2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3. A participação política e o desenvolvimento local
2.3.2. O associativismo e a promoção da democracia
valores dominante, os grupos que atuam pela via organizacional em geral se opõem aos valores vigentes, pois tributam a eles as desigualdades registradas na sociedade (AVELAR, 2007). Os movimentos sociais são exemplos de atuação por esta via e normalmente visam atender à necessidades coletivas, sem objetivar lucros monetários (FERNANDES, 1994, p.21). Não são instituições políticas formais porém fazem parte do processo político; por meio deles têm havido uma expansão da consciência política e por eles têm sido canalizadas manifestações de descontentamento popular no Brasil (AVELAR, 2007).
Interessante observar que o canal organizacional parece ter uma função de suporte, de mediação de forças com os outros dois canais: Avelar nos indica que o canal eleitoral, para ser de fato democrático depende da emergência de líderes, oriundos de uma variedade de organizações existentes na sociedade (AVELAR, 2007). Logo, é possível concluir que o canal organizacional alimenta o canal eleitoral, numa passagem natural – mas não obrigatória - do ativismo civil para a atuação governamental. Em relação ao canal corporativo Reis alerta que a falta de corporativismo societal, decorrente de um baixo associativismo, facilita a canalização de privilégios para a “elite aliada ao grupo governante” (apud AVELAR, 2007, p.267). Mais uma vez a capacidade de se organizar aparece como uma espécie de esteio, de modo que quando presentes, as organizações civis promovem uma mediação entre interesses do Estado e de mercado. Aprofundando o tema analisaremos a teoria em torno do associativismo e em seguida sobre a constituição dos conselhos gestores no Brasil, uma das expressões do canal organizacional.
2.3.2. O associativismo e a promoção da democracia
Vimos que a participação política, intimamente relacionada com o estabelecimento da democracia, se expressa em canais diversos, dentre os quais o canal organizacional, com os indivíduos se reunindo em grupos para atuar na arena política, no sentido amplo da concepção do termo. As formas de participação via o canal organizacional, como a atuação em conselhos, embora não de modo obrigatório, é normalmente precedida pelo pertencimento a algum tipo de associação. Fernandes (1994) nos lembra que embora a prática associativa autônoma não seja fenômeno contemporâneo, o crescimento e os contornos que o fato assume na atualidade se constituem no fato novo. No Brasil, dados do IBGE confirmam a intensificação do movimento, informando que das fundações privadas e organizações sem fins
lucrativos existentes em 2005, 41% delas foi criada entre 1991 e 2000 e mais 26% foram criadas de 2001 até 200510
; se dedicam a temas como educação, saúde, meio ambiente, cultura, assistência social, desenvolvimento e defesa de direitos.
A tendência de se organizar em associações, ou associativismo, foi investigada por Robert Putnam (2002) como um dos possíveis fatores com influência positiva no melhor desempenho institucional das regiões localizadas na parte norte da Itália. A pesquisa foi iniciada na década de 70, estimulada pela decisão do governo central de estabelecer governos descentralizados em vinte regiões italianas. Foi projetada com a visão de acompanhar a evolução destas instituições, que teriam que ser construídas a partir daí e foi levada a cabo durante os vinte anos seguintes, com várias rodadas de sondagens e entrevistas, com foco em seis regiões escolhidas.
Depois de avaliações criteriosas a pesquisa constatou que havia diferenças importantes e duradouras em relação ao desempenho dos governos regionais, mesmo quando partiam de pontos comuns em relação a estrutura, ordenamento jurídico e acesso a recursos. Registra-se um bom governo como sendo aquele que na maior parte do tempo serve aos interesses da maior parte das pessoas. Estabelecida a constatação, o desafio seguinte seria o de buscar explicações para as diferenças entre o desempenho institucional dos governos das diversas regiões. Para tanto a pesquisa admitia duas possibilidades: (1) questões relacionadas com a modernidade socioeconômica das regiões ou (2) questões relacionadas com a participação cívica e a solidariedade social, cunhada como “comunidade cívica”.
Sobre os aspectos tecnológicos a pesquisa identificou que o bom desempenho das instituições está relacionado com a maior modernidade socioeconômica, porém não de uma forma determinante: a maior modernidade não garante o melhor desempenho e nem a região menos privilegiada do ponto de vista tecnológico está condenada ao pior desempenho institucional (Putnam, 2002, p. 99). A segunda questão, relacionada com a “comunidade cívica” deveria trazer elementos mais esclarecedores.
Putnam se vale da teoria republicana para detalhar o que seria uma comunidade cívica11, com base em quatro tópicos. Em primeiro lugar a participação cívica, que se caracteriza pelo interesse e pela participação dos cidadãos nos negócios públicos, estando a busca do bem público acima dos interesses individuais. Em segundo lugar a igualdade
10 Fonte: IBGE - Cadastro Central de Empresas, 2005.
11 Ainda no século XVI os republicanos defendiam que o desempenho das instituições dependia da virtude cívica
dos cidadãos, pensamento posteriormente superado pela corrente liberal, que defendia o individualismo e os direitos individuais. Mais recentemente a descoberta do humanismo cívico retoma o ponto de vista dos republicanos, sendo rebatidos pelos defensores do liberalismo, que sustentam que a noção de comunidade exaltada por aqueles é um ideal “perigoso e anacrônico” (PUTNAM, 2002).
política, que indica o estabelecimento de direitos e deveres iguais para todos, mantendo-se relações horizontais de reciprocidade e cooperação, ao invés de autoridade e dependência. Em terceiro lugar a existência de uma postura de solidariedade, tolerância e confiança entre os cidadãos, mesmo em situação de conflito ou de divergências, superando as atitudes oportunistas. Em quarto lugar a existência de associações, indicadas como as estruturas sociais da cooperação (PUTNAM, 2002, p.100).
Sobre associações, Putnam (2002, p.103) indica que Tocqueville, analisando a democracia na América, atribuiu grande importância à disposição dos americanos para formar organizações civis e políticas. Acrescenta que os membros de uma associação se inserem num ambiente de cooperação, solidariedade e espírito público, desenvolvendo o senso de responsabilidade por projetos coletivos. A prática política em uma associação implica em exercício de tolerância, autodisciplina e colaboração; externamente, as associações se articulam em uma agregação de interesses, formando redes que incorporam e promovem a colaboração social. Da mesma forma que Avelar (2007), Putnam (2002) indica que a prática de formar associações é precondição para um governo democrático e ainda que as associações mais bem sucedidas são aquelas gestadas internamente às comunidades. No caso da pesquisa nas regiões da Itália foi verificada uma correlação entre densidade associativa e desempenho institucional, confirmando uma predisposição muito maior para formar associações nas regiões de melhor desempenho, e vice-versa.