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3 CONTRIBUIÇÕES DO SERVIÇO SOCIAL NA EDUCAÇÃO PARA A

3.3 O ASSISTENTE SOCIAL ENQUANTO INTELECTUAL ORGÂNICO

Neste item procuramos sintetizar quais as contribuições do Serviço Social na educação para a formação de sujeitos políticos, utilizamos a categoria gramsciana de intelectual orgânico, entendendo o assistente social enquanto intelectual orgânico e qual o seu papel na formação desses sujeitos políticos. No entanto para a compreensão do termo intelectual orgânico recorremos primeiramente aos estudos de Gramsci (1991; 2001), e para a relação do mesmo termo com Serviço Social recorremos a alguns teóricos como: Simionatto (2004), Barbosa (1981), Barroco (2001) e Iamamoto e Carvalho (2007).

Entende-se que nas dimensões que complementam o arcabouço teórico da profissão entre elas, a dimensão educativa e política, as mesmas se materializam através da práxis como unidade indissociável entre teoria e prática.

Essas dimensões como citadas anteriormente apontam uma direção social e política da sociedade e a forma como incidem na formação de consciência da classe trabalhadora. Isso se dá por meio da função pedagógica e da organização de sua própria classe. Assim, é através da práxis do assistente social na educação que o trabalho concretiza-se objetivamente.

É neste sentido, que os assistentes sociais que se encontram organicamente ligados à classe trabalhadora veem a desempenhar o papel de intelectual orgânico. Este conceito foi

afirmado por Gramsci em seus estudos e traz uma reflexão abrangente sobre os intelectuais, no entanto, para esse estudo vamos nos remeter apenas ao que concerne ao intelectual orgânico31.

Quanto ao conceito de intelectual orgânico para Gramsci (1991) não existe um não- intelectual que desempenhe qualquer atividade sem a intelectualidade, porém há quem dispende mais de sua capacidade intelectual do que outros. Ele aponta que a intelectualidade em uma concepção errônea está relacionada em um conjunto geral das relações sociais e não a determinados grupos que a personificam. Assim “Todos os homens são intelectuais, poder-se- ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. (GRAMSCI, 2001, p. 18).

Em Simionatto (2004) encontramos a interpretação sobre o intelectual orgânico que,

[...] implica as relações dos grupos intelectuais com as classes fundamentais e a explicitação de suas funções técnicas. A concepção de organicidade é inerente à formação mesma das suas competências e das funções que desenvolvem no interior do modo de produção capitalista, inclusive o encaminhamento das lutas junto à classe a que está vinculado. Estar vinculado organicamente a uma classe não significa agir de fora, extremamente, de maneira mecânica. Significa, sim, participar efetivamente de um projeto às classes fundamentais: burguesia ou proletariado. (GRAMSCI apud SIMIONATTO, 2004, p. 60).

Desta forma, o intelectual pode ser vinculado organicamente a uma classe que remete- se tanto à classe trabalhadora quanto à classe burguesa. E esse caráter de organicidade está relacionado com o lugar ao qual o intelectual ocupa nas dimensões que constituem a sociedade, sejam elas econômicas, políticas e civis.

Essa ideia de organicidade está articulada também à função intelectual e está conectada aos diversos grupos sociais, inclusive ao grupo hegemônico. Desta forma para Gramsci (2001) as categorias especializadas para a o exercício da função intelectual tem conexões com todos os grupos sociais e podem estar vinculados ao poder hegemônico de determinado grupo social. Neste sentido, é que o intelectual do poder hegemônico constrói formas de consenso e de transmissão da cultura das grandes massas para direção da vida social e política pelo grupo economicamente dominante.

