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O Ato Adicional de 1834

III. O Império do Brasil

3.2. Liberais e conservadores

3.4.3. O Ato Adicional de 1834

Única reforma constitucional do Império, o Ato Adicional de agosto de 183433 representou o auge do avanço liberal iniciado com a abdicação de Dom Pedro I em abril de 1831. Ao mesmo tempo, catalisou as divisões e subdivisões políticas dos primeiros anos da regência e as dividiu nas tendências partidárias que depois transformaram-se no Partido Conservador e no Partido Liberal. Dessa forma, a partir de 1834, aqueles que se abrigavam sob o guarda-chuva liberal - que englobava os liberais moderados, as suas dissidências e os liberais radicais, conhecidos como exaltados - dividiram-se em liberais e conservadores, em consonância com as categorias políticas dicotômicas estabelecidas pelos acontecimentos na França das revoluções liberais.

Além disso, a possibilidade do retorno de Dom Pedro I ao Brasil com o intuito de restaurar um regime monárquico e autoritário nos moldes anteriores à abdicação – temor que mantinha radicais e moderados unidos sob a denominação de liberais – foi excluída com a morte do antigo imperador em setembro de 1834.34 Com a eliminação do inimigo comum, as rivalidades entre aqueles que, em oposição a Dom Pedro I, denominavam-se liberais, foram reavivadas e intensificadas com as eleições para a Regência una, ocorridas em 1835. Vitorioso,

33 O nome da reforma, qual seja, Ato Adicional, deve-se ao fato deste fazer adições e alterações à Constituição

de 1824 (Fausto, 2004).

34 Como coloca Needell (2006), ao longo de 1834, o espectro político brasileiro foi marcado pelo temor de um

golpe visando à restauração da monarquia absolutista e o retorno de Dom Pedro I ao trono brasileiro. A vitória do antigo Imperador na guerra civil contra seu irmão Miguel, motivada pela disputa pelo trono português, fez de Dom Pedro um inimigo temido pelos liberais. Por isso, sua morte inesperada no fim do ano foi fator decisivo na formação de uma frente conservadora como dissidência do grupo liberal até então unido.

Feijó permaneceria no poder até 1837, quando em meio a grave instabilidade política, renunciou à regência.

A partir da aprovação do Ato Adicional, entretanto, os membros do que seria o núcleo do Partido Conservador, notadamente Honório Carneiro Leão, proprietário de terras no Vale do Paraíba, dá início à articulação entre os moderados de tendência conservadora na Câmara dos Deputados em torno da oposição ao liberal Feijó. Insatisfeitos com as reformas promovidas pelo Ato Adicional, esses conservadores ganharam uma forte base de apoio no Rio de Janeiro, sustentada por laços políticos e familiares (Needell, 2006).35

As reformas promovidas pelo ato, consideradas pelos conservadores como inapropriadas para o ambiente político brasileiro, visavam ao fortalecimento do Parlamento em detrimento do Poder Executivo, podado, entre outras medidas, pela supressão do Conselho de Estado, e, como consequência, do Poder Moderador (Fausto, 2004; Needell, 2006).

Embora os presidentes das províncias continuassem a ser nomeados pelo Executivo, foram criadas Assembleias Provinciais que passaram a ser responsáveis pela nomeação e demissão de funcionários públicos no nível local, entre eles membros do Judiciário. Essas Assembleias também seriam encarregadas de legislar sobre despesas, rendas e impostos das províncias e dos municípios sem, contudo, prejudicar a arrecadação do poder central (Fausto, 2004; Parron, Youssef e Estefanes, 2014).

Com essas medidas, entretanto, o Ato Adicional promoveu também o enfraquecimento político dos municípios, uma vez que implementava, como coloca Mattos, uma “(...) pequena centralização, uma vez que submetia os interesses locais às forças dominantes no âmbito provincial (...)” (2004: 150). Ao criar novas assimetrias e desigualdades, ao mesmo tempo em que pulverizava competências antes a cargo do governo central, o Ato Adicional centralizava poderes estratégicos em termos regionais, surtindo efeitos contraditórios. Nesse sentido, Parron, Youssef e Estefanes enfatizam a relevância do impacto do Ato Adicional sobre o controle no plano eleitoral, uma vez que, “ Como as próprias elites provinciais pareciam ter perdido o controle social (segundo alegavam) e eleitoral nas localidades, elas conseguiram consagrar no Ato Adicional uma fórmula que, sem deixar de tolher o governo central, esvaziou também o poder municipal. (...) Valendo-se do expediente, algumas províncias (São Paulo, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba do Norte e Maranhão) transferiram atribuições do juiz de paz à figura

35 Os protagonistas dessa frente que mais tarde viria se transformar no Partido Conservador são, ao lado de Hermeto

Carneiro Leão (futuro marquês de Paraná); Paulino José Soares de Souza (futuro Visconde do Uruguai) e Joaquim José Rodrigues Torres (futuro Visconde de Itaboraí). Este, em função de seu prestígio político, também foi um dos principais articuladores dessa frente, então na qualidade de primeiro presidente da província do Rio de Janeiro, nomeado em 1834 (Needell, 2006; Parron, 2011).

do prefeito, cargo que elas mesmas inventaram e cujo ocupante era designado pelo presidente de província, o qual, mesmo sendo preposto do Executivo, agia sob consulta das Assembleias Legislativas” (2014:150). Entre as prerrogativas transferidas está a qualificação de eleitores e votantes.

A partir da aprovação do Ato Adicional e, principalmente, de 1835, quando se forma uma frente moderada na primeira Assembleia Legislativa Provincial do Rio de Janeiro, os conservadores deram início à oposição ao Ato Adicional. Propondo sua revisão, os conservadores tinham como principal objetivo a reversão da descentralização promovida por este e a reforma do Código de Processo Criminal criado em 1832 (Needell, 2006; Parron, Youssef e Estefanes, 2014).

No que diz respeito ao tráfico negreiro, associadas à lei Feijó, as revoltas provinciais (entre elas algumas escravas) traziam consigo o chamado hatianismo e o temor de um massacre de proprietários pelos escravos, incentivados pelo clima liberal do período. Na perspectiva dos senhores de escravos, a lei criava uma insegurança jurídica com relação ao seu direito de propriedade ao declarar automaticamente livres os escravos trazidos de forma ilegal ao país. O clima de insegurança também atingiu os traficantes, cujos custos no transporte e comércio de escravos aumentavam. Para além do superávit provocado pelo incremento dos anos anteriores, o novo contexto contribuiu para a queda da atividade negreira nos primeiros anos de vigência da Lei Feijó. “Noutras palavras, o tráfico negreiro não tinha como “destino manifesto” seu ressurgimento volumoso na forma de contrabando” (Parron, 2011: 125). Para que isso acontecesse seria necessária mais do que a conivência ou inércia das autoridades e instituições políticas nacionais.

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