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O aspecto mais monumental do exterior da Ca­

No documento JANSON - Iniciação à História da Arte (páginas 112-116)

tedral de Notre-Dame é a fachada oeste (fig.

134).

Com exceção das esculturas, que foram extrema­ mente danificadas durante a Revolução France­ sa, e foram em grande parte restauradas, ela con­ serva seu aspecto original.

O

projeto reflete a

fachada de Saint-Denis, que por sua vez deriva­ ra das fachadas românico-normandas, como a de Saint-Etienne de Caen (ver fig.

118),

onde as mes­

mas características básicas podem ser encontra­ das: os ressaltos do pilar que reforçam os cantos das torres e dividem a fachada em três partes, a colocação dos portais e a projeção em três an­ dares. No entanto, a suntuosa decoração escultó­ rica faz lembrar as fachadas do oeste da França (ver fig.

117).

Muito mais importantes do que

essas semelhanças, porém, são as características que distinguem a fachada de Notre-Dame das suas precedentes romãnicas. A mais importante é a forma como todos os porn1enores foram inte­ grados num todo harmonioso, uma disciplina for­ mal que também se estende às esculturas, onde não mais se permite a proliferação espontânea (e, freqüentemente, descontrolada) que encontramos

em algumas igrejas românicas. Ao mesmo tem­ po, o rigor cúbico da frente sem adornos de Saint­ Etienne deu lugar ao seu extremo oposto. Arca­ das rendilhadas, imensos portais e janelas diluem a continuidade da superfície das paredes, trans­ formando o conjunto em uma imensa tessitura em

que se intercalam as aberturas cuja função é tam­ bém ornamental. Comparando a fachada oeste com O portal um pouco posterior do transepto

sul

,

(visível na fig. 133), podemos ter uma idéia de quão rapidamente essa tendência difundiu-se du­ rante a primeira metade do século XIII: na fa­ chada, a rosácea (como são chamadas as janelas circulares das igrejas góticas) fica em um vão bas­ tante recuado, e os ornamentos de pedra que dão fOlma ao desenho destacam-se nitidamente da al­ venaria em que estão engastados; no transepto, pelo contrário, não é mais possível separar os or­ namentos da janela de sua moldura: um entrela­ çamento contínuo cobre toda a superfície.

Embora possamos buscar uma ou outra carac­ terística da arquitetura gótica em alguma fonte románica, o como e o porquê de seu sucesso são bastante difíceis de explicar. Deparamo-nos, aqui, com uma eterna controvérsia: para os adeptos da abordagem funcionalista, a arquitetura gótica é o resultado de avanços de engenharia que possi­ bilitaram a construção de abóbadas mais efica­ zes e a concentração do empuxo em poucos pon­ tos críticos, eliminando-se, assim, as sólidas pa­ redes românicas. Mas isso será tudo? Devemos fazer nova e breve menção ao abade Suger, se­ gundo o qual foi difícil reunir artesãos de muitas regiões diferentes, para trabalharem no proje­ to. Isso viria em apoio à hipótese de que ele ape­ nas precisava de bons técnicos; fosse esse o úni­ co problema e o abade ter-se-ia deparado, no final, com nada além de um aglomerado de dife­ rentes estilos regionais. Seu relato, no entanto, enfatiza insistentemente que a "harmonia", a re­ laçâo perfeita entre as partes, constitui a fonte da beleza, uma vez que exemplifica as leis segun­ do as quais a razão divina criou o universo; a "milagrosa" inundação de luz através das "mui sagradas" janelas transforma-se na Luz Divina, uma revelação rnistica do espírito de Deus. Te­ nha ou não sido ele o arquiteto de Saint-Denis, foi certamente ele o espúito cuja orientação trans­ formou as igrejas góticas em mais do que a so­ ma de suas partes.

Chartres; Rouen

Apenas Chartres, dentre todas as principais cate­ drais góticas, ainda conserva grande parte de seus vitrais originais. A magia de seu interior (fig. 135),

inesquecível para quem lá esteve, é quase impos-

CIOAUES. CATEIlRAJS E ARTE GÓTICA 135

sível de ser reproduzida por ilustrações. As fotos inevitavelmente exageram a luminosidade das ja­ nelas, o que as torna mais parecidas com "bura­ cos" do que com "paredes translúcidas". Na realidade, as janelas deixam entrar muito menos luz do que seria de esperar; atuam, sobretudo, como imensos e multicoloridos filtros difusores que modificam a qualidade da luz diurna comum, dotando-a dos valores poéticos e simbólicos que o abade Suger tinha em tão alta estima.

Após constatar-se que a planta básica das igre­ jas góticas era satisfatória, como ficou demons­ trado na Catedral de Notre-Dame (ver fig. 131), e compreender-se que a abóbada de arestas ba­ seada no arco agudo tinha uma flexibilidade até aqui inimaginável, o desenvolvimento da arqui­ tetura gótica na França tornou-se cada vez mais arrojado, procurando conhecer os limites extre­ mos aos quais esse tipo de construção poderia ser levado. As naves ficaram cada vez mais grandio­ sas e os contrafortes mais rendilhados, até que, em alguns casos, chegaram mesmo a ruir. Tal­ vez o objetivo de glorificar a ordem divina, como o abade Suger se propusera a fazer, houvesse imperceptivelmente se transformado em uma competição muito semelhante à da Torre de Ba­ bel, que, como estamos lembrados, terminou de forma desastrosa.

