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VIOLÊNCIAS NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE BELÉM: diagnóstico do clima escolar

1 O BAIRRO E O CLIMA ESCOLAR: A VISÃO DOS SUJEITOS

A visão dos sujeitos sobre as escolas registra que a maioria das

escolas encontra-se em péssimo estado de conservação, bastante de-predadas, com muros e paredes externas e internas pichadas, marcadas por desenhos e signos – alguns ininteligíveis – confeccionados por mem-bros de gangues que, em muitas situações, fazem parte do quadro dis-cente das escolas.

Assim, a maioria (62,8%) dos informantes percebe o lugar da es-cola como violento e inseguro. Isso se constitui numa sinalização para que se articulem as políticas públicas que atuem para a resolução do problema.

TABELA 1 – Como é o bairro onde sua escola está localizada

Fonte: Pesquisa de campo – UNAMA/Pró-Paz Educação 2005.

Não obstante, as problemáticas apresentados apontam que 22,8% do total da amostra consideram o bairro agradável e 4,8% seguro. Em contrário a esta tendência, 31,3% assinalou ser violento e 31,5%,

insegu-ro, coincidindo com depoimentos dos sujeitos entrevistados.

Quanto às relações familiares, é importante frisar que estas ten-dem a repercutir no contexto institucional, em função da situação

emo-cional decorrente. Os dois atores sociais centrais da escola, professores e alunos, quando vivenciam clima de tensão familiar, tornam-se menos produtivos, e de uma forma ou outra, sua situação emocional repercute no contexto das relações estabelecidas na escola.

Não raro, o cotidiano das famílias dos alunos entrevistados é mar-cado pela ausência do diálogo e pela ausência dos pais em relação aos filhos. De acordo com os alunos entrevistados, o diálogo só se estabele-ce entre pais e filhos quando surge alguma cobrança, como por exem-plo, em relação às notas e ao cumprimento das tarefas do dia a dia.

Em se tratando das percepções gerais sobre as escolas, a maioria dos sujeitos da pesquisa percebe que as escolas encontram-se em péssimo esta-do de conservação, bastante depredadas, com muros e paredes externas e internas pichadas, marcadas por desenhos e signos – alguns ininteligíveis – confeccionados por membros de gangues que, em muitas situações, fazem parte do quadro discente das escolas, como ilustra a citação abaixo:

Parte desses alunos que estão aqui em sala de aula são pessoas que fazem parte de gangues, de grupos de pichadores, e por aí vai. Aí esta gente vem, né, se junta com esses aqui, motiva esses daqui pra começar e formam uma “escola” dentro da escola, mas não é uma escola acadêmica, é uma escola do crime (GRUPO FOCAL – PROFESSOR). O estudo apresenta concepções sobre o relacionamento entre os su-jeitos que integram o ambiente escolar, analisando as relações e o grau de liberdade experimentado por cada um deles, assim como a participação dos pais junto à escola e também, o grau de satisfação dos mesmos com a escola, estabelecendo algumas comparações entre o que mais gosta e o que menos gosta, bem como as motivações internas para frequentar a escola.

Sobre as violências nas escolas, inicialmente foram traçados as-pectos conceituais, destacando a compreensão de conflito e violência e, posteriormente, as diversas formas de violências: física, psicológica, sexual, violência ao patrimônio, ao meio ambiente, discriminação e outros tipos de violência no ambiente escolar.

Uma das hipóteses que fundamentou a presente pesquisa tem a ver com a compreensão entre as noções de conflito e violência, ou seja, que a existência de conflitos entre os segmentos que compõem a escola é

sempre tomado como manifestação de violência. Dito de outro modo, trata-se da hipótese da negação do conflito como componente favorável nas relações entre os vários atores socais da comunidade escolar.

Investigando a relação dos sujeitos com a direção da escola, se obteve os seguintes dados: respeitosa e amigável 85%, desrespeitosa,

agressiva e indiferente 13,6%, que demonstram a predominância de um

satisfatório nível de relações com a direção da escola. Evidenciou-se grau maior de satisfação com a direção da escola, 85%. Sem dúvida, isso é o desejável; no entanto, os 13,6% de insatisfação decorrente do rela-cionamento com a direção, haja vista que escolas atendem parcelas do coletivo, não podem ser desconsiderados.

