• Nenhum resultado encontrado

A transcrição como ato enunciativo

2.3. O ato enunciativo e o estatuto do “mesmo”

“a continuidade do sentido entre a obra e a loucura só é possível a partir do enigma do

mesmo que deixa aparecer o absoluto da

ruptura.” (DERRIDA, 1995a, p. 108)

Pudemos observar até aqui que, para estudar o funcionamento da linguagem, é preciso considerar, de acordo com o pensamento de Benveniste, que a linguagem possui um aspecto repetível que consiste no sistema de signos linguísticos, e um aspecto irrepetível que consiste a língua em uso, mobilizada por um locutor que, ao se inscrever como sujeito da enunciação, se apropria da língua a partir de atos únicos e irrepetíveis.

Com base no duplo aspecto da enunciação – quais sejam o de repetibilidade porque é geral para todos os falantes, e de irrepetibilidade porque é individual no que se refere ao uso que se faz da língua – discutiremos, a partir de agora, o estatuto do conceito de mesmo. Nesta pesquisa, usamos este conceito quando dissemos que três transcritores diferentes

87

transcreveram um “mesmo” texto transcritível. Esta discussão, no entanto, surge em decorrência do fato de o estatuto do conceito de mesmo, neste caso, não estar de acordo com o senso comum.

Para o senso comum, quando se fala em mesmo, fala-se em situações idênticas, o que tenta conferir a situações diferentes um caráter de unicidade. O que nos autoriza dizer “situações diferentes”? O fato de se estar em questão o ato enunciativo não permite a possibilidade de se pensar em repetição, ou seja, se se pensar que nem o sujeito é idêntico à última vez que enunciou, pois se constitui o tempo todo, de forma progressiva e singular, discutir o estatuto do “mesmo” implica considerar que não é possível pensar no conceito de mesmo como se pensa no senso comum. Isso porque é possível trabalhar com a ideia de mesmo, mas na medida em que se tem como princípio a irrepetibilidade do ato enunciativo. Assim, o conceito de mesmo não converge na direção da unicidade de uma dada situação ou de um dado elemento, mas na direção de uma semelhança em que se permite observar a ruptura e, a partir dessa ruptura, observa-se, pois, as diferenças entre os elementos que são considerados como “o mesmo”. Nesse sentido, o mesmo (com)porta uma repetição com diferença.

Se pensarmos no objeto desta pesquisa, por exemplo, observamos que há um texto transcritível (material em áudio) que é repassado aos transcritores. No entanto, pensar que este material é o “mesmo” para todos os transcritores implica pensar que: i) os transcritores são diferentes e se partirmos do pressuposto de que assim que este transcritor se inscreve como sujeito na cena enunciativa, ele age de forma singular, por ser constituído também de forma singular; ii) se cada sujeito atua de forma singular, a forma como perceberão o texto transcritível também é singular, portanto, não idêntica; iii) como são transcritores diferentes, fez-se necessário a gravação de cópias desse material para cada transcritor, o que nos permite dizer que fisicamente essa noção de unicidade também acaba se perdendo.

Ao olharmos para o sistema linguístico, o que percebemos é que este é um sistema de valores puros, isso porque na língua tudo é diferente nas relações que se constituem. Em termos de linguagem, não há mesmo, no sentido de igual; há sempre deformação. Assim, toda operação feita por parte do sujeito da enunciação na/pela língua provoca, por mais que se faça um esforço imaginário de se produzir igual, uma deformação que sempre surge no/do ato enunciativo, na medida em que os elementos que provocarão e circundarão este ato, são sempre diferentes. É-nos permitido considerar essa diferença, porque, de acordo com o pensamento de Benveviste (2005), o tempo é o fator determinante e, o que torna esse ato

88

enunciativo um fato linguístico. Desse modo, antes de considerar fatores como historicidade e contingencialidade, é preciso considerar a temporalidade, pois é o tempo que determina os demais fatores desse jogo que envolve o ato enunciativo. Portanto, todo ato enunciativo é singular porque, a cada vez que se enuncia, há um tempo novo sendo instaurado e, que (se) instaura (em) uma nova contingência, por isso, um novo espaço enunciativo social e historicamente novo.

