Quando tratamos de compreender os significados das coisas somos conduzidos pela hermenêutica universal. Suas proposições interpretativas intervêm na relação geral do homem com o mundo. A hermenêutica pressupõe a plena compreensão do homem e da imagem do mundo em que vive, ocupando-se em dizer algo, mas sempre então atrelado a uma verdade superior.
No reino da universalidade “sua verdade é a verdade da tradução” (GADAMER, 2004, p. 215). A reflexão hermenêutica adquire um aspecto de universalidade, pelo fato da relação humana com o mundo ser completamente lingüística. Esta é a razão pela qual, a hermenêutica é compreensível em geral e também por princípio.
Dito de outro modo, na hermenêutica a compreensão toma a direção da totalidade, porque o uso da linguagem é o meio de acesso ao mundo e as coisas que nele estão. A compreensão hermenêutica retoma o fio condutor da linguagem, para mostrar o que de sentido existe além do que pensamos, ou queremos evidenciar.
O que se espera numa atividade hermenêutica é o resgate do sentido que está acima do que nos determina. É significativo dizer, que a hermenêutica comporta uma grandeza universal, e que é universal à medida que o conhecimento nela refletido perpassa por questões da cultura e da vida humana. Uma vez e outra “[...] estamos sempre presos nos limites de nossa situação hermenêutica” (GADAMER, 2004, p. 65).
Pela hermenêutica congrega-se um significado universal, já que o ser finito do homem está condicionado a uma atividade de integração, tanto do mundo histórico sobre o qual realiza uma continua mediação entre passado e presente,
quanto do mundo da natureza, onde também trata de buscar o universo de sentido e onde se faz e se sustenta grande parte da ciência.
Tanto é assim, que poderíamos dizer que no mundo as coisas são pensadas a partir de uma multiplicidade de sentido, que só se nota a partir da unidade da palavra. Para Rohden (2008, p. 38), a hermenêutica tem faces, e uma delas é o interpretar. Na interface da hermenêutica, dois caminhos diferentes operam com maior intensidade: o caminho da compreensão e o da interpretação, e tanto num quanto no outro se associam projetos para orientar o dizer, o explicar e o traduzir.
Mesmo sendo uma tarefa de integração de conhecimentos, a reflexão hermenêutica não implica o desejo de saber à totalidade do sentido que nos rodeia. Mas, a própria experiência que se abre no mundo conduz a uma experiência como um todo. “É verdade, contudo, que em algum momento o saber do universal se realiza” (ROHDEN, 2000, p. 122). A pretensão da hermenêutica é aguçar um grande diálogo e, fazer uma experiência pensante baseada numa reflexão histórica crítica.
O caminho da hermenêutica é buscar, através da experiência hermenêutica os elementos de sentido que são universalmente válidos. Entretanto, a consciência hermenêutica não deseja consumar uma certeza, mas, antes, na continuidade da experiência do conhecimento distingue o homem que experimenta um saber maior e mais amplo, daquele que está preso aos seus dogmas.
O solo da experiência hermenêutica abarca as experiências vitais mais diversas. Gadamer (2004, p. 112), prevê que para a humanidade “a contribuição que a hermenêutica pode fazer é sempre essa transferência de um mundo para o outro, do mundo dos Deuses para o dos homens, do mundo da língua estrangeira para o mundo da língua própria [...]”.
A face da hermenêutica constitui-se de uma ação especulativa tão ampla como a linguagem. A formação da face da experiência hermenêutica reside na desconstrução das experiências tipicamente generalizantes de sentido. Entretanto, o aguçamento dialético que se faz na experiência hermenêutica, não é para ser encarado apenas como análise, mas tem que ser apreciado como a produção das particularidades linguísticas vitais do universal. Com isso, Gadamer (2004, p. 268), tem o fim de determinar que “é assim que se deve compreender a pretensão de universalidade própria da dimensão hermenêutica. Compreensão sempre vem acompanhada com linguagem”.
O pensamento hermenêutico é visto como uma experiência de saber mais amplo, em que, frente à busca dos elementos de sentido, se faz então a compreensão da dimensão do ser universal. Benjamin (SCHNEIDER, 2008, p. 207), se referia à universalidade da hermenêutica como a questão da linguagem em geral e a linguagem dos homens.
Segundo a sua compreensão, nós temos uma linguagem geral que nos permite ter uma idéia geral das coisas e, dentro dessa generalidade, a linguagem específica em que predomina um sentido mais definitivo das coisas. No universo hermenêutico, a experiência que leva à compreensão não segue uma mão única, mas é relativa ao que se apresenta na moldura do mundo. Assim, a hermenêutica é como se fosse o solo que abriga todo nosso comportamento em relação ao mundo.
Naquilo que enunciam sobre a relação entre a universalidade da compreensão, a tradição, a tradução e a hermenêutica, Gadamer e Benjamin concordam em vários aspectos. Ambos concordam que, toda nossa compreensão provém de uma tradição, que nós de algum modo acolhemos convertendo-se numa característica geral nossa no mundo.
Vimos que, conforme constatou Benjamin e confirmaria Gadamer, as denominações desses conhecimentos nós traduzimos segundo nossas escolhas e na nossa linguagem. Também concordam na compreensão de que, sobre o que temos de conhecimento por meio da tradução da tradição, torna-se conhecido no mundo como sentido universal, tomando a dimensão dessa totalidade, porque, enquanto experiência de busca de um saber mais amplo, a hermenêutica promove o reconhecimento das características universais do ser humano.
Essas reflexões nos levam à inevitabilidade de reconhecer que a educação em geral é uma forma de tradução, do repasse de uma área do saber que também resulta de um padrão geral de conhecimento. Abordaremos esse assunto no subitem final desse capítulo, adiantando a idéia do senso comum de que em geral, em seu discurso político pedagógico, a escola propõe um sistema de educação global, que se relacione com as diversas áreas do conhecimento educacional e com o universo técnico e científico.