Para os intelectuais orgânicos vinculados ao proletariado os mesmos podem criar formas para tomada de consciência da classe trabalhadora. E ao mesmo tempo, contribuir para a formação de uma concepção de mundo homogênea e autônoma e ainda se constituindo

como especialista com uma dimensão política32. Em Simionatto (2004), essa função do intelectual na organização da classe trabalhadora, ocorre da seguinte forma:

Pela função que exerce no modo de produção, a concepção de mundo do proletariado está permeada pela ideologia de outras classes sociais e, portanto, não consegue encaminhar o seu próprio projeto de classe. Gramsci marca, portanto a importância da atuação do intelectual junto à sua classe na elaboração de uma nova concepção de mundo, no esclarecimento das relações antagônicas e das contradições profundas que perpassam a sociedade, bem como das formas possíveis para a sua superação. (GRAMSCI apud SIMIONATTO, 2004, p. 62).

Assim, o papel de intelectual orgânico vinculado á classe trabalhadora é a de orientar e organizar a mesma, sendo norteado por um viés político de construção de uma outra sociedade. Então, esse papel deve esclarecer, portanto, as contradições e os antagonismos e a forma que está disposta as relações sociais.

Neste sentido, para Gramsci o papel do intelectual orgânico [..] o de ajudar, de oportunizar uma interação entre seres, para que o processo de transformação do homem, e do mundo e da sociedade reflita sore a cultura e a ideologia dominante, na busca da libertação. (GRAMSCI apud BARBOSA, 1981, p. 41).

O posicionamento político tomado pelo Serviço Social e representado por meio do seu projeto ético-político demonstra a sua opção pela classe trabalhadora bem como o seu direcionamento político. Desta forma, pode-se afirmar que o assistente social está vinculado enquanto intelectual orgânico à classe trabalhadora e pode vir a desempenhar o seu papel enquanto um intelectual.

Para o Serviço Social a teoria que o fundamenta e dá a sua direção política possibilita uma práxis que contribui para uma transformação da sociedade. É através dessa contribuição profissional e por meio da organização da classe trabalhadora enquanto sujeitos políticos que se torna possível transformar a realidade concreta.

De acordo com Simionatto (2004) o pensamento de Gramsci para o Serviço Social foi incorporado a partir do movimento de reconceituação. Com ele as reflexões acerca do conceito de intelectual orgânico dá base “[...] sobre o papel do assistente social enquanto intelectual que se vincula aos interesses de uma das classes fundamentais. Nesse sentido,

32Uma das formas que Gramsci ressalta em sua obra que um dos meios do intelectual orgânico para a organização do proletariado é por meio dos partidos políticos e a ideia principal é a da transição da sociedade para o socialismo e a criação de uma nova inteligência social a partir do modo de produção do proletariado. (GRAMSCI, 1991).

afirma-se que toda a prática profissional tem necessariamente uma dimensão política.” (SIMIONATTO, 2004, p. 183).

No entanto, para a autora:

[...] Não é suficiente, também, que os assistentes sociais transfiram-se em massa às fileiras dos movimentos populares e posicionem-se com atitudes de rejeição e crítica ao sistema capitalista. Tornar-se intelectual orgânico das classes subalternas não implica apenas a realização de mudanças de cunho teórico, mas implica também uma prática articulada com as organizações representativas das classes subalternas, contribuindo para que estas se afirmem cada vez mais como protagonistas políticos. (SIMIONATTO, 2004, p. 203).

Para Barroco (2001), ao colocar-se nas funções do intelectual orgânico, o assistente social encontra sua identidade profissional na função de educador e organizador da população, a serviço das classes subalternas. É no processo de construção de uma nova hegemonia que se ampliam as bases para uma apreensão das contradições sociais, o que é tratado em função da coexistência entre hegemonia e contra-hegemonia, entre ideologia dominante e contra- ideologia. (BARROCO, 2001, p. 171).

Neste sentido é que o assistente social enquanto intelectual orgânico em seu exercício profissional na educação, contribui na formação dos sujeitos políticos, compreendendo as suas contradições da realidade.

Para Iamamoto e Carvalho (2007), o intelectual na mesma linha gramsciana tem como função “[...] contribuir na luta pela direção social e cultural dessas classes na sociedade. Trata-se do ‘organizador, dirigente e técnico’ que coloca sua capacidade a serviço da criação de condições favoráveis à organização da própria classe a que se encontra vinculado”. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 87).