Além disso, considerando que um signo não é senão nas relações que estabelece no sistema linguístico, observamos que os efeitos produzidos por essas relações é que abrirão as portas para a produção de significação. Esses efeitos são os valores que emergem da oposição entre os signos e, dessa oposição, o que determina esses valores e delimita cada signo nas relações que estes estabelecem no sistema linguístico são as diferenças que cada um traz em si. Desse modo, se consideramos que o conceito de diferença é que determina, é que concede dada identidade ao signo linguístico e que essa diferença é oriunda da oposição desse signo em relação aos demais no sistema linguístico, no que se refere ao conceito de mesmo, então, entendemos que há um investimento imaginário que permite a emergência de um efeito de igualdade, de modo que o sujeito acredite que haja uma mesmidade no processo de apropriação/atualização da língua. Retomando o pensamento de Milner (2006), imaginário é a proposição que define, na língua, que há semelhante, e essa noção de semelhante é que abre para a possibilidade de instauração dessa mesmidade. Assim, toda vez que o sujeito, ao (se) enunciar, repete um enunciado já dito, esse sujeito acredita estar fazendo o mesmo que fora feito na(s) enunciação(ões) anterior(es) em que o enunciado ocorreu. Aqui é relevante retomar o exemplo saussuriano sobre o proferimento da palavra “senhores”. Se determinado falante, diante de uma plateia, para chamar a atenção dos espectadores, diz “senhores” e, por não receber a atenção desejada, diz novamente “senhores”, tantas quantas forem as vezes que este falante disser esta palavra, tantas quantas serão as possibilidades de observarmos as diferenças em cada uma das ocorrências. Isso porque, segundo Saussure (2006), a cada repetição da palavra “senhores”, o aparelho vocal não consegue realizar de forma idêntica as repetições, pois há sempre diferenças fônicas a serem observadas. Considerando o pensamento de Benveniste (2005), retornando novamente ao conceito de temporalidade, um mesmo falante somente pode proferir a palavra “senhores” de maneira consecutiva, sequenciada, jamais de forma paralela. Assim, cada vez que este falante pronuncia “senhores”, instaura-se um novo intervalo de tempo, o que instaura, consequentemente, diferenças entre uma ocorrência e outra. De forma bem simples, podemos observar nesse exemplo que a primeira vez que o

89

falante profere a palavra “senhores” ele está pedindo a atenção da plateia. Na segunda vez, ele ainda está pedindo a atenção da plateia, porém o segundo proferimento surge como um reflexo da reação da plateia que, por não reagir da maneira esperada pelo falante, em relação à primeira tentativa de chamar a atenção, abre-se para a possibilidade de se proferir novamente32 a palavra “senhores”, de modo que o falante intente novamente conseguir a atenção desejada. De fato, há uma diferença sonora a cada proferimento da palavra “senhores” pelo mesmo falante; no entanto, considerar as diferenças apenas a partir do aspecto sonoro seria, talvez, reter-se um pouco na superfície de um fato linguístico, ou em um aspecto fonológico, que tem mais a oferecer que o aspecto sonoro. Não estamos, com isso, querendo afirmar que Saussure tenha se restringido a estudar superficialmente o sistema linguístico, uma vez que sabemos da profundidade do pensamento saussuriano. Mas o fato é que é preciso ir mais fundo e observar os efeitos produzidos na apropriação da língua pelo falante enquanto sujeito da enunciação ao proferir repetidas vezes a palavra “senhores”. Assim, pensando na noção de repetível e irrepetível, há um significante [senhores] sendo repetido nesse processo a cada ato enunciativo, porém, a cada vez que este significante se repete, ele se inscreve na cadeia simbólica de maneira singular, portanto, única.

Em relação ao nosso objeto de estudo, nesta pesquisa, quando se fala de transcrição da oralidade ao escrito, é preciso observar inicialmente dois aspectos em relação ao conceito de mesmo: i) para produzir as transcrições, os transcritores recebem cópias das gravações feitas e que constituirão os textos transcritíveis que serão os “mesmos” para cada transcritor; e ii) depois de prontas as transcrições, há sempre uma tentativa, tanto de quem lê as transcrições quanto de quem as produz [os transcritores], de instituir entre texto transcritível e transcrição uma identidade, ou seja, de dizer que ambos são o “mesmo”. No que se refere às gravações das entrevistas e ao fato de serem colocadas na condição de iguais, devemos observar que o aspecto físico já diz o contrário, já demonstra as diferenças. Ao fazermos as gravações das duas entrevistas do programa Canal Livre por meio de um aparelho gravador, fizemos, pois, o registro destas entrevistas. A partir deste registro, as entrevistas tornaram-se textos transcritíveis, além de abrirem para a possibilidade de reprodução (por meio de cópias) dessas gravações. Assim, cada cópia feita ocupará um espaço diferente, tanto

32 O destaque da palavra “novamente” surge como uma forma de destacar o paradoxo que pode ser

observado na utilização do conceito de mesmo, uma vez que estas duas palavras caminham quase sempre juntas. Isso porque é muito comum dizer que um mesmo enunciado fora dito novamente. Assim, como considerar como igual algo que ocorre de modo novo? Reside aí, portanto, um paradoxo que reflete o quão é complexa as relações que se estabelecem com a língua, no ato enunciativo.

