CAPÍTULO II - CIDADE E ARTE
2.5 O ASPECTO FUNCIONAL DIANTE DO EXISTENCIALISMO URBANO
Comumente, a contemplação do belo é visto como a função principal da
arte. Para esse fim, obras artísticas são expostas em lugares específicos, em
exposições e museus, por exemplo, e/ou a arte é utilizada como "decoração
adicional", ou até interpretada como l'art pour l'art (BAUDELAIRE). Nesse sentido, a
arte assume apenas um papel virtual e supérfluo. Essa interpretação é característica
para a época histórica do capitalismo e da ideologia burguesa. David Harvey (1992)
interpreta a arte em função do esvaziamento do seu valor de uso, como resultado
das modificações sociais do modo de produção capitalista. Explica o autor que tal
esvaziamento se dá pelo fato de que a burguesia não busca necessariamente uma
mensagem ou uma função básica na arte, mas procura nela um valor materialista
representado pela sua raridade, e assim, por um valor de troca. Assim, muitas obras
perdem os seus valores materiais, se reduzindo a valores idealistas.
O jogo entre a função “utilitária” (valor de uso) e a função "artístico-estética"
(valor estético) é dessa forma, sujeito às mudanças econômicas e sociais durante os
séculos. Por isso, muitos objetos que hoje observamos nos museus, de forma
estetizada, faziam antigamente parte do dia a dia do homem. Da mesma maneira,
construções que atualmente são monumentos tombados como patrimônios
históricos serviam no passado como moradia, onde famílias viviam momentos de
tranquilidade, de apreensão, de medo e de alegria. As construções em que
moramos hoje, como também os utensílios que agora fazem parte da nossa vida
diária, poderão futuramente estar nos museus (JEUDY, 2005). Essas possíveis e
existentes mudanças demonstram a influência temporal no jogo entre função
utilitária e estética. Podemos dizer que a estetização de uma obra artística
representa uma fixação do tempo, através de mudanças das suas funções. A
diferenciação entre o orgânico (vivido), o planejado (monumentalizado) e o
decorativo (estetizado), muda por isso, constantemente seus limites internos.
Consequentemente, a mesma obra pode servir numa época para decorar o mundo,
simbolizando beleza e fonte de inspiração dos artistas para a população, e numa
outra pode ser julgada feia, mas sendo auxiliar no dia a dia para explicar e descrever
a história e identidade de um determinado grupo social ou de uma sociedade. Em
outros contextos, a mesma obra pode servir como fetiche para ser usada na cura de
doenças psicológicas e até corporais, ou como mercadoria, e pode até exprimir
visões futurísticas e idealizadoras que norteiam e homogeneízam a sociedade.
Observamos assim, que quando somos admiradores de uma obra de arte, isso
depende muito da nossa experiência, dos nossos conhecimentos e da nossa
imaginação, enfim, da nossa cultura em geral. Tal influência cultural define em cada
momento a disposição de perceber e interpretar uma obra (ibid., 2005).
Além do aspecto temporal da variação das funcionalidades como obra, a
cidade apresenta também uma pluralidade espacial. Por isso, diferentes bairros,
diferentes prédios, e diferentes zonas são expressões de funções diferenciadas no
mesmo espaço da cidade. Percebe-se que hoje, as funções em destacar elementos
através da visibilidade ou pelo som são extremamente importantes na cidade. Como
a cidade muitas vezes, tem perdido sua coerência como cidade-modelo, precisa
diferenciar seu espaço interno por destaques. Assim sendo, muitos elementos se
tornam visíveis em processos de fascinação e emotividade, por topofilia e topofobia,
além da necessidade utilitária e pelo fetichismo comercial (LÖWEN SAHR, 2010).
Processos psicológicos deste tipo ultrapassam uma geografia da ação
individualizada, focando em direção a elementos coletivos. Em função disso, as
artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura) e a música (sons) contribuem de
forma substancial para a organização da cidade atual. Eles diferenciam o espaço
massificado e plural pela visibilização e a corporificação, formando novas
expressões existenciais.
É nesse contexto que o aspecto estético-artístico ganha nova função. Agora
o tornar “visível” destaca determinados espaços urbanos para grupos sociais
específicos. Seja para grupos dominantes ou grupos menos favorecidos, até mesmo
segregados. Cada um desses grupos define sua própria estética urbana no conjunto
da cidade, formando sua própria paisagem psicológica, sua psicogeografia
(DEBORD, 1997).
Nesse processo de "definição" da visibilidade, os grupos hegemônicos
extraem do conglomerado da cidade alguns elementos que eles consideram
importantes; outras visibilidades, em contraste, são ofuscadas e escondidas por
eles. Na sociedade capitalista, esta função da "formação" social (o dar forma pela
classe e grupo social) é hoje localizada e principalmente executada pelos
profissionais da arquitetura, planejadores, políticos, os quais satisfazem
basicamente os perfis estéticos dos grupos hegemônicos. Tais lugares tornam-se
lugares centrais. Ocorre, assim, uma apropriação da arte para a valorização de
localizações urbanas. Por isso, muitas prefeituras são fortemente dependentes da
publicidade e do marketing e, nesse processo, atribuem à arte esta função, quando
destacam determinados sítios com um caráter distinto dos demais lugares.