Assim, o assistente social embora atrelado inicialmente à reprodução dos interesses da ideologia dominante é chamado a intervir em um projeto de classe alternativo, isso o caracteriza como um intelectual mediador de interesse de classes na luta pela hegemonia.

É desta forma que a prática profissional encontra-se atrelada a esse jogo de forças, quanto aos pontos de vista político, econômico e ideológico, em conjunturas históricas determinadas, conforme aponta Iamamoto e Carvalho (2007),

No desempenho de sua função intelectual, o assistente social, dependendo de sua opção política, pode configurar-se como mediador dos interesses do capital ou do trabalho, ambos presentes, em confronto, nas condições em que se efetiva a prática profissional. Pode tornar-se intelectual orgânico a serviço

da burguesia ou das forças populares emergentes; pode orientar a sua atuação reforçando a legitimação da situação vigente ou reforçando um projeto político alternativo, apoiando e assessorando a organização dos trabalhadores, colocando-se a serviço de suas propostas e objetivos. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 95).

Neste sentido, para se compreender o assistente social como intelectual orgânico de forma concreta é fundamental relacionar o seu exercício profissional enquanto práxis. seja Assim, para Barbosa (1981):

[...] a práxis pressupõe uma ação conjunta de todos os homens, onde o papel do intelectual é ajudar na reflexão para a descoberta do real concreto, formando uma consciência crítica. [...] É a práxis social-política, onde o homem é sujeito e objeto, na qual ele atua sobre si mesmo, quer dizer, transforma a natureza transformando a si mesmo. (BARBOSA, 1981, p. 39).

De acordo com Barbosa (1981) o Serviço Social está ligado a uma visão do homem histórico e na interação entre o mundo, articulado a determinada conjuntura e com a consciência da mesma. Desta forma, a práxis pressupõe a participação consciente e crítica dos homens, no processo de transformação. De todos os homens no esforço conjunto da superação do aparente ao concreto, do subjetivo ao objetivo. (BARBOSA, 1981, p. 39).

Entendendo agora o assistente social enquanto o intelectual orgânico e todas as determinações que se consolidam nessa categoria, estabelecemos a sua relação com a educação e a formação do sujeito político.

Primeira, resgata-se nesse ponto o objeto desse trabalho que consiste em entender qual a contribuição do Serviço Social na educação para a formação do sujeito político.

Para finalizar procurou-se demonstrar os aspectos da dimensão teórica (como citado anteriormente, como sentido metodológico) que influenciam a formação do sujeito político.

Essas dimensões são constituídas como política e pedagógica e caracterizam o exercício profissional dos assistentes sociais enquanto intelectuais orgânicos. Ainda, essas dimensões estão articuladas a um projeto profissional que aponta para uma determinada direção política que é composta também por uma determinada função pedagógica.

No trabalho do assistente social e sob essa nova direção social do atual projeto profissional há influência no modo de organização da consciência da classe trabalhadora, considerando ser este um intelectual orgânico. Esta nova forma de conceber a profissão do Serviço Social se opõe à antiga forma de organização voltada aos interesses da classe dominante.

[...] um agente de de atividades gerais que é portador de conhecimentos específicos, um especialista que também é político e que sabe não só superar a divisão intelectual do trabalho como também reunir em si “o pessismo da inteligência e o otimismo da vontade”. (GRAMSCI apud NOGUEIRA, 1998, p. 290).

Nessa nova lógica é possível considerar que assistentes sociais contribuem para a formação de sujeitos políticos, esses que poderão ver na história não como [...] uma força externa misteriosa qualquer e sim uma intervenção de uma enorme multiplicidade de seres humanos no processo histórico real, na linha da “manutenção e/ou mudança” [...]. (MÉSZÁROS, 2008, p. 50).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Não há na história, na vida social, nada de fixo, de enrijecido, de definitivo. E não existirá nunca. Novas verdades aumentam o patrimônio da sabedoria; necessidades novas superiores são suscitadas pelas novas condições de vida; novas curiosidades intelectuais e morais pressionam o espírito e o obrigam a renorvar-se, a melhorar”. A. Gramsci

