CENIMAR CIE
O ASSASSINATO DO PADRE HENRIQUE (1969-1986)
Meu Deus, eu tinha a impressão de que havia conseguido demonstrar isso! Conheço fulano. Segundo o que sei dele, dou-lhe uma realidade (para mim). Mas você também conhece fulano, e certamente aquele que vocês conhecem não é o mesmo que eu conheço, porque cada um de nós o conhece a seu modo e lhe dá, a seu modo, uma realidade. Ora, mesmo para si mesmo fulano tem tantas realidades quanto os seus conhecidos, porque comigo ele se conhece de um modo e, com vocês e com terceiros, de outro, e assim por diante, embora permaneça a ilusão – especialmente nele – de ser um só para todos.
Vitangelo Moscarda, personagem do romance
Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello.
I
Quando o padre Henrique é assassinado, em 1969, o regime militar estava entrando em seu terceiro ciclo de repressão. O primeiro deles, ocorrera logo após o golpe, com o objetivo de “limpar” o sistema político especialmente daquelas pessoas ligadas a João Goulart e à esquerda. O segundo ciclo se deu em fins de 1965 com a promulgação do AI-2 e a continuação da “operação limpeza”. Finalmente, a partir de fins de 1968 ocorreria um terceiro ciclo de repressão e que abrangeria muitos outros setores da sociedade civil. Parlamentares foram sumariamente cassados, inclusive àqueles da Arena que haviam votado com o MDB, aproximadamente 800 estudantes foram presos assim como vários trabalhadores e sindicatos foram fechados. Como afirma Alves, os setores da oposição que buscavam mudanças de forma não violenta foram enfraquecidos e entraram num período de desorganização e falta de perspectiva.148
O Congresso Nacional permaneceu fechado por quase dez meses. Durante esse período foram promulgados 13 atos institucionais, 40 atos complementares e 20 decretos- lei com o objetivo de institucionalizar o controle das instituições da sociedade civil. Foram criadas medidas para controlar a Universidade, a imprensa e a participação
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ALVES. Maria Helena Moreira. Ibid. Pág. 171.
política em geral. Foram criadas também condições para o desenvolvimento deixando o país pronto para o que viria a ser o “milagre econômico”.
Antes da discussão dos documentos relativos aos jornais da época é preciso retomar uma questão já discutida na introdução: a censura. Ela atingiu os mais diversos setores da sociedade como os intelectuais, artistas, e, sobretudo, os meios de comunicação. Como afirmou Ronildo Maia Leite que na época trabalhava no Diário da Noite,
A gente era proibido falar de Médici, a gente era proibido de falar em padre Henrique, a gente era proibido de falar naquele estudante que foi empurrado da ponte, a gente era proibido de falar nas passeatas de estudantes jogando bola de gude na rua pra derrubar os cavalos porque não tinha arma [...] No caso do Padre Henrique, tudo que você ler no jornais é matéria censurada, inclusive as que eu fiz. Censuradas por ordem
de Vladimir Calheiros e comandada por Valdomiro Arruda que já morreu. No caso do Padre Henrique, você vai encontrar as versões que eram autorizadas publicar.149
Ao analisar a documentação levantada pelos jornais da época, poderíamos fazer as seguintes indagações: “como se analisar uma documentação censurada pelo aparato repressivo? As notícias não estariam todas filtradas sendo incapaz de mostrar os conflitos sociais?”. Apesar de uma forte censura ilustrada pelo depoimento do jornalista Ronildo Maia Leite afirmando que todas as notícias eram censuradas, existia uma margem de espaço, por menor que fosse que permitia perceber o discurso da Igreja Católica, por exemplo, ou ainda um posicionamento do padre Romano Zufferey, dirigente da ACO ou da mãe do padre Henrique que passou a fazer acusações contundentes contra o aparato repressivo do regime militar. Isso justifica a utilização da documentação dos jornais como uma das fontes privilegiadas de análise.
II
A leitura dos jornais quase vinte anos após o assassinato do padre Henrique, possibilita descobrir como diversas notícias foram produzidas acerca deste trágico acontecimento. Neste capítulo, me proponho a fazer uma análise dessa documentação levantada em jornais de Pernambuco, especialmente Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio. Também a leitura e análise dos Boletins Arquidiocesanos e das entrevistas
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Depoimento concedido ao autor no dia 27 de setembro de 2003.
realizadas ao longo da pesquisa possibilitaram ampliar a compreensão da complexidade do enfrentamento entre o Estado e a Igreja Católica no período.
Entre o dia seguinte ao assassinato até a segunda metade da década de 1980 foram publicadas várias notícias sobre o caso. A leitura atenta desse material permitiu perceber a atuação dos vários grupos ligados ao sacerdote e ao seu assassinato. Através dos seus discursos, passaram a elaborar um significado para o assassinato, assim como a constituir diferentes “padres Henriques”. Vale reafirmar: o que considero pertinente na pesquisa que estou desenvolvendo, a partir desse material, é justamente a possibilidade de revelar as estratégias a partir das quais o padre Henrique foi constituído pelos diversos grupos, assim como foram estruturadas as significações dadas ao assassinato.
mencionados acima ligados ao assassinato: alguns setores do Estado que engloba os membros das Forças Armadas, da polícia, do aparato repressivo, da justiça e de qualquer instância do governo; um determinado setor da Igreja Católica, principalmente aquele ligado à dom Hélder Câmara; a família, os amigos, os suspeitos do assassinato e as organizações de esquerda (o que engloba partidos, grupos católicos e indivíduos de
esquerda de uma maneira geral). Essa classificação
procurou
privilegiar a especificidade dos diferentes
discursos.
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Transcrevi uma grande quantidade de documentos, especialmente dos jornais, com o cuidado de não tornar a leitura demasiado cansativa. Também não deixei de analisar cada notícia transcrita, análise essa que é feita nas diversas redes nas quais o padre Henrique, que é apenas um ponto de cruzamento, estaria inserido esquematicamente da seguinte forma:
ALGUNS SETORES DO ESTADO AMIGOS FAMÍLIA