É

também surpreendente cons­ tatar que tantas construções no estilo conhecido como Gótico Flamboyanl ("flamejante"), como é chamada a última fase, tenham permanecido em pé. As formas ondulantes, em curvas e contra­ curvas dos lavores em pedra da Igreja de Saint­ Maclou de Rouen (fig. 136) são tão exuberantes que tentar localizar os "ossos" do edifício transforma-se quase em um jogo de esconde­ esconde. O arquiteto tornou-se um virtuose que sobrecarrega o esqueleto estrutural com uma tra­ ma tão densa e fantasiosa de elementos decora­ tivos, que a estrutura fica quase completamente oculta.

U ma das coisas realmente surpreendentes so­ bre a arquitetura gótica é a aceitação entusiásti­ ca que esse "estilo real francês" obteve no exte­ rior. Mais admirável ainda foi a sua capacidade de adaptar-se a uma grande variedade de cir­ cunstâncias locais - tanto assim, de fato, que os monumentos góticos da Inglaterra, Alemanha

136 1\ Il)r\UE i\IEOI.\

136. Fachada oe3te. Saint-Maclou, Rouen. Iniciada em 1434

e outros países tomaram-se objeto de profundo orgulho nacional nos tempos modernos. Um gran­ de número de razões, isoladas ou em combina­ ção, podem ser buscadas para explicar esse rá­ pido desenvolvimento: a habilidade superior dos arquitetos e entalhadores franceses, o enorme prestígio dos centros de aprendizagem franceses, como a Escola da Catedral de Chartres ou a Uni­ versidade de Paris, e o vigor da Ordem de Cis­ ter (fundada na França), que edificava igrejas góticas onde quer que fundasse novas abadias. Basicamente, no entanto, a vitória internacional da arte gótica parece explicar-se pelo extraordi­ nário poder de persuasão do próprio estilo, que inflamava a imaginação e despertava sentimen­ tos religiosos mesmo entre pessoas muito distan­ tes da atmosfera cultural da Ile-de-France.

Inglaterra

Pouco surpreende que a Inglaterra se mostrasse particularmente receptiva ao novo estilo. Toda­ via, o Gótico inglês não evoluiu diretamente do Romãnico anglo-normando que tanto contribuí­ ra para os experimentos técnicos que tomaram possível a construção de Saint-Denis. Embora tendo suas primeiras obras realizadas por arqui­ tetos trazidos da França, o Gótico inglês primiti­ vo não tardou em desenvolver seu estilo próprio, cujo melhor exemplo é a Catedral de Salisbury (fig.

137).

Percebemos de imediato a grande di­ ferença que a separa das catedrais francesas - e também quão fútil seria avaliá-la segundo os , ,

CII)ADES. CATEIl«AlS E ,,«TE GÓTICi' 137

padrões góticos franceses, pois sua localização em pleno campo aberto não requer que ela seja mui­ to alta para poder dominar os aglomerados cen­ trais de uma cidade como Paris; sua missão, tam­ bém, não era a de sancionar espiritualmente uma dinastia real, como fora o caso de Saint-Denis. Ao adotar determinadas características francesas como a construção de grandes janelas acima da entrada principal, com o objetivo de enfatizá-la, a Catedral de Salisbury proclama uma nova era na arquitetura - mesmo que essas característi­ cas ãs vezes dêem a impressão de acréscimos posteriores (observe-se os arcobotantes, que pa­ recem estruturalmente desnecessários). Com seus dois transeptos acentuadamente prolongados, e sua ampla fachada que termina em torreões baixos e largos, Salisbury também conservou importantes cq.racterísticas do estilo Românico. Transmite-nos uma sensação de amplitude e na­ turalidade, como se estivesse ã vontade não ape­ nas em seu cenário, mas também em suas liga­ ções com o passado anglo-normando.

O piriáculo que se eleva por sobre o cruzeiro é aproximadamente cem anos mais velho que as demais partes da igreja, sendo um indício da rá­ pida evolução do Gótico inglês para uma verti­ calidade mais acentuada. A capela-mor da Cate­ dral de Gloucester (fig.

138),

no estilo Gótico Tardio inglês (Gótico Perpendicular), tem muita

138 '1O\IlE "�DlA

afinidade com os inteliores das igrejas francesas, apesar da repetição de pequenos e idênticos or­ namentos esculpidos na grande janela, que lem­ bra a repetição dos motivos esculpidos na facha­ da de Salisbw-y.

O

sistema de abóbadas traz uma inovação que, embora mais tarde adotada no con­ tinente ew-opeu, é essencialmente inglesa: a pro­ pagação das nervuras em um reticulado ornamen­

tal de múltiplos filamentos, impedindo que se tenha uma visão nítida das separações dos inter­ colúnios e suas subdivisões, o que confere ao interior uma maior unidade visual. Embora o es­ tilo inglês tenha-se desenvolvido independente­ mente da ornamentação

F/amboyant

francesa, há, obviamente, uma relação artística entre essas duas variedades de decoração arquitetõnica de elaboração decorativa tão acentuada.

Itália

A arquitetw-a gótica italiana tem uma posição de

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