No tocante aos aspectos qualitativos, resultantes dos grupos focais, evidenciou-se uma inversão, contrapondo-se aos aspectos quantitativos. Os depoimentos apontam maior grau de insatisfação na relação com a dire-ção. Isso causou surpresa aos investigadores. A inferência é que muitos alunos, ao se manifestarem através do formulário, deram configuração co-notativa ao item respeito, cujo sentido seria de “distanciamento” e “medo”. Para os professores, o comportamento agressivo dos alunos ad-vém da falta de apoio por parte da família, muito omissa em relação ao cotidiano dos filhos na escola. Esta omissão da família em relação à educação dos filhos gera por parte dos últimos uma visão equivocada de impunidade, chegando a casos graves de ameaças aos professores.

[...] a violência do aluno contra a gente (professor) é muito grande. Porque, hoje em dia, você vai pra escola, por incrível que pareça, a gente tá chegando num nível sem saber se a gente vai voltar ou não. Nós já pegamos alunos aqui armados, que vieram com o intuito de machucar alguém [...]. (GRUPO FOCAL - PROFESSOR).

A pesquisa revelou tensões na relação entre professor e aluno, conforme ilustra a fala a seguir:

Tem professores que não entendem que o aluno não entendeu, se o aluno perguntar [...]. Que o aluno tem uma dificuldade de entender o que tá se passando [...]. Então, o aluno vai perguntar e o professor já reage mal, professor trata mal, explica mal, tudo isso [...]. (GRUPO FOCAL - ALUNO).

Quando se investigou sobre o grau de satisfação/motivação dos sujeitos com a escola, verificou-se variação de preferência manifestada por toda a amostra, conforme ilustra Tabela 2:

TABELA 2 - Comparação entre o que mais gosta e o que

menos gosta na escola

Fonte: Pesquisa de campo – UNAMA/Pró-Paz Educação 2005.

Esta comparação evidencia que colegas, professores, aulas e

aprendizagem, indicada por quase 70%, além de relacionamentos

(49,3%), estes são os fatores que mais gostam na escola, enquanto o

espaço físico (26,3%) e a merenda (12,2%) figuram como fatores que os

sujeitos menos gostam na escola, porque denunciam a necessidade de urgentes medidas reparadoras para garantir a qualidade das escolas públicas. A atribuição da responsabilidade sobre as violências ocorridas nas escolas está demonstrada na Tabela 3.

TABELA 3 - Quem você identifica como responsável pela

violência na sua escola?

Fonte: Pesquisa de campo – UNAMA/Pró-Paz Educação 2005.

Como se observa, metade dos informantes atribui a responsabi-lidade pela violência aos alunos. Este é um dado que reflete um concei-to formado no senso comum de que violência nas escolas é sinônimo de delinquência infanto-juvenil e certamente interfere nos procedi-mentos programáticos disciplinares, com relação ao enfrentamento da violência nas escolas.

Para verificar empiricamente a hipótese de que existe uma indefi-nição entre conflito e violência por parte dos sujeitos pesquisados, in-troduziu-se um conjunto de questões no formulário aplicado, visando capturar suas compreensões sobre ambos os conceitos. Os resultados alcançados representados na Tabela 4 mostram que a hipótese se con-firma, porque menos da metade dos entrevistados (48,6%) reconhece-ram que existe diferença entre eles.

TABELA 4 - Diferença entre conflito e violência

Fonte: Pesquisa de campo – UNAMA/Pró-Paz Educação 2005.

Em seguida passou-se a sondar como os entrevistados tratam a

responsabilidade sobre as violências ocorridas nas escolas, conforme

GRÁFICO 1 - Responsável pela violência na escola (%) Fonte: Pesquisa de campo – UNAMA/Pró-Paz Educação 2005.

Como se observa, metade dos informantes atribui a responsabi-lidade pela violência aos alunos. Este é um dado que reflete um concei-to formado no senso comum de que violência nas escolas é sinônimo de delinquência infanto-juvenil e certamente interfere nos procedi-mentos programáticos disciplinares em direção ao enfrentamento à vi-olência nas escolas.

2 CONFLITOS E VIOLÊNCIAS NAS ESCOLAS: O DILEMA DO VISÍVEL E DO