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CAPÍTULO 3: “Costurando” os retalhos de uma cidade

3.3 SOBRE SOCIABILIDADES NOS ARMARINHOS E MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS NA COSTURA

3.3.1 O bairro de origens divinas (Divina Providência)

No bairro Divina Providência reside a costureira Dona Chita e seu filho Diego. Para chegar a sua casa, preciso caminhar até o centro da cidade, mais precisamente até a Rua dos Andradas entre a Rua Floriano Peixoto e a Avenida Rio Branco para pegar o ônibus que indica “São João” em seu visor. Os horários de ônibus para esta região da cidade não são frequentes, visto que foram longas as esperas nas paradas, tanto no sentido centro/bairro quanto o inverso. Depois de pegar o ônibus, observo a rápida descida na Rua dos Andradas. O ônibus continua a descer até encontrar a Avenida Borges de Medeiros onde dobra à direita e prossegue com o percurso em linha reta. Esta parte da cidade é uma descoberta para mim, pois até o momento da primeira visita à casa de Dona Chita, nunca havia passado por este caminho. Observo o comércio ao longo da rua, mercadinhos, ferragens, bares, agropecuárias, sapatarias, farmácias e uma construção antiga e imponente chamada de “Pão dos Pobres”, que logo depois descobri ser uma escola.46

Adiante reconheço uma das estações da viação férrea, aparentemente esquecida pela prefeitura e por muitas pessoas da cidade, exceto por algumas moradoras e moradores da Vila Km2 que organizam a “Associação de Catadores e Reciclagem Noêmia Lazzarini” no local. Onde também a escola de samba “Vila Brasil” (a escola mais antiga de Santa Maria) realizava ensaios abertos para o carnaval que costumava existir na cidade.47 Mais para frente, seguindo o percurso do ônibus, dobramos a esquerda e depois de duas quadras consigo avistar a casa de madeira cor laranja de Dona Chita, localizada na esquina da Rua Helmuth Knies. A rua passou a levar esse nome difícil depois

46 Também descobri que logo atrás do Pão dos Pobres, visualiza-se uma segunda escola, mas dessa vez de

ensino privado e chamada de “Divina Providência”. O bairro passou a levar também este nome em função da escola ser uma referência na região. Embora, quando se menciona tal região na cidade, o mais comum é que as pessoas se lembrem da primeira escola.

47 Hoje em dia, a escola de samba Vila Brasil ainda promove no local da antiga estação algumas oficinas

de batucada com alunos e alunas da Escola de Educação Infantil Pão dos Pobres. Figura 21: Vizinhança de Dona Chita no bairro Divina

que o morador mais antigo faleceu, de “A Número 3” o nome da rua passa a homenagear aquele que fundou a associação da vila em 1985. A fonte da informação é segundo outra moradora antiga da vila, a Dona Chita. O novo nome da rua ainda não consta em dispositivos on-line como o Google Maps.

A zona urbana de Santa Maria está dividida em 41 bairros, os quais, por sua vez, são formados por 226 unidades residenciais. Anteriormente a divisão se dava em bairros/vilas pela Lei Municipal

nº2770/1986, mas atualmente a Lei Municipal Complementar de nº42/2006 altera a divisão urbana e, por consequência, as unidades residenciais passam a existir e abranger as vilas, os loteamentos e os parques, dentre outras unidades. Sendo assim, Dona Chita reside na Vila Brenner que está localizada no bairro Divina Providência, que é composto por outras duas unidades residenciais, as vilas Km2 e São João Batista. O bairro nasceu no ano 2006, a partir de uma desagregação do bairro Salgado Filho. Segundo os dados da ADESM, o bairro delimita uma área de 0, 8409 km² e conta com 1, 346 moradoras(es). Segundo o gráfico (Figura 22), o bairro apresenta um crescimento da população entre 15 e 19 anos, sendo a população mais velha, a partir dos 60 anos, reduzida. Na faixa etária dos 90 anos, nota- se apenas um grupo pequeno de mulheres. Este pode ser apontado como o motivo pelo qual a rua onde reside Dona Chita ser conhecida pelas e pelos residentes do bairro como a “Rua das Viúvas”48.

