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2.3 Resumo histórico dos bairros e Terreiros relevantes para esta pesquisa

2.3.5 O bairro da Liberdade e o Terreiro Vodun Zo

O bairro da Liberdade, antiga estrada das Boiadas, que no final do século XVIII e inicio do século XIX pertencia ao perímetro urbano onde se encontrava a Freguesia de Santo Antônio Além do Carmo. Está freguesia criada em 1646 pelo bispo D. Pedro da Silva Sampaio, sendo uma das maiores freguesias em extensão territorial da cidade . O bairro da Liberdade se desenvolveu no distrito que tinha muitas roças e que pertencia aos religiosos da época — indivíduos pertencentes a igreja católica—. Era uma área pouco habitada, onde se encontrava, por exemplo, o Largo do Ouro (atual bairro Sieiro), Roça de Candomblé (atual bairro Japão), Campo do Santo Antonio (atual Curuzu), Corta-Braço (atual bairro Pero Vaz).A área foi denominada Liberdade por que foi o local por onde os lusitanos foram expulsos, em 02 de Julho de 1823, data da consolidação da Independência da Bahia.

As demarcações de terrenos se intensificaram a partir de 1940, através dos fluxos migratórios e a expansão do centro comercial nesse mesmo período, que foram desalojando as famílias residentes nas freguesias centrais da cidade. Vale lembrar que essa exclusão das áreas centrais foi também reforçada por uma política de saneamento básico colocada em prática, visando erradicar o perigo de surtos epidêmicos que ameaçavam essas áreas consideradas, na época, como insalubres, o que levou as autoridades a desencadearem uma série de medidas objetivando a extinção dos mocambos no centro da cidade. Conforme a nota jornalística a seguir escrita por Luiz Viana Filho:

“A questão dos mocambos.

A prefeita acaba de declarar guerra aos “mocambos”. Os proprietários dos mocambos foram, por decreto, obrigados a demoli-los sob pena de serem multados.

Terá a Prefeitura coragem e mais de que isso, possibilidade de demolir as casas na sua maioria de propriedade de moradores, ocupadas por milhares de pessoas? Evidentemente que não poderia fazê-lo, pois não dispõe de recursos para construir habitações, como as que deseja, para acolher. Quantos ficariam desabrigados se, por ventura, fosse cumprido o ato municipal. Bem se vê, portanto, apenas à luz desse argumento a impossibilidade material que a Prefeitura, ao voltar-se contra as casas que enchem o Alto das Pombas, o Alto do Japão (Liberdade), a cidade de Palha (Cidade Nova) e tantos outros, deixou-se levar pelos aspectos ideais do caso, esquecendo-se da realidade” (A Tarde, 10/10/1944).

Analisando a nota citada anteriormente, pode-se verificar que a intenção das autoridades da época era tirar a população carente das regiões centrais. Mas, se por um lado, a prefeitura não dispunha de recursos para executá-lo, por outro, as populações carentes, que viviam em condições sub-humanas em seus mocambos não poderiam obedecê-la. A cidade estava infestada de mendigos em completa situação de miséria, sob as pontes e viadutos. Podemos dizer que este decreto promoveu o processo de “ segregação residencial” abordado por Edward Telles(2003).

A Estrada das Boiadas, com seus inúmeros templos de Candomblé, principalmente o Candomblé de Caboclo, também foi palco de confrontos, envolvendo missionários cristãos – indivíduos pertencente a igreja católica e protestante – e a grande parte de sua população, sendo alvo de perseguições, discriminações e vários tipos de arbitrariedade. Tem-se notícia, através do jornal Diário da Bahia, do dia 02/02/1898, de uma denúncia sobre um Candomblé de Caboclos na antiga Estrada das Boiadas. A denúncia foi produzida por um autor anônimo, assim publicada:

“Continua a perturbar o silêncio publico e a ser um verdadeiro foco de imoralidade e conflitos um terrível candomblé na Estrada das Boiadas” (Diário da Bahia, 02/02/1898)

“...Nas Estrada das Boiadas, por exemplo, existem três desses antros de corrupção. Por muito tempo esteve ali na “bera” um candomblé denominado caboclo, de um tal Bernardinho, por morte do qual passou o Terreiro à propriedade de Manoel, vulgo Maneta, um individuo que passa o tempo, que podia aproveitar em um trabalho dignificante, a ceivar a ociosidade, que lhe proporciona o seu papel de interprete de santos, curador de malefícios, proporcionador de aventuras” (Diário da Bahia, 02/02/1898, citado por Nina Rodrigues).

No referido bairro, existe, na rua do Curuzu, um dos maiores imóveis do bairro, com 2.408 m2 exatamente, é o terreiro que tem a maior área de verde da região da Liberdade: o Vodum Zo, pertencente à nação Jeje. Zelado por Toté Amilton, o trerreiro localiza-se na área há mais de 20 anos, Pai Amilton conta que o terreiro vem sofrendo perdas significativas do seus espaços verdes por causa da invasão de vizinhos, e conta que a prefeitura para fazer uma encosta retirou quatro pés de jaqueiras, árvore de grande porte e que tem uma grande importância para a religião. O Terreiro não foi tombado e encontra-se sufocado em meio a várias casas, sem nenhuma privacidade. Amilton pontua a dificuldade de acesso às pessoas que tratam do processo de tombamento; segundo ele, as tentativas sem sucesso o fizeram acomodar.

Ao empurrar o portão, encontra-se um lance de escadas. Virando a esquerda as escadas levam a um jardim com banquinhos de cimento e uma fonte com a escultura de uma sereia dourada de olhos azuis a se observar por um espelho. Ela representa Oxum a deusa das águas doce para osnirubás. Voltando para o lance de escadas principal encontra-se uma casa branca com janelas e portas de madeira. Na porta de entrada encontramos duas esculturas de negros africanos pintadas de dourado, saindo das paredes. Passando por esta porta encontramos uma enorme sala bancos compridos de madeira e cadeiras arrumadas uma do lado da outra. Na porta que dá acesso ao corredor do resto do casarão existem uma escultura com duas serpentes douradas que vão do chão ao teto e duas estatuas de galos uma em cada

ponta da porta do corredor. E no quintal, uma enorme área de terra batida e muitas árvores e plantas.

Esse é o cenário do terreiro Xwe Vodun Zo, um terreiro consagrado ao vodun Sogbo, pertencente à nação Jeje Savalu.. Segundo o líder do terreiro, Dote Amilton Costa de 60 anos de idade, seu terreiro é o mais antigo e famoso do Curuzú, conhecido nacional e internacionalmente. O terreiro não tem nenhuma ajuda financeira e se mantém de doações e da venda de artesanatos ligados aos símbolos dos Orixás de sua loja no Pelourinho. Homem de poucas palavras fala somente o que entende que é necessário, Doté Amilton não revela detalhes da sua linhagem de consagração. Ele explica que é para preservar a discrição que marcou a casa onde pôde cumprir todas as obrigações rituais que o prepararam para o posto. Mas, quando o assunto é área verde do terreiro Dote Amilton revela que sofre muito com as invasões que são recorrentes no entorno de sua área e luta para mante-la, “É muito

interessante o pessoal chegar aqui no Curuzú, onde tem um amontoado de casas e de gente e saber que tem uma área verde dessa aqui. Com mangueiras, jaqueiras, bananeiras…”,(Amilton, Salvador, 23/06/2006) declarou Pai Amilton. Abaixo foto da entrada do terreiro Vodum Zo.

8. Fotografia 6.

Terreiro Vodum Zo Foto: Sueli Conceição