A presente investigação buscou responder ao problema: como o Serviço Social na educação pode contribuir para a formação do sujeito político? Esta primeira aproximação aqui exposta evidencia que o Serviço Social contribui para a formação do sujeito político o que responde ao objeto dessa pesquisa. Isso se confirma pela fato da profissão conter nos seus fundamentos teóricos e no seu projeto ético-político profissional dimensões que possibilitam essa formação. Destaca-se portanto, que isso se dá em razão de estarem presentes as dimensões política e pedagógica tanto na formação quanto em seu exercício profissional e nessa linha de raciocínio o assistente social é considerado como um intelectual orgânico.

Primeiramente, foi necessário compreender qual a concepção de sujeito político e qual formação educacional é exigida nas relações de produção capitalista. Entendemos que o sujeito político reflete criticamente sobre a sua realidade, participa, faz escolhas e influi para a mudança da mesma.

Para realizar essa consideração foi preciso reconhecer que a pesquisa nos levou a ampliar o conhecimento anterior sobre a totalidade da realidade, ou seja, os aspectos econômicos, políticos e sociais das relações de produção no capitalismo nos quais os sujeitos estão inseridos. Nesse movimento histórico para a formação dos sujeitos políticos compreendeu-se que há um caminho viável: a educação.

Contudo, o modo de produção capitalista, divide a sociedade em classes, capital e trabalho, o que faz uma a primeira sobressair sobre a segunda, criando diversas formas de dominação para a reprodução dessas relações de exploração e acumulação de riquezas.

Destacamos nesse estudo que uma das formas preponderantes é a dominação ideológica, ela é perpassada por meio da educação institucionalizada que forma uma mão de obra voltada ao mercado de trabalho como modo de assegurar a reprodução desse sistema. O que contrapõe à concepção de educação enquanto formação também para a vida.

Assim, entende-se a educação como um dos meios de transformação da sociedade, por se constituir em um espaço de formação. É, por meio dessa educação que é possível construir

sujeitos políticos que possam problematizar a realidade social e agir sobre a mesma. Embora, esse processo requeira tempo e consiste em uma construção sócio-histórica coletiva.

Sabe-se que a área da educação, não se limita apenas às relações entre professor e aluno, vão além. Existem os aspectos formais e burocráticos de controle e planejamento da educação institucionalizada, equipes multiprofissionais que se complementam e entre as mesmas, o Serviço Social.

Assim, para a formação dos sujeitos políticos é possível a contribuição do Serviço Social se considerarmos que a educação é também um espaço de luta de classes e de manifestações das expressões da “questão social”. Entre elas a falta de consciência política e crítica desses sujeitos.

Este é uma espaço onde assistentes sociais podem intervir de forma significativa, pois, entende-se que há possibilidade da formação de sujeitos políticos na educação.

O Serviço Social é respaldado por um projeto ético-político, que possibilita uma direção social para a sua intervenção. E apresenta em seus fundamentos téorico-metodológico, ético-político e técnico-operativo diversas dimensões e entre elas com maior relevância, a política e pedagógica que são contribuições significativas para o processo de formação dos sujeitos políticos.

A dimensão política demonstra a relação e opção que essa profissão tem com a classe trabalhadora em suas lutas para a garantia dos direitos sociais. Relacionada à essa dimensão encontra-se a pedagógica, que contribui na formação de autoconsciência pelo esclarecimento das contradições, antagonismos da sociedade e a autoorganização desses sujeitos políticos.

Essa formação também constiste no trabalho realizado pelos intelectuais organicamente ligados à classe trabalhadora, sendo necessário portanto, que os mesmos objetivem a luta para a construção de uma nova ordem social, livre de toda alienação e exploração para se que alcance a plena emancipação humana.

Embora, nos limites desta pesquisa, buscou-se entender essas contribuições por meio dos fundamentos teóricos que embasam a atuação profissional dos assistentes sociais. Entende-se que a continuidade desse estudo é relevante para se compreender particularmente como a profissão Serviço Social na educação operacionaliza a formação do sujeito político.

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