48 Como é uma rua localizada na Vila Brenner, região mais antiga do bairro Divina Providência, residem

nela moradoras mais velhas que já perderam seus companheiros de vida, por isso ficou conhecida como a Rua das Viúvas. Este fato solidifica o entendimento de que as mulheres em idade avançada, em geral, são mais numerosas do que os homens em idade avançada. Que, aliás, podem-se observar nos gráficos indicadores da faixa etária para homens e mulheres de cada bairro.

Figura 23: Pirâmide etária do bairro Divina Providência. Fonte: elaborado pela autora a partir dos dados adicionais do programa de sinopse por setores do censo do IBGE de 2010

Conforme o filho de Dona Chita, o cientista social Diego Marafiga (2016), a separação da área condizente ao atual bairro Divina Providência do território total do bairro Salgado Filho se deve ao fato de ter havido uma “invasão” do loteamento km2, ou seja, uma ocupação do lugar por famílias de baixa renda nos anos 2000. A ocupação ficou conhecida pelo termo pejorativo de invasão por meio da comunidade mais antiga que reside próxima ao local. Existe um forte estigma carregado pelas famílias de baixa renda que é somado a um discurso de aumento da criminalidade na região, mesmo que a situação das famílias tenha sido regularizada através do Programa Minha Casa, Minha Vida e do Programa de Aceleramento da Economia (PAC). Algo semelhante ocorre com a ocupação do Km3, bairro localizado no sentido leste da cidade, mais próximo aos bairros Pés-de-Plátano e Camobi. São chamados pelas unidades de medidas, quilômetros (Km), devido às antigas estações férreas localizadas nestes locais. Ambos

os lugares tiveram suas áreas ocupadas por moradoras e moradores de baixa renda.49 Nessas regiões, o que aparentemente está abandonado para aquelas(es) que olham de fora e de ônibus – como eu inicialmente olhava – é ocupado e ressignificado pelas pessoas.

Ao caminhar pelo bairro Divina Providência, as moradoras e moradores não sabem ao certo informar se uma determinada rua de divisa faz parte da Vila Brenner ou da Vila São João Batista, mas com toda certeza identificam qualquer rua do Km2. Isso porque não é somente a pavimentação das ruas (de uma pavimentação asfáltica, o lugar passa a ser de chão batido) que se difere das demais vilas. É visível a diferença estrutural das casas (as casas de alvenaria são substituídas em maior número pelas casas de madeira) e a quantidade de resíduos presentes em frente a elas, devido ao fato de uma grande quantidade de moradoras e moradores do local serem recicladoras(es) de materiais reutilizáveis.

Depois de sair com meu colega Diego para uma caminhada etnográfica que visava conhecer um pouco mais da região em que residem ele e sua mãe Dona Chita, obtive a oportunidade de conversar com moradoras(es) que nos contaram suas vivências e versões sobre a história do bairro. Dentre as pessoas com quem conversamos naquele dia, dois grupos distintos nos detiveram mais tempo e atenção, o primeiro deles foi um grupo de crianças (doze no total) que brincavam numa rua próxima a antiga estação. Entre uma maioria de meninos e duas meninas, de idades aproximadamente entre 6 e 12 anos brincavam de empinar pipa, tocar pandeiro e jogar futebol. Era uma cena bonita e de fato um retrato admirável, não obstante meu colega quis fotografar e eu quis perguntar para eles se poderia fazê-lo também. O resultado dessa aproximação foi um longo período em que ficamos conversando com as crianças. Elas nos contaram seus nomes, onde moravam, suas idades e respectivas séries na escola. Contamos o que fazíamos e de onde éramos, mas o que eles entenderam é que eu era uma fotógrafa e prontamente quiseram fotografar. Assim, as crianças usaram da máquina fotográfica

