I.4. O caso das universidades
I.4.1. O Balanced Scorecard e o Ensino Superior
Desde que surgiu, nos inícios dos anos 90, o Balanced Scorecard tornou-se bastante popular junto das organizações do sector privado, porque permitia avaliar quer o desempenho financeiro quer o não financeiro. Também tem sido amplamente utilizado nas organizações sem fins lucrativos e nas organizações do governo com excelentes resultados (Kaplan & Norton, 2001). Apesar de ter sido originalmente desenhado para ser utilizado nas organizações com fins lucrativos, o modelo é flexível o suficiente para todo o tipo de organizações, incluindo universidades (Papenhausen & Einstein, 2006). Contudo, existem poucos estudos onde se analisa o Balanced Scorecard no contexto da educação e, especificamente, no ensino superior (O'Neil, Bensimon et al., 1999; Karathanos & Karathanos, 2005; Beard, 2009). Uma revisão da literatura permitiu encontrar algumas publicações significativas que se resumem na Tabela 3.
Tabela 3 – Aplicação do BSC no contexto do Ensino Superior
Autor(es) Objetivo(s) Perspetiva do cliente Perspetiva Interna
Perspetiva Aprendizagem e
Inovação Perspetiva Financeira Categorias de medidas Bailey, Chow et al (1999) Abordagem ao BSC para estimular e apoiar a melhoria contínua; Utilidade nas escolas de negócios.
Stakeholders (estudantes, empregadores, universidade, antigos alunos, pais) Excelência académica Imagem pública: reputação Qualidade dos serviços e melhoria
contínua
Ensino e aprendizagem de excelência
Currículo/programa de excelência e inovação
Qualidade e valor da universidade Eficiência e eficácia do serviço Aspetos estratégicos
Ensino e aprendizagem de excelência
Qualidade das instalações Processos orientados pela missão
e sistema de recompensas
Captação de recursos Rendimentos das operações Investimentos de capital humano Gestão financeira
Relações e imagem pública
O’Neil, Be si o et al. (1999)
Ajustar o BSC a uma organização académica; BSC Academic Scorecard
Perspetiva do stakeholder: Como é que os stakeholders nos veem? (estudantes, empregadores)
Sem alteração Sem alteração Perspetiva gestão académica: como somos vistos pela liderança da universidade?
Chang & Chow (1999)
Aplicabilidade do BSC a
cursos de contabilidade Empregabilidade Qualidade de Ensino Valor dos programas Qualidade da orientação académica Satisfação Garantia da qualidade Programas de estágios Eficiência Qualidade do currículo Crescimento profissional Inovação no ensino e no currículo Parcerias com empresas de
contabilidade
Financiamento Classificações finais
Nível e tendência do número de matrículas
Cullen, Joyce et al. (2003):
Aplicabilidade do BSC a uma
escola de gestão Alunos Reputação Parcerias Racionalização da oferta educativa Recrutamento de alunos Mecanismos de informação Avaliação e Acreditação Investigação Rendimento Papenhausen & Einstein (2006) Aplicabilidade do BSC a uma
escola de negócios Estudantes Comunidade (empregadores, antigos alunos e pais) Docentes
Universidade
Geral (qualidade de ensino, excelência académica, qualidade da investigação) Excelência no ensino e aprendizagem Programa/currículo de excelência e inovação Qualidade
Eficiência e Eficácia do serviço
Ensino de excelência e inovação Processos orientados pela missão
e sistema de recompensas Qualidade das instalações
Financiamento
Rendimento das operações Gestão financeira
Umashankar & Dutta (2007)
Aplicabilidade do BSC ao
Ensino Superior Indiano Estudantes/Pais Docentes/Não-Docentes Antigos Alunos Sociedade Garantia da qualidade Programa de estágios Eficiência Qualidade do currículo Investigação Satisfação Inovação do currículo/ensino Parcerias Gestão de recursos Cidadania organizacional Tecnologia
Nível e tendência do número de matrículas
Financiamento por estudante Utilização eficaz e efetiva das instalações, espaço, serviços, sistemas e recursos
McDevitt & Giapponi (2008)
Desenvolver e aplicar uma versão do BSC numa divisão académica da universidade (por exemplo, uma faculdade, departamento) passando 4 para 5 perspetivas
Perspetiva das bolsas e investigação – produtividade, impacto.