90

uma cópia em relação à outra, quanto às cópias em relação à primeira gravação, o que fecha para a possibilidade de tratarmos essas cópias como iguais. Outro detalhe é que, como estas cópias constituem os textos transcritíveis, portanto, com objetivo de serem transcritos por transcritores, é preciso considerar que cada transcritor fará uma leitura e uma interpretação singulares, únicas e, sendo assim, cada texto transcritível constituirá um texto diferente na perspectiva de cada transcritor. Já em relação à noção de mesmo entre texto transcritível e transcrição, observamos que há uma materialidade oral, com toda a sua especificidade: gestos, respiração, entonação, pontuação específica; e uma materialidade escrita com sua especificidade gráfica. O fato é que o conceito de mesmo, neste caso, cai por terra quando se observa que não há como dizer que são iguais os enunciados registrados em materialidade oral e, posteriormente, transcritos para a materialidade escrita.

Fuchs (1982), abordando o conceito de paráfrase, faz considerações relevantes para pensarmos o conceito de mesmo em relação à transcrição do oral para o escrito. Quando trata da paráfrase, no que se refere a seu aspecto enunciativo, a autora (idem), retomando a noção de ar de família de Wittgenstein e falando de um jogo de semelhanças que se relacionam, cruzando-se e entrecruzando-se numa espécie de tecido, e que confere a essa aproximação entre a paráfrase e o texto que a motivou um caráter de familiaridade.

Pensando o conceito de paráfrase trabalhado pela autora, observamos seu esforço em problematizar paráfrase como um conceito que comumente é abordado de forma objetiva, considerada a partir da noção de reprodução de um enunciado já dito em uma nova situação textual. Para além dessa objetividade, Fuchs (idem) lança seu olhar sobre as circunstâncias enunciativas oriundas do processo de construção da paráfrase. Em primeiro lugar, a autora considera as condições de ocorrência da paráfrase, que, grosso modo, consiste em produzir formulações diferentes a conteúdos “idênticos”. Nesse sentido, quando olhamos para o conceito de transcrição que estamos abordando nesta pesquisa, observamos que, quando se trata da paráfrase, assim como na transcrição, há uma tentativa de man(ter) o estatuto de uma primeira enunciação. De fato, como considera Fuchs (idem), o processo de construção parafrástica faz emergir as semelhanças existentes entre a paráfrase e o enunciado que lhe serve de referência; no entanto, é preciso considerar que a referência de que se serve o sujeito para produzir a paráfrase não é a própria paráfrase configurada de outra forma. Assim, o pensamento de Wittgenstein (apud FUCHS, 1982) nos permite observar que essas semelhanças escancaram as diferenças existentes tanto entre o enunciado de referência e a paráfrase, quanto entre as paráfrases que são produzidas a partir de um mesmo enunciado de

91

referência. Surge, de acordo com a autora (idem), então, um jogo de semelhanças que conferem ao processo de paráfrase uma noção que Wittgenstein (ibidem) denomina de “ar de família”. Ou seja, há no processo de paráfrase uma familiaridade que aponta para elementos comuns entre a paráfrase e o enunciado que lhe serviu de referência, bem como entre as múltiplas paráfrases que podem ser produzidas a partir de um mesmo enunciado.

Esse jogo entre semelhança e diferença, segundo Fuchs (1982), para a possibilidade de se pensar em um aspecto de transparência da linguagem baseado num investimento imaginário, já que emerge do processo parafrástico um efeito de manutenção de um estatuto inicial, porém que abre para o equívoco, para a ruptura, na medida em que observamos que a cada paráfrase produzida, os efeitos de sentido se distanciam desse estatuto inicial. Assim, também ocorre com a transcrição, pois parte-se de um texto transcritível que, para ser transcrito, deverá ser primeiro interpretado. Sendo assim, o transcritor não estará fazendo uma mera cópia, em outra materialidade linguística, do texto transcritível. Ou seja, ao transcrever, ao contrário de uma simples reprodução, idêntica, mesma, há a produção de uma versão. Assim, podemos perceber, nesse processo, mais um indício de que o conceito de mesmo é apenas um efeito imaginário, já que seja na análise de paráfrases, como aponta Fuchs (idem), seja na transcrição, o que podemos perceber é que se trata de atos enunciativos, nos/dos quais eclodem os rastros singulares; portanto, permitem observar a emergência de subjetividade na enunciação. E, se assim consideramos, apesar da possibilidade de considerarmos as semelhanças, o que mais nos chama a atenção são as diferenças.

Em suma, o “enigma do mesmo” de que trata o trecho que serve de epígrafe é que abre para a produção de efeitos de sentido, ou seja, na medida em que há um investimento imaginário que permite a instauração de uma mesmidade, há sempre um resto que sobra tanto no caso da paráfrase quanto no da transcrição, já que em ambos os casos há, em vez de simples reprodução, a produção de algo novo, ou seja, há sempre um novo ato enunciativo a cada vez que se produz paráfrase ou a cada vez que se transcreve. Portanto, o conceito de mesmo precisa ser teorizado segundo o quadro teórico da Linguística da Enunciação e do conceito de sujeito da enunciação, uma vez que estamos lidando com questões enunciativas. Nessa perspectiva, nossa teorização sobre o estatuto do mesmo leva à concluir que não há mesmo e, sim, repetição com diferença.

93

CAPÍTULO III