49 É válido ressaltar que no ano de 2015, a ocupação batizada de “Estação dos Ventos” (Km3) realizou

protestos na cidade se referindo às obras do PAC até então estagnadas pela prefeitura. Jornais locais alternativos conjuntamente com apoiadoras(es) realizaram a cobertura dos protestos e de uma segunda ocupação, desta vez no centro da cidade no edifício “Galeria Rio Branco” que estagnou suas obras há 44 anos. Esta segunda ocupação não visava moradias, mas sim obter visibilidade para os problemas enfrentados pela população do Km3. A reportagem do jornal “O Viés” está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=opsqblAKLI0. Pode-se conferir outra reportagem do jornal em http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/04/o-mau-vizinho/. Nesta última, busca sanar a curiosidade das e dos leitores sobre o caso do “Mau vizinho”, o prédio abandonado na Avenida Rio Branco.

para enquadrar suas brincadeiras.50 Este fato só revela o quanto a câmera abre portas e diálogos com interlocutores diversos e o quanto a “etnografia de rua e câmera na mão” (ROCHA; ECKERT, 2002) pode ser algo inspirador.

Chegando à estação, encontramos dois homens que conversavam em frente à antiga construção. Aproximamo-nos e na medida em que conversávamos, descobrimos que os dois homens eram irmãos. Eles nos contaram sobre os causos que presenciaram na região desde que instalaram uma fábrica de móveis sob medidas na estrutura da antiga estação, logo depois que o ponto deixou de ser um armazém de carga e descarga da Rede de Viação Férrea. Desde a instalação da fábrica “Móveis Rio Branco”, já se passaram 41 anos. Um dos irmãos, Seu Miro, relata que nos primórdios da fábrica podiam contar com 21 funcionários e outras duas lojas no centro da cidade, mas com o passar dos anos essa realidade foi mudando.

A decadência da Viação Férrea e também a posterior estigmatização do Km2, logo ao lado, mudaram o cenário ao redor da fábrica e o tipo de sociabilidade que passou a acontecer por ali. Seu Miro lamentou bastante a situação de muitas pessoas dependentes químicas usarem o local para pedirem dinheiro e consumirem tais tipos de substâncias. Contou-nos que tiveram muitas invasões no lugar de trabalho, mas que a frequência das ocorrências também depende da época em que se está vivendo. Uma vez que houveram muitos móveis furtados em épocas de crises financeiras, outra vez que já tiveram os estoques de colas de sapateiro zerados devido ao alto consumo psicoativo da substância. Sobre a decadência da Viação Férrea, seu Miro lamenta, “hoje em dia, a

empresa que assumiu isso daí, não quer saber de terra, das pessoas e da cidade, eles só querem saber da carga”. Frente a estes fatores, a “Móveis Rio Branco” não possui mais

funcionários em seu interior, contudo, os dois irmãos continuam firmes em seus trabalhos.

50 Algumas fotografias deste dia acompanham o texto, contudo, somente aquelas em que não aparece o

rosto das crianças. Isso se configura numa questão ética em que escolho não utilizar as outras fotos, devido ao fato de não ter acontecido um contato com todas(os) as(os) responsáveis pelas crianças, sendo assim, eu não tenho a devida permissão para utilizá-las.

Em suma, o mais importante de frisar é que no bairro Divina Providência, a referida ocupação de moradoras e moradores na Vila Km2 junto com o abandono da estrutura da antiga Viação Férrea por parte das autoridades configuram um importante

fator para compreendermos a história e a estigmatização da vila, do bairro e de toda a região conhecida como zona norte.

Figura 26: Antiga Estação da Viação Férrea localizada no Km2, onde acontecem as oficinas de batucada da escola de samba Vila Brasil e também onde está a Associação de Recicladores da vila. Fonte: Street view do Google Maps.

Figura 27: Diego e Seu Miro em frente à fábrica de móveis, onde costumava ser a estação

Figura 28: A fábrica de móveis em seu interior