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3. O sindicalismo no Acre: As lutas dos seringueiros para “empatar”

3.5. O Encontro Nacional dos Seringueiros e a defesa da floresta

3.5.1 O assassinato de Chico Mendes e a conquista das reservas extrativistas

Francisco Alves Mendes Filho, ou apenas Chico Mendes, foi um dos maiores líderes político, ativista social e ecológico da história do movimento dos

331 ALLEGRETTI, Mary Helena. A Construção Social de Políticas Ambientais – Chico Mendes e o Movimento dos Seringueiros, 827p., mm, (UnB-CDS, Doutora, Desenvolvimento Sustentável – Gestão e Política Ambiental, 2002). Tese de Doutorado – Universidade de Brasília. Centro de Desenvolvimento Sustentável. p. 554-555.

332 Geografia: Pesquisa e prática social. Revista Terra Livre. São Paulo: AGB/Marco Zero, nº 07.

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trabalhadores no Brasil. Nasceu em 1944, em uma família de seringueiros no seringal Porto Rico, em Xapuri, na fronteira com a Bolívia. Seu avô era migrante nordestino e, o seu pai, analfabeto, não consentia com o modelo de exploração dos seringais. Ao contrário da maioria dos seringueiros, Chico foi influenciado e teve a oportunidade de ser alfabetizado por um refugiado político brasileiro na Bolívia, Euclides Terra. Quando jovem já havia organizado movimentos por não pagamento de renda e comercialização autônoma da borracha333.

O líder político compôs a primeira diretoria, ocupando a função de secretário do primeiro sindicato que surgiu em Brasiléia, no ano de 1975. Dois anos depois foi vereador pelo MDB e ajudou a construir o Partido dos Trabalhadores (PT), tendo se filiado ao partido em 1980. Com o assassinato de Wilson Pinheiro no mesmo ano, que culminou na desarticulação do movimento sindical em Brasiléia, Chico vai refletir e começar a fazer um trabalho de base social, com um projeto de alfabetização de adultos, Projeto Seringueiro, e organização de uma cooperativa com seringueiros que empatavam contra um frigorífico paulista que planejava um desmatamento para a implementação de pecuária extensiva em Xapuri.334

Em 1985, liderou a organização do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, o que fez com que a luta dos seringueiros passasse a ganhar repercussão nacional e internacional, resultando, inclusive, em um documentário, que mostrou a luta do líder para proteger os povos e a floresta, produzido por Adrian Cowell, em 1987, chamado “Eu quero viver”335.

Chico foi líder das negociações que se constituíram na ase da Aliança dos Povos da Floresta, com o objetivo de preservar a floresta e o modo de vida dessas populações, de forma que pela primeira vez o projeto de criação da reserva extrativista foi definida no âmbito leal pelo INCRA, por meio da Portaria n.º 627, de julho de 1987, denominado Projeto de Assentamento Extrativista, que reconhecia o modo de vida dos seringueiros destinado a áreas de riquezas

333 ALLEGRETTI, Mary Helena. A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 39-59, jul./dez. 2008.

Editora UFPR.

334 Ibidem.

335 Site Memorial Chico Mendes. Disponível em: <http://www.memorialchicomendes.org/chico-mendes/>. Acesso em: 01 ago. 2022.

extrativistas, que deveriam ser exploradas de maneira ecologicamente sustentável336.

Mendes discursou na reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), também em 1987, em Miami (EUA), onde denunciou a destruição da floresta em razão da construção da BR-364 e requereu a suspensão do financiamento pela instituição internacional, que cortaria os estados de Rondônia e Acre.

No ano seguinte, foram desapropriadas as terras do seringal Cachoeira, cujo título de propriedade legal pertencia a Darly Alves, tendo sido criada a primeira Reserva Extrativista do Acre. Sobretudo após a desapropriação das terras do seringal Cachoeira, Chico Mendes passou a ser ameaçado veementemente, não por acaso, denunciou o fato inúmeras vezes publicamente.

O sindicalista ganhou vários prêmios internacionais, a exemplo do Global 500 da ONU, mas nem isso foi suficiente para evitar o seu assassinato em 22 de dezembro de 1988, a mando do mesmo Darly Alves337.

O assassinato de Chico Mendes demonstrou mais uma vez para a história do movimento social dos oprimidos que a sociedade capitalista vive em um estado de exceção permanente. Aqueles que lutam pela libertação e pela melhoria das condições de vida daqueles que são despossuídos, estão a todo tempo lutando pela sobrevivência e pela possibilidade de poder denunciar as condições sob as quais os detentores do capital se enriquecem cada vez mais.

Sob ameaças de prática de crime e de morte, o capitalismo põe a sua disposição todo o tipo de violência para conter a mínima possibilidade de libertação, eis que se vê ameaçado.

Nesse contexto, após o assassinato do líder sindical a pressão, sobretudo, internacional para que as Reservas Extrativistas fossem institucionalmente instituídas foi bastante aguda. Do ponto de vista legislativo, a Constituição de 1988 determinou a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo poder público, avançando na possibilidade de criação de reservas. A Lei n.º 7.804 de 24.07.1988 compatibilizou a Política Nacional de

336 ALLEGRETTI, Mary Helena. A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 39-59, jul./dez. 2008.

Editora UFPR.