Perspetiva do serviço e alcance – alunos, universidade, candidatos
Perspetiva do crescimento e desenvolvimento -
desenvolvimento profissional (sem ser na sala de aula) Perspetiva do ensino e
aprendizagem - pedagogia, currículo, avaliação, resultados dos estudantes
Perspetiva dos recursos financeiros – rendimentos e despesas
Farid & Nejati (2008) Aplicabilidade do BSC a universidade e institutos do ensino superior; implementação no contexto iraniano Estudantes Comunidade (empregadores, antigos alunos e pais) Docentes
Universidade
Geral (qualidade de ensino e da investigação, excelência académica) Excelência no ensino e aprendizagem Programa/currículo de excelência e inovação Qualidade
Eficiência e Eficácia do serviço
Ensino de excelência e inovação Processos orientados pela missão
e sistema de recompensas Qualidade das instalações
Financiamento
Rendimento das operações Gestão financeira
Yu, Hamid et al. (2009 )
Estudo piloto para investigar a aplicabilidade do BSC na gestão e medição de desempenho dos docentes do ensino superior
O artigo apresenta a investigação e o desenvolvimento e-BSC desenhado especialmente para medis e gerir o desempenho dos docentes; não apresenta as categorias de indicadores para cada perspetiva; o e-BSC foi desenvolvido e testado no Ensino Superior da Malásia.
Zangoueinezhad & Moshabaki
(2011)
Propor uma abordagem de tomada de decisão por multicritérios para medir o desempenho considerando as 4 perspetivas do BSC
Candidaturas
Satisfação dos estudantes Empregabilidade Antigos Alunos
Inovação curricular Classificações finais Docentes
Despesa por estudante
Investigação Parcerias
Excelência académica
Subsídios
Utilização das infraestruturas
Wu, Lin et al. (2011)
Desenvolver um conjunto de índices de avaliação de desempenho baseados no BSC para centros de educação ao longo da vida nas universidades, utilizando a decisão por multicritério
Satisfação Fidelidade Quota de mercado Ambiente de aprendizagem Leque de serviços Flexibilidade do serviço Imagem e reputação Confiança Qualidade Oferta educativa Serviço pós-venda Características da escola Avaliação da qualidade do ensino Eficiência administrativa Pessoal: satisfação, produtividade, estabilidade Qualidade do serviço Rendimento Orçamento Produtividade Investimento Al-Ashaab, Flores et al. (2011)
Propor um BSC para medir os resultados da investigação realizada em colaboração universidade- indústria
Perspetiva das parcerias estratégicas (desenvolvimento de novas parcerias com entidades externas à organização)
Perspetiva dos processos internos (processos da organização necessários à partilha e aplicação dos resultados das parcerias) Perspetiva de desenvolvimento
sustentável (impacto no ambiente social e económico)
Perspetiva da inovação (criação de valor através de novos produtos, processos, etc.) Perspetiva do capital humano
(capacidade de desenvolver, partilhar e difundir
conhecimento novo que conduza ao crescimento da organização) Perspetiva da competitividade (desenvolvimento de novos modelos de negócios/ ferramentas/metodologias para melhorar o desempenho)
De uma forma geral, as aplicações do BSC no contexto do Ensino Superior revelam que este constitui um instrumento útil na gestão estratégica das universidades reconhecendo assim os seus benefícios. Se uma universidade alinhar medidas de eficácia em medidas relativas aos seus processos centrais e à sua missão, poderá estar numa boa posição para conseguir e/ou manter a excelência entre mudanças turbulentas que possam ocorrer (O'Neil, Bensimon et al., 1999). Ou seja, o BSC constitui uma ferramenta relevante para que as universidades reforcem a importância da necessidade de gerir ao invés de apenas monitorizar o seu desempenho (Cullen, Joyce et al., 2003). De facto, o BSC é perfeitamente adaptável ao contexto do ensino superior, sendo que oferece às universidades a oportunidade de formular um conjunto de medidas para traduzir a sua missão de criar conhecimento, partilhando e utilizando num sistema compreensivo, coerente, comunicador e mobilizador junto dos stakeholders externos ou outros (Umashankar & Dutta, 2007). Por outro lado, o BSC revitaliza a própria universidade e ajuda a estabelecer um programa de melhoria contínua facilitando a formulação de iniciativas estratégicas (McDevitt, Giapponi et
al., 2008).
No contexto da investigação realizada nas universidades em parceria com as organizações, o BSC pode ser bastante útil para medir e melhorar o impacto da realização de projetos colaborativos entre as organizações e as universidades (Al-Ashaab, Flores et al., 2011).