2. A CASA-LAR
3.1 O BEBÊ QUE DUAS MULHERES DESEJAM
Adrielle foi uma menina desejada por duas mulheres, a mãe e a prima da mãe. Objeto de disputa entre elas, acabou sendo abrigada por intervenção do CT. Seus pais biológicos estão em tentativa de restituição de sua guarda e sua história demonstra padrões de julgamentos morais por parte das mães sociais em relação à mães que perdem crianças.
Demonstra ainda como crianças abrigadas nem sempre são crianças "indesejadas" por suas famílias de origem.
Ao chegar na casa-lar, ainda em janeiro de 2007, observei que dois desconhecidos estavam no espaço. Eram os pais biológicos de Adrielle, de 1(um) ano e 3 (três) meses. Eles seguravam a menina no colo, muito afetivamente. Adultos e crianças não prestavam muita atenção nos três. Lucia, a assistente social, havia contado que a mãe sofreu de depressão puerperal e precisou de internamento em hospital psiquiátrico. A mãe havia entregado a filha aos cuidados de uma prima, que se afeiçoou à menina e disse ao CT que seus pais eram esquizofrênicos, com o intuito de que a guarda de Adrielle lhe fosse entregue. Diante da disputa pela criança, a menina foi abrigada, e assim está há cinco meses. Na hora do lanche, nesse mesmo dia, o primeiro dia em que os pais puderam visitar sua filha abrigada, ninguém os convidou para sentar à mesa, e depois que todos haviam comido a cozinheira os chamou para comer. Eles sentaram sozinhos na mesa já vazia. O casal parecia envergonhado. Os pais persistiram nas visitas, mesmo sendo olhados com muita desconfiança. No início, a mãe pedia que a cozinheira preparasse a mamadeira de sua filha, e amamentava a menina em pé, no pátio, como se tivesse fugindo das vistas dos funcionários. Após um mês de visitas semanais, nas quais os pais ficavam todo o tempo que lhes era permitido pelo juiz, eles passaram a sentar na sala de estar. A mãe já ajudava na amamentação de outros bebês, oferecendo mamadeiras a outros bebês assim que sua filha havia terminado de mamar. Os dois sempre eram muito carinhosos com todas as crianças, o pai brincava com as crianças mais velhas, que começaram a levá-lo para o interior da casa, para os quartos. A mãe perguntava detalhes da semana de sua filha logo quando chegava, e assim, as funcionárias, que a consideravam uma mãe inapta, por haver perdido sua filha, passaram a incluí-la na rotina da casa. No início das vistas e do ponto de vista da casa-lar, os pais de Adrielle eram estranhos, eram de fora.
Certa vez me surpreendi com Irene, a mãe biológica, preparando as mamadeiras na cozinha. Ela abria os armários, acendia o fogão e se mostrava muito à vontade na casa e na sua função de cuidar da filha. A essa altura, os pais já sentavam à mesa na hora do lanche, com todos os adultos, ajudando as crianças ao redor. O pai permanecia com sua filha no colo muito tempo e as funcionárias começaram a ressaltar a semelhança física entre os dois.
Os comentários agora eram: eles têm cara de loucos, mas são legais. Quando a mãe da menina coletivizou o exercício da maternagem, ou seja, passou a cuidar de várias crianças, ela foi aceita como uma pessoa de "dentro" da casa-lar, se tornando uma "mãe social" ao exercer a maternidade ao modo nativo. Adrielle passou a ser chamada pelo feminino do nome do pai, Jorge, quando eles não estavam presentes. Em tom de brincadeira, as funcionárias trocavam o nome da menina quando essa fazia alguma gracinha: isso mesmo Jorginha, dá risadinha.
Quando o pai estava presente, ela era chamada de Adri. O fato da menina ser "nervosa" era
sempre ressaltado e eu sempre escutava comentários do tipo: será que essa menina puxou quem? O pai ou a mãe? Será que vai parar no hospício também? Irene e as funcionárias passaram a interagir mais, conversando na cozinha, como todos os adultos fazem e trocando muitas informações sobre a menina. As funcionárias relatavam as atividades da menina na ausência da mãe de forma detalhada e cuidadosa. Lenta e continuamente, os pais passaram a ser moralmente julgados de outra forma, de loucos que perdem filhos, passaram a ser encarados como vítimas: coitada da Irene, tomara que tenha a Adri de volta. De incompetentes, Irene e Jorge passaram a ser vistos como vítimas. A torcida mudou na casa-lar, as pessoas começaram a torcer para que fosse restituída a guarda da menina ao casal. Maria, a diretora, que se mostrava muito preocupada com o fato da menina ser criada por pessoas com passagem por hospitais psiquiátricos, sempre comentava que achava que esses pais não teriam responsabilidade suficiente para ter uma menina, pois a haviam perdido. Depois de algum tempo, ela já dizia que achava que o que a prima fez não foi certo, pois eles eram tão atenciosos e freqüentes nas visitas que haviam provado sua competência.
Em setembro os pais começaram a poder levar a menina para passar o final de semana em sua residência e todos estavam contentes com o andamento do caso. É provável que a guarda seja restituída a eles, como se acredita certo na casa-lar80. Não tendo eles arrefecido em sua demonstração de desejo pela guarda da menina, eles provaram sua capacidade de serem pais, ou seja, quando Irene passou a fazer parte do plano íntimo da casa, e dos afazeres das mães sociais, do cotidiano, ela passou a ser considerada mãe da menina. Esse fato me levou a pensar nos vínculos entre mães sociais e crianças, que estão para além do mercado. Os pais passaram a fazer parte do circuito interno de trocas da casa-lar, este que inclui cuidados com as crianças.
A história de Adrielle, que se inicia com uma crise em sua família de origem, é entendida como um fracasso dos pais em manter a filha consigo. Durante seu abrigamento os pais exerceram papéis de voluntários não só para a recuperação de sua filha, como também para a recuperação de sua capacidade de pais. A mãe coletivizou sua maternidade, cuidando não apenas da filha, mas de todas as crianças. Desta forma, como em um ritual de cura, os pais provaram sua capacidade ao exercício da paternidade.
80 Em recente contato com a casa-lar, em janeiro de 2008, fui informada que a guarda de Adrielle foi restituída à Jorge e a Irene. A menina voltou à sua família de origem.