337 Site Memorial Chico Mendes. Disponível em: <http://www.memorialchicomendes.org/chico-mendes/>. Acesso em: 01 ago. 2022.

Meio Ambiente com os dispositivos constitucionais de 1988 e incluiu de maneira expressa as Reservas Extrativistas338 como um espaço territorial que deveria ser especialmente protegido pelo poder público. Assim, por meio do Decreto n.º 98.863, de 23 de janeiro de 1990, foi criada a primeira Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre, área que foi declarada como interesse ecológico e social.

No mesmo sentido, foi definido o modelo de Reserva Extrativista como forma específica de regularização fundiária e ambiental339.

O Decreto, em seu art. 3º, definiu também os elementos que deveriam estar presentes na criação de cada uma das reservas, dentre os quais: a reserva estava destinada a população extrativista, ou seja, “seringueiros, castanheiros e ribeirinhos fixados em sua grande maioria na região Norte do país, convivendo harmoniosamente com o ecossistema, extraindo de forma economicamente viável e ecologicamente sustentável o que o próprio sistema produz” e o reconhecimento das colocações como unidade de produção familiar em áreas sob o domínio da União, com usufruto exclusivo dos seringueiros organizados em cooperativas ou associações340.

Registra-se aqui um trecho da justificativa de proposição da reserva, que fora elaborada pelo Ministro do Interior e que estava ligado ao IBAMA, órgão que ficou responsável pela nova unidade de conservação:

(...) a Reserva Extrativista possibilitará a conservação dos recursos renováveis existentes, bem como sua exploração de forma sustentável pela população com tradição extrativista e que já habita a região. Com a criação da Reserva Extrativista será possível a conciliação de ações extrativistas, principalmente a exploração da borracha em seringais nativos, que é a principal atividade econômica da região, com a

338 O Decreto n.º 98.897, de 30 de janeiro de 1990, definiu as Reservas Extrativistas como

“espaços territoriais destinados à exploração auto-sustentável e conservação dos recursos naturais renováveis por população extrativista”. E justificou: [...] Os planos de conservação ambiental para a Amazônia não levaram em conta no passado a existência de populações locais que habitam a floresta, retirando dela meios para viver, mediante o uso de técnicas não-predatórias [...] os planos de desenvolvimento não reconheceram no passado a contribuição positiva que as populações extrativistas podem dar para a riqueza nacional [....] Este conceito [de Reserva Extrativista] se distingue de unidades de conservação que prevêem atividades de exploração sujeitas a planos de manejo, mas não levam em conta as populações locais, seus direitos, sua organização e sua tradição cultural. ALLEGRETTI, Mary Helena. A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 39-59, jul./dez. 2008. Editora UFPR.

339 Ibidem.

340 Ibidem.

conservação da natureza, especialmente pela presença de endemismos e diversidades biológicas específicas desta região341.

As Reservas Extrativistas surgiram, portanto, das experiências dos seringueiros com o modo de vida na floresta, a partir da exploração do látex de forma equilibrada e sustentável, que foi sendo apreendida no tempo. A troca de saberes com as sociedades indígenas e a própria forma com que passaram a ser conscientizar no que se refere à manutenção da floresta foi determinante para que se construísse um conceito de reserva que tivesse em conta as suas reais necessidades.

Raimundo de Barros, mencionou em entrevista sobre a relação do seringueiro com a terra e com a comunidade em que vive:

O seringueiro, pela sua origem, já é uma pessoa que não tem interesse em ser proprietário. O interesse do seringueiro é ter a terra, ter a seringa, ter a castanha, ter tudo aquilo lá na floresta para a sobrevivência dele. Ele já tem uma vida comunitária, um relacionamento pode-se até dizer socialista junto com os companheiros seus, e ele não se apega à propriedade da colocação.

Na nossa proposta de criação de reserva extrativista, nós não reivindicamos a propriedade do Estado, ou da nação, é o direito de usufruto para os seringueiros, levando-se para as reservas a estrutura que é necessária e que o seringueiro até hoje não teve: a escola, a saúde, o meio de comercializar produtos. As colocações são trabalhadas na medida do tamanho da família. Uma família menor ocupa uma colocação menor e uma maior ocupa uma colocação maior.

O que divide uma colocação da outra é a própria estrada de seringa, onde ela termina, ali termina a colocação342.

As experiências adquiridas com a vivência na mata fizeram com que enxergassem a importância da floresta na manutenção do seu modo de vida e na manutenção do próprio ecossistema mundial. Se, antes, lutaram contra os povos indígenas, senão mais oprimidos que eles próprios, compreenderam que o inimigo era outro e passaram a realizar uma luta radical e anticapitalista. Os empates que começaram timidamente com o objetivo de manutenção da posse e/ou pleitear um direito de indenização pelas benfeitorias nos seringais e contra

341 ALLEGRETTI, Mary Helena. A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 39-59, jul./dez. 2008.

Editora UFPR.

342 Geografia: Pesquisa e prática social. Revista Terra Livre. São Paulo: AGB/Marco Zero, nº 07.

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os abusos cometidos pelos seringalistas com o monopólio do barracão, vão tomando dimensões cada vez mais radicais e de ruptura com o sistema de dominação vigente.