldado nazista a escolher um de seus filhos para ser morto.
ligações que não estão baseadas na estrutura em si do real, mas na forma como compreendem a realidade. Dentre as ligações, que fundamentam a estrutura do real, o argumento pelo exemplo faz parte daquelas inferências que concluem por meio do exame de casos particulares. Entre elas distingue-se além do argumento pelo exemplo, a ilustração, o argumento pelo modelo ou anti-modelo, e o argumento que toma o ser perfeito como modelo.
O exemplo a seguir foi retirado do texto de Sant‟Ana
“Prender onde?” O autor Paulo Sant‟Ana, ao referir-se ao número de pessoas que cometem delitos e crimes, diz que faltam presídios. Ao argumentar sobre esse assunto, apresenta o seguinte exemplo: “Mas isso é matemático. Há já hoje no presídio central mais de 4 mil detentos, espaço em que caberiam apenas 700...”(ANEXO F1). Aqui o jornalista usa o caso do presídio central de Porto Alegre para generalizar sobre a situação de todo o sistema carcerário brasileiro.
O argumento pelo exemplo está sujeito a críticas. Como é sabido pode se encontrar exemplos tanto a favor como contra de uma mesma tese. Na argumentação pelo exemplo vê-se o traço típico da argumentação retórica, a saber, a capacidade de argumentar em forma persuasiva tanto a favor com em contra de uma mesma tese. Aliás, a questão da determinação do número e do tipo de exemplos que devem ser considerados para justificar uma tese é um problema de resolução complexo, que faz parte da teoria da inferência estatística.
A argumentação retórica está longe de satisfazer a essas pesadas exigências lógico-epistemológicas. Lembre-se que seu objetivo é persuadir e não provar o que é verdadeiro. Sendo assim, não se pode, entretanto, negar os efeitos persuasivos da argumentação pelo exemplo. O autor se utiliza desse recurso para chamar a atenção sobre a questão penitenciária no Estado, que também mostra um problema social de todo o país. Assim, o exemplo serve como estratégia argumentativa do autor para convencer o público leitor da situação de caos penitenciário, em que se encontra o país.
Em outra coluna “O Feliz”, o jornalista utiliza um exemplo fictício. Assim, ele diz “Uma pessoa miserável, pobre mesmo, daquela cuja miséria é irreversível, não há Bolsa-Família nem SUS que a salve, que, no entanto, não se dá conta de sua realidade, essa pessoa, vejam bem, se sente feliz”. Na verdade aqui se tem além de uma argumentação pelo exemplo, uma argumentação pelo paradoxo (ANEXO G).
No início desta seção foi explicado que, na Retórica ao lado da argumentação pelo exemplo encontra-se também a argumentação através de entimemas. O entimema tem sido definido de duas formas diferentes.
com a sua doutrina do silogismo. Aristóteles pretende resolver os impasses
criados pela simples dicotomia,apresentando um encadeamento que segue uma direção incoercível,rumo a uma conclusão. Com efeito, o silogismo seria um raciocínio no qual, determinadas coisas sendo afirmadas, segue-se inevitalvemente uma outra afirmativa. Assim, partindo-segue-se das premissas expressam “Todos os homens são mortais” e “Sócrates é homem” conclui-se que é mortal (ARISTÓTELES, 1978, p. 15).
Reboul (2004) chama o silogismo empregado pela argumentação cotidiana de entimema diferenciando-se o entimema, do silogismo demonstrativo, porque suas premissas não são proposições evidentes. Entretanto, elas não são arbitrárias, geralmente são endoxa, opiniões razoáveis. O efeito persuasivo do entimema decorre da pressuposição de que o ouvinte já possui um conhecimento sobre o assunto tratado.
Toma-se o exemplo, a fábula do “Lobo e o cordeiro”. O lobo diz ao cordeiro: “ Estás turvando minha água. Que atrevimento!”. A palavra “minha” neste contexto condensa um polissilogismo: turvar o que é meu é atrevimento (sacrilégio), estás turvando a água, á água é minha, logo isso é um atrevimento. Vê-se como nessa fábula o silogismo que é utilizado pela argumentação é um entimema (La FONTAIINE apud por REBOUL, 2004, p.155)
O exemplo e o entimema são provas fornecidas pela inteligência, que tornam efetivamente o discurso retórico mais parecido do discurso demonstrativo.
Entretanto, a demonstração retórica, como se viu, não segue o rigor da lógica formal, pois é concebida numa dimensão comunicativa, voltada e adaptada a um auditório. Passa-se a disposição dos argumentos no próximo item.
Em Reboul (2004) ao referir-se a uma cadeia de entimemas ele nos expõe que esta cadeia, parte do fato admitido por todos, que para melhor exemplificar utilizou-se um exemplo da coluna de San‟Ana, coluna “A alegria do esmoler”,assim a pergunta apresentada por San‟Ana: “o que aconteceu em Santo Ângelo?”.Ele conta o que aconteceu começando pela pergunta que, é uma características necessárias para construir essa cadeia de entimemas, pois dizem que deve-se ser contra dar esmolas, sendo estas suficientes para definir o ato de dar esmolas, porém dar esmola é um ato de caridade, caridade é uma virtude completa, esses dois
argumentos explicam o seu conteúdo formal. Nesse momento surge a decisão:
incorreta é proibido dar esmolas, nota-se que dar esmolas é apenas um meio, não a solução para o problema. A esse esquema chama-se cadeia de entimema.