Tal monumentalização da cidade planejada destaca alguns locais pela arte,
em função de políticas dos grandes empreendedores imobiliários e dos governos,
reforçando a aparência de estabilidade cultural e continuidade histórica por um
grupo hegemônico. Parece que “existem” valores universais que de fato não existem
quando se analisa a alta mobilidade social na sociedade capitalista (JEUDY, 2005).
Então, apresentar a estetização como um processo de desenvolvimento é, em
grande parte, indissoluvelmente ligado hoje em dia à busca de lucros nos processos
de renovação urbana e no controle da sociedade. Quando as cidades estão
adotando estratégias de monumentalização voltadas para o marketing, a promoção
imobiliária e o turismo utilizam a arte apenas no sentido de uma espetacularização
(BRISSAC, 2000), e não no sentido de uma arte existencial.
Nesse aspecto, aumenta sensivelmente o peso institucional da arte. A
produção artística é profundamente interligada ao processo de controle do espaço
urbano. Obras feitas ou expostas nas estruturas arquitetônicas de novos museus ou
em vastos ambientes criados pelos projetos de desenvolvimento (waterfront projects,
por exemplo) tendem a diminuir a representação dos espaços de moradia e de
vivência cotidiana. Consequentemente, a nova paisagem urbana tende a ser
inteiramente desenhada e controlada pelos planejadores e pelos projetos de
intervenção, criando novas tensões estéticas (BRISSAC, 2000; LEFEBVRE, 1991b).
Contudo, além da cidade dos planejadores existe ainda a cidade dos
moradores que, através de inúmeras intervenções, é também artística e transforma e
adapta a cidade conforme suas próprias visões. Assim, surge uma vasta arquitetura
alternativa e heterotópica (cidade orgânica), até com seu próprio urbanismo
alternativo, como nas favelas que muitas vezes incorporam elementos da arte
urbana oficial, mas transformam estes elementos em formas não mais
reconhecíveis. Essa evolução cria, nas periferias, a chamada arquitetura kitsch9,
onde a função construtiva não é mais o elemento principal, como demanda a
arquitetura moderna, mas onde os aspectos semiótico e puramente estético
predominam (GUIMARAENS; CAVALCANTI, 1979, p. 29). Por isso, avaliar a
estética de uma cidade na sua totalidade significa incorporar vários tipos de arte,
sendo que esses seguem os padrões estéticos hegemônicos e/ou alternativos na
pluralidade, sempre com uma função social e cultural.
Em consequência, a arte e a arquitetura urbana não são mais restritas a
edificações oficiais, mas incluem também grandes conjuntos habitacionais, prisões,
hospitais, igrejas, escolas e a arquitetura vernacular. Nesse momento, a obra
artística e estética foge da visão de ser um elemento isolado. Pelo contrário, a obra
é determinada discursivamente por diversas disciplinas (sociologia, política, crítica,
urbanismo) e discursos vividos. Assim, em última instância, o sítio de uma
intervenção não é mais delimitado pelas circunstâncias locacionais, mas por efeitos
sistêmicos de relações sociais (expressos em relações estéticas no sentido de
Bakhtin) de grande abrangência. Agora, o local é estruturado mais intertextualmente
do que localmente, mais esteticamente do que materialmente.
Assim, as experiências estéticas de hoje não se reproduzem mais no mapa,
mas num itinerário do perceptor – numa sequência fragmentada de ações. A
passagem do morador e/ou visitante (até virtual) define de que forma os objetos da
arte urbana, por exemplo, as casas, as edificações, as ruas e as praças, se
artificializam – quer dizer, como eles aparecem e desaparecem na visão das mais
9
Abrahan Moles (1994, p. 10) afirma que a expressão kitsch deriva de duas palavras conhecidas no
sul da Alemanha: kitschen, que significa atravancar e, em particular, fazer móveis novos com velhos e
verkitschen, que quer dizer trapacear, receptar, vender algo em lugar de outro. Corresponde a um
conceito universal, cuja arte é marcada pela ausência de estilo; a uma função de conforto; ao
supérfluo do progresso. É uma forma patológica de arte
variadas pessoas. Por isso, as intervenções urbanísticas perdem em grande parte
sua hegemonia estética, e assim também o respeito da maioria dos moradores. De
certa forma, a luta estética travada pelos grupos sociais e pelas classes definem na
cidade, cada um por si, o seu espaço-território estético. Entretanto, nessa luta,
observamos também inúmeras transgressões, invasões e ocupações, seja em forma
de graffiti, seja com infrações contra leis urbanísticas, e também com expulsões por
processos de gentrification10. Permanentemente, a cidade é um campo de batalha
desta energia social. A luta no espaço urbano permite sua expressão na
possibilidade estética, tornando as existências públicas ou deixando-as no silêncio
privatizado.
No documento
A CIDADE DE PONTA GROSSA (PR) ENQUANTO EXPRESSÃO DE ARTE: UM OLHAR SOBRE A ARQUITETURA PONTAGROSSENSE CURITIBA 2010
(